Para manter a dominação, é indispensável reescrever a História, por Sebastião Nunes

Melhor tentar adivinhar o futuro longínquo do que o futuro próximo, mais próximo do caos absoluto.

Para manter a dominação, é indispensável reescrever a História

por Sebastião Nunes

Com o suspiro profundo e inconsciente que nem a macrotela o impedia de soltar no início de cada jornada de trabalho, Wilson aproximou o falaescreve, colocou os óculos e inclinou-se para a frente. Estava pronto para começar.

Recolheu da bandeja em frente quatro tiras de papel, que leu cuidadosamente. Cada uma continha uma mensagem de uma ou duas linhas, numa escrita abreviada, não exatamente na Novilíngua, mas no dialeto que se empregava entre os camaradas do departamento de imprensa escrita.

Sua tarefa diária consistia em reescrever ou, no jargão da Novilíngua, “retificar” notícias ou artigos publicados no jornal O Globo, principal porta-voz da extrema direita (quando a dicotomia política ainda tinha importância, e extrema direita significava oposição a partidos de esquerda) e que, como vários outros periódicos, tornara-se fiel seguidor do Grande Irmão.

Quanto aos textos que retificava, eram publicações novas ou antigas que não podiam continuar arquivadas exibindo erros evidentes. Embora o acesso aos arquivos só fosse permitido aos membros do Partido Interior, cuja dedicação ao Grande Irmão era absoluta e inquestionável, qualquer deslise seria fonte de problemas. Por menor que fosse, todo erro descoberto (pois alguns, embora raramente, escapavam à vigilância extrema) acarretava punições severas.

Era um trabalho lento, minucioso e cansativo, mas ao qual Wilson dedicava, com prazer, as horas passadas no Miniver. Depois, de revisado, cada texto retificado era prontamente arquivado em substituição ao anterior, por sua vez destruído de imediato.

Na parede do cubículo que ocupava, apenas um entre centenas, nos quais trabalhava igual número de membros do Partido Exterior em tarefas análogas, havia dois buracos. O primeiro, redondo, era conhecido como “buraco de memória”. Quando determinado documento fosse retificado, o original, já sem qualquer serventia, era jogado nesse buraco, até alcançar o mais baixo pavimento do subsolo do Miniver, onde desaparecia para sempre, provavelmente incinerado ou diluído em ácidos corrosivos. O segundo buraco, retangular, era um plano inclinado com um sistema de roldanas, pelo qual subiam dentro de envelopes pardos os jornais requisitados.

 

TAREFAS IMEDIATAS

O que Wilson leu nas tiras de papel foi o seguinte:

Globo 05-12-2022: informe g1 dado errado Terrabitantes retificar

Globo 10-01-2034: checar edição hoje estimativa 4º trimestre corrigir erratas

Globo 10-05-2066: Minidância informação malcitada retificar

Globo 11-05-2084: reportagem ordemdia g1 duplomaismal refere impessoas reescrever total

Com uma sensação de eufórica alegria, Wilson pôs de lado a quarta mensagem. Era um trabalho delicado e de responsabilidade, do tipo que mais gostava. Melhor deixá-lo para o final. Os demais eram questões de rotina, embora o segundo obrigasse, provavelmente, à revisão tediosa de dados e mais dados.

O primeiro informe, se referia a uma notícia sobre a pandemia da Covid-19 e a população terrestre. O texto referia oito bilhões de habitantes, quando, na realidade, nos anos 2021 e 2022, o total nunca havia ultrapassado, conforme era sabido, 500 milhões.

O segundo, que de fato se revelou trabalhoso, exigia muita atenção e diversas consultas a outros arquivos até a retificação dos números.

No terceiro, era preciso retificar o informe sobre distribuição de açúcar.

Wilson requisitou pelo falaescreve os exemplares necessários e se concentrou.

