Poema libertário ante a barbárie, por Dora Incontri

Que faremos nós então? / Quem pensa, com sofrimento, / Nas perdas e nos abismos / Do Brasil em sangramento?

Poema libertário ante a barbárie, por Dora Incontri

 

Sem vontade de escrever

Análise racional

Pois não há razão nenhuma

Na tragédia nacional…

 

Sem enxergar uma luz

Para as nossas desventuras

Já que adentramos sem tréguas

A pior das ditaduras…

 

Resta-me então a poesia

Qual Castro Alves pariu

Para chorar a bandeira

Aviltada do Brasil…

 

Esse solo devastado

Por Brumadinhos impunes

Por Amazônia rasgada

Por mortas aves implumes…

 

A justiça travestida

Em picadeiro bizarro

A nação esquartejada

Por lideranças de barro…

 

Mortes, exílios, prisões

Ridículo mundial

E tanto povo apoiando

A tragédia social…

 

Aluvião de miséria

Miséria de pão e de luz

Terraplanismo sem nome

Olavismo credo-cruz!

 

Estado laico já morto,

Direito dilacerado

Não falta nem mais um passo

Para a imersão no passado.

 

Que faremos nós então?

Quem pensa, com sofrimento,

Nas perdas e nos abismos

Do Brasil em sangramento?

 

Que faremos, impotentes,

Vendo esses homens comprados

Arrebentando os futuros

Que foram antes sonhados?

 

Homens de terno e bravata

Sem cuidado com ninguém

Sem pensar que estão ferindo

Os próprios filhos também…

 

Voltando ao Brasil colônia

Submisso, fraco e servil

Nada sobrará aos nossos

Senão um futuro vil.

 

O que está feito já mata

As esperanças mais perto

E o presente nos será

Um deprimente deserto…

 

Só a esperança mais ao longe,

Mais cansativa e esforçada

Pode abrir uma clareira

À nossa vista embaçada.

 

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Uma jornada mais lenta

Num trabalho em mutirão

Minucioso e profundo

Que se faça educação!

 

Não é o Estado burguês

Que dará suas migalhas

De proteção e de escola

Com condutores canalhas…

 

Não será o Estado mínimo

Com máximo de violência

Que distribuirá justiça

E vencerá a indecência.

 

Seremos nós mesmos, povo…

Organizando as escolas

Semeando a cura mútua

Com as próprias, firmes solas.

 

Não mais Estado patrão,

Não mais ilusão de colo

Não mais as armas em punho

Não mais dividido solo…

 

Uma só humanidade

Unida contra a riqueza

Dos que exploram o planeta

Sulcando nossa pobreza.

 

União horizontal

E não pedido aos de cima

A ninguém darmos direito

De votar por nosso clima.

 

Trabalho longo, bem sei

Esforço árduo, concordo.

Talvez um século ou dois

Para rumar à bombordo.

 

Então, apesar das lágrimas

Que derramamos agora

Sintamos o rumo certo

Para singrar sem demora.

 

Não há mais Estado-pai

Não há mais patrão legal

Não há mais igreja sã

Não há mais poder moral!

 

Deus é amor, não justiceiro

Poder é do povo apenas

Não o entreguemos jamais

Já sabemos quais as penas.

 

Não mais os representantes

Que vendem o nosso voto

Não mais juízes que punem

Segundo seu próprio moto.

 

Adeus poderes humanos!

Só exista o poder do amor

A paz solidária e justa

Sem pátria, lucro ou senhor!

 

É longo o caminho, sim.

Nossos pés já vão sangrando

Mas há um horizonte certo

No porvir nos acenando…

 

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