Gigantes do petróleo usam desinformação como arma no debate climático

Estratégia das companhias de combustíveis fósseis mudou da simples negação em relação às mudanças climáticas para a tentativa de “limpar” sua imagem e questionar soluções propostas para conter a crise ambiental

Em 2020, essas companhias gastaram US$ 9,6 em postagens pagas apenas no Facebook

da Rede Brasil Atual

Gigantes do petróleo usam desinformação como arma no debate climático

Por Glauco Faria, para a RBA

São Paulo – Durante boa parte da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2021, a COP26, as companhias de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) investiram pesado em ações na mídia para tentar limpar sua imagem diante das inúmeras evidências científicas de que sua produção contribui de forma decisiva para as mudanças climáticas. Para isso, buscaram promover não somente o chamado greenwashing, propondo soluções falsas e se apresentando como “empresas verdes”, mas também disseminando desinformações com o objetivo de atrasar iniciativas mais assertivas no cenário atual de emergência climática.

Segundo o think tank britânico InfluenceMap, durante a COP26, a chamada Big Oil e seus lobistas gastaram mais de US$ 574 mil em anúncios relacionados a questões políticas e sociais nos Estados Unidos. Eles foram vistos 22,6 milhões de vezes. A plataforma, que alega remover desinformações apenas quando elas colocam em risco a vida das pessoas, sempre de acordo com seus próprios critérios, tem sido um terreno fértil para estas companhias. Outra pesquisa, também do InfluenceMap, encontrou 25.147 anúncios de 25 organizações do setor de petróleo e gás na rede social nos EUA em 2020, que foram vistos mais de 431 milhões de vezes. Os anúncios tiveram um gasto total de US$ 9.597.376.

“Crucialmente, muitos desses anúncios continham conteúdo enganoso ou apresentavam informações que estavam desalinhadas em relação à ciência das mudanças climáticas de acordo com os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e da Agência Internacional de Energia sobre atingir o zero líquido até 2050″, aponta a pesquisa.

Este e também outros levantamentos mostram que a estratégia das gigantes do setor mudou com o decorrer do tempo. No passado, o objetivo era negar direta e indiretamente ou lançar dúvidas sobre as mudanças climáticas. Contudo, diante da impossibilidade cada vez maior de contestar os trabalhos da ciência no campo ambiental e com a pressão de parte dos investidores, reguladores e do público em geral, a negação total se tornou inviável, embora ela ainda circule por meio de comunicadores e veículos ditos informativos em todo o mundo. Agora, as empresas de petróleo e gás desenvolveram técnicas de mensagens mais sutis, muitas vezes utilizando elementos da própria ciência de maneira enganosa.

A professora associada de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade DePaul em Chicago, Jill Hopke, que pesquisa comunicação sobre mudanças climáticas, movimentos sociais e mídias sociais, dá um exemplo de como se dá esta ação na prática. “Uma coisa que descobri foi que as contas da indústria de combustíveis fósseis não falam sobre ‘baixo carbono’, mas sobre ‘baixo teor de carbono’. Essa é uma diferença retórica sutil, mas importante. O que significa ‘baixo teor de carbono’ não é tão claro. Para mim, fica evidente que não significa uma mudança fundamental em relação a petróleo, gás e carvão. Portanto, embora pareça bom falar sobre ‘baixo carbono’, precisamos ter em mente que eles não estão realmente falando sobre abandonar os combustíveis fósseis em uma escala significativa, pelo menos não nas próximas décadas”, explica, em entrevista à RBA.

“As contas corporativas dessas grandes empresas que contribuem para as mudanças climáticas estão se posicionando como parte da solução, por exemplo, falando sobre seus investimentos em energia renovável, que ainda são uma parte relativamente pequena de seu modelo de negócios geral. Os estudiosos da desinformação climática têm realizado extensas pesquisas nos últimos anos sobre como essas grandes empresas de petróleo e gás sabiam que seus produtos causavam as mudanças climáticas, muito antes de esses riscos serem amplamente conhecidos pelo público em geral”, pontua.