Abriu o exemplar relativo a 05-12-2022 e leu o informe:

“Entre 2021 e 2022, os oito bilhões de habitantes da Terra foram vacinados contra a Covid-19. Em consequência, as infecções regrediram até quase desaparecerem. O vírus havia causado, em menos de três meses, 300.000 mortes nos cinco continentes, numa média aproximada de 3.000 óbitos por dia. Ao mesmo tempo, e sem que ninguém conseguisse resolver o problema, a desnutrição, com seu cortejo de doenças carenciais, matou 8.500 crianças diariamente. Bem mais que o dobro das mortes pela Covid-19.”

Era uma retificação simples, bastando trocar oito bilhões por 500 milhões. Foi o que fez Wilson, ditando no falaescreve os novos números e jogando o exemplar inútil do Globo no buraco da memória: estava corrigido o primeiro erro do dia.

Em seguida, abriu o segundo exemplar, procurando as estimativas de produção para o 4º semestre de 2034, que correspondia ao 6º trimestre do Nono Plano Trienal. As informações estavam claramente sobrestimadas, o que exigiu de Wilson a leitura atenta e minuciosa do Nono Plano. Em seguida, bastou rebaixar as estimativas de produção para que correspondessem à previsão.

Faltava apenas retificar o terceiro exemplar e, em seguida, entregar-se à tarefa de que mais gostava: apagar, em definitivo, existências que, de alguma forma, haviam se tornado inimigas do Partido Interior.

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3 comentários

  1. Sobre Covid, no dia de hoje, vejam as filas por toda ITALIA. Caiu a farsa e histeria com poucos raios de sol no calor da Primavera. Mas deve ter sido culpa do Bolsonaro. Sabemos. Sobre seu Título : “…Para manter a dominação, é indispensável reescrever a História…” É perfeito. Ditadura Caudilhista Absolutista Assassina Esquerdopata Fascista virou Projeto de Estado, Projeto de Democracia, reescrito por seus Feudos, Satélites e Nepotismo: João Goulart, Alzira Vargas, Juscelino Kubscheck, Gaspar Dutra, UNE, Luis Carlos Prestes, Ivete Vargas, Assis Chateaubriand, USP, Adhemar de Barros, UDN, Leonel Brizola, OAB, Universidades Federais, Filinto Muller, Aécio Neves, Tancredo Neves,… Sem Revisionismo Histórico, como um Assassino Ditador se tornaria o ‘Paí da Pátria’ de Nossas Elites Absolutistas? Alicerce para um Estado pseudo Democrático?! Pobre país rico. É a Pátria da Surrealidade. Mas de muito fácil explicação. PEPE

  2. EXISTEM MENTIRAS E “MENTIRAS”

    O galanteador Boaventura, lá das Minas Gerais da região de Eloy Mendes, abordou Wilma em cantada inicial num pic-nic no horto florestal de Sampa… e disse: Posso saber qual é o seu nome? … como resposta: Claro que pode, meu nome é Wilma! Meio que surpreso pela resposta da abordada, pergunta de sopetão: Mas é Wilma com V ou com W?… e ela responde: é Wilma com W, igual ao da estrela Wilma Bentivegna!!! Numa faísca de criativa saída escapista para casos de inferiorização iminente, Boaventura emenda: Prazer, eu sou o Wilson!!! Wilson com W igualzinho aos artistas dos istaites!!!!! E o namoro começou e hoje, após 30 anos continuam juntos, catapultados pela mentira de providencial de sobrevivência romântica do Boaventura.

  3. EXISTEM MENTIRAS, “MENTIRAS” E VERDADES….

    O galanteador Boaventura, lá das Minas Gerais da região de Eloy Mendes, abordou Wilma em cantada inicial num pic-nic no horto florestal de Sampa… e disse: Posso saber qual é o seu nome? … como resposta: Claro que pode, meu nome é Wilma! Meio que surpreso pela resposta da abordada, pergunta de sopetão: Mas é Wilma com V ou com W?… e ela responde: é Wilma com W, igual ao da estrela Wilma Bentivegna!!! Numa faísca de criativa saída escapista para casos de inferiorização iminente, Boaventura emenda: Prazer, eu sou o Wilson!!! Wilson com W igualzinho aos artistas dos istaites!!!!! E o namoro começou e hoje, após 30 anos continuam juntos, catapultados pela mentira de providencial de sobrevivência romântica do Boaventura.

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