As companhias de petróleo e a desinformação sobre o clima nas redes sociais

O trabalho de desinformação tem nas políticas adotadas pelas grandes plataformas de rede sociais um aliado. Além de o Facebook ter diretrizes frágeis em relação à circulação de informações falsas de uma forma geral (com um algoritmo que facilita até mesmo sua disseminação), no Twitter também há brechas aproveitadas pela Big Oil.

Embora a empresa proíba a veiculação de anúncios políticos pagos, a repórter Emily Atkin mostrou, em fevereiro deste ano, que ao menos dois anúncios do American Petroleum Institute (API), o maior grupo comercial da indústria petrolífera do país, se opuseram a “restringir o desenvolvimento de gás natural e petróleo em terras e águas federais”. Os anúncios na plataforma foram divulgados em 26 de janeiro, um dia antes do presidente dos Estados Unidos Joe Biden divulgar uma série de ações relacionadas ao enfrentamento da crise climática, incluindo uma justamente para restringir o desenvolvimento de novos combustíveis fósseis em terras e águas federais.

Somente depois de ser inquirido pela repórter, o Twitter reconheceu que as publicações da API estavam “violando a política de conteúdo político” e não seriam mais executadas. O que não impediu que outras postagens pagas das grandes companhias continuassem sendo veiculadas normalmente.

“A base de todos esses anúncios é um esforço calculado para promover certas posições políticas e a opinião pública que atendem a interesses corporativos específicos”, disse na matéria da Heated o sociólogo ambiental Robert Brulle, que estuda anúncios da indústria petrolífera na Universidade Drexel. “Isso tudo é inerentemente político e deve ser rotulado como tal pelo Twitter.”

A opacidade das plataformas é um problema e dificulta saber o tamanho real da influência das publicações impulsionadas. “É provável que a maioria das visualizações das postagens da indústria de combustíveis fósseis venha de publicidade digital paga em plataformas sociais como Facebook e Twitter. A publicidade paga no Twitter é difícil de rastrear, pois a plataforma tem um problema de transparência”, pontua Jill Hopke.

O papel da mídia tradicional

Mas não é apenas nas redes sociais que as gigantes dos combustíveis fósseis conseguem influenciar. Veículos da mídia tradicional têm um papel importante em relação ao ponto em que chegamos no cenário de emergência climática.

“Foram realizadas pesquisas no campo da comunicação climática pelos estudiosos Maxwell Boykoff e Jules Boykoff olhando para a imprensa de prestígio dos EUA, ou seja, o New York Times, o Washington Post, o Los Angeles Times e o Wall Street Journal. Eles descobriram que no início da cobertura, entre os anos de 1988 e 2002, esses jornais tentavam ser ‘equilibrados’ ao cobrir as mudanças climáticas, dando espaço e entrevistas ao que era percebido como os dois lados da questão. Estes veneráveis veículos de notícias inadvertidamente perpetuaram a ideia de que havia mais dúvidas sobre a ciência das mudanças climáticas entre os cientistas do clima do que realmente havia”, explica Jill Hopke.

Um caso recente e exemplar em relação ao compromisso ético de empresas jornalísticas foi denunciado pelo site Heated nesta semana. O podcast The Daily, do New York Times, divulgou um anúncio da ExxonMobil, considerada a quarta empresa de combustíveis fósseis mais poluente do planeta, que contrariava a diretriz do jornal de não divulgar anúncios de companhias de petróleo que desinformassem as pessoas sobre a crise climática. O NYT justificou a peça alegando que tal proibição não se aplicava ao podcast.

O anúncio da Exxon, como destaca o Heated, usou uma técnica comum de desinformação climática chamada paltering: nenhuma sentença individual era 100% falsa, mas juntas elas criaram uma impressão enganosa da empresa e de seus esforços climáticos.

Em outros casos, o que atrapalha a cobertura midiática é a busca pela manchete fácil que tira a atenção dos debates centrais. “Um exemplo disso que surgiu em minha pesquisa sobre como a COP26 era falada nas redes sociais foi uma falácia lógica envolvendo viagens de avião a Glasgow para a Cúpula do Clima. Embora sim, eu concorde que não é uma boa aparência para líderes mundiais e celebridades estarem voando em jatos particulares para negociar sobre como lidar com a mudança climática, isso é uma distração dos problemas reais em questão”, argumenta Jill Hopke.

Embora, como dito antes, a estratégia de comunicação das grandes companhias em relação às mudanças climáticas tenha mudado no decorrer do tempo, 10% do conteúdo disseminado por think tanks conservadores dos Estados Unidos ainda questionam o consenso científico em torno das mudanças climáticas, segundo estudo publicado nesta semana na revista Nature Scientific Reports. Foram analisados materiais de 33 blogs com alta audiência e 20 think tanks, somando mais de 255 mil documentos de 1998 a 2020, a maioria deles dos Estados Unidos.

A pesquisa confirma que os ataques às “soluções climáticas” são os que mais crescem atualmente, o que envolve argumentos como o de que a energia renovável não pode substituir os combustíveis fósseis ou que a transição energética vai causar a ruína da economia, desemprego e inflação, ignorando-se os impactos humanos e sociais, mas também econômicos, das mudanças climáticas. “A desinformação sobre soluções climáticas é realmente o futuro da desinformação climática”, diz o coautor do estudo e pesquisador do Centro de Pesquisa em Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade Monash, na Austrália, John Cook, em entrevista a Kate Yoder, no site Grist.

Grandes sob pressão

Após a divulgação dos dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em agosto, as grandes companhias de petróleo e gás do mundo, assim como os governos nacionais em geral aliados a elas, entraram ainda mais na alça de mira daqueles que se preocupam com os efeitos das mudanças climáticas. Não à toa, já que aproximadamente 86% das emissões globais de dióxido de carbono, um dos principais gases de efeito estufa, provém da queima de combustíveis fósseis para a produção de energia e outros materiais.

A COP26 conseguiu avanços em relação à área, mas tidos como insuficientes por muitos diante das necessidades atuais. O texto final subscrito por representantes diplomáticos de quase 200 países menciona diretamente a necessidade de redução do uso de carvão mineral, o mais poluente dos combustíveis fósseis, embora não seja o mais utilizado. E, pela primeira vez, menciona o próprio termo “combustíveis fósseis”, ressaltando a necessidade de se cortarem os subsídios voltados para a sua produção.

Em manobra bastante comentada pela mídia de forma geral, a Índia conseguiu, na última hora, retirar a expressão phase out, similar à “eliminação” na tradução do inglês, no trecho relativo ao uso do carvão mineral, passando para phase down, algo que tem o sentido mais leve de “redução”. A China e também outros países como Arábia Saudita, Marrocos, Egito, Nigéria e Irã apoiaram o pleito.

O episódio reflete a complexidade e o jogo de interesses em torno do tema. Embora a delegação indiana tenha passado como vilã em análises mais apressadas, o jornalista Brandon Wu, em artigo publicado na Thomson Reuters Foundation, lembra que o país asiático tentou, dias antes, deixar o texto final mais incisivo, mencionando não apenas o carvão, mas também o petróleo e o gás, com a eliminação se dando de forma equitativa. Os Estados Unidos, no entanto, se opuseram.

“O texto que sobreviveu é cuidadosamente calibrado para se alinhar aos interesses dos EUA. Ao omitir petróleo e gás e permitir o uso contínuo de carvão com tecnologias de redução como captura e armazenamento de carbono (que, embora não comprovado e quase certamente impossível de implementar em escala, também é extraordinariamente caro e, portanto, acessível apenas para nações ricas), tem relativamente pouco impacto sobre os Estados Unidos e impacto desproporcionalmente grande em países em desenvolvimento como Índia e China”, pontua Wu.

Na prática, quase nenhum governo nacional está tomando medidas na escala necessária para enfrentar a crise climática, destaca ainda o jornalista. “Mas as nações ricas são as que em grande parte criaram a crise climática e falharam em agir com a urgência necessária nos últimos 26 anos de negociações”, aponta. E as ações e omissões dos governos se relacionam intimamente com os interesses econômicos das grandes companhias que exploram os combustíveis fósseis no mundo.

Um levantamento divulgado pela ONG Global Witness mostrou que, na COP26, as empresas de combustíveis fósseis contavam com 503 representantes, muitos deles em comitivas como a do Brasil. Se fossem um país, teriam a maior delegação presente no evento. O fato de também ser maior do que o total combinado das oito delegações dos países mais afetados pelas mudanças climáticas nos últimos 20 anos – Porto Rico, Mianmar, Haiti, Filipinas, Moçambique, Bahamas, Bangladesh e Paquistão – é um indicativo não só do poder concentrado dessas empresas e que também não há paridade de armas entre os dois lados.

O esforço de articulação política das grandes companhias não é concentrado em um único evento, mas uma tarefa permanente. Conforme dados da OpenSecrets.org, seis empresas de petróleo e gás com sede nos EUA (Chevron, Occidental, ExxonMobil, ConocoPhillips, Phillips 66 e Marathon Petroleum) haviam gasto em lobby, no primeiro semestre de 2021, US$ 14.979.800 no país. Outros US$ 55,6 milhões foram destinados à mesma atividade por companhias estrangeiras. Os interesses iam desde a manutenção de benefícios fiscais, passando por expansão de atividades e arrendamento de terras, além de combate à implementação de determinadas políticas destinadas à preservação ambiental. Os números levam em conta apenas as atividades de lobby legalizadas nos EUA, nas quais representantes com influência no Congresso Nacional, agências federais e na Casa Branca agem em nome de interesses privados.

Gasta-se muito para que se possa ganhar ainda mais. Um relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no início de outubro revelou que a produção e queima de carvão, petróleo e gás em 2020 foi subsidiada em US$ 5,9 trilhões, o que equivale a 7% do PIB mundial. O documento é abrangente por abordar não apenas os subsídios diretos, mas também os danos causados pela poluição gerada pelo setor e que não são compensados por quem os causa, o que inclui desde custos com saúde até os efeitos do aquecimento global. Cinco países foram responsáveis por dois terços dos subsídios: China, EUA, Rússia, Índia e Japão.

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1 comentário

  1. Precisamos, sim, distinguir claramente os diagnósticos climáticos das prescrições climáticas.

    Quanto aos primeiros, o estudo do fenômeno, existe de fato um consenso científico e negacionismos interesseiros devem ser combatidos com vigor, bem como os falsos isentos que pipocam na mídia conservadora. É por excelência uma tarefa para a Ciência, para a observação e estudo especializados, não para fé ou achismos, ainda que supostamente baseados na “razão”, assim como para sofistas e pitaqueiros que declaram a priori que uma floresta úmida não queima.

    Agora, as prescrições climáticas transcendem a dimensão científica, pois se situam no campo da criação, da arte, da técnica, da engenharia, da política, do direito. É a complexa modificação da realidade. Embora precisem ser derivadas do conhecimento científico, são multidimensionais, transcendendo a competência de cientistas especialistas, que muitas vezes opinam sobre esses assuntos de forma reducionista ou, pior, fazendo extrapolações com base em senso comum, por vaidade ou ignorância. Na pandemia vivemos algo semelhante.

    Quanto à necessidade de abolir o quanto antes o uso do carvão, salvo um ou outro uso de pequena escala em locais isolados, nenhuma controvérsia deveria haver. De reduzir o uso de petróleo, gradativamente restringindo seu uso a máquinas pesadas autônomas e a finalidades petroquímicas, idem (abolir totalmente no médio prazo o uso do petróleo como combustível é outra história, pois a turma do senso comum só fala em carros e jatinhos, “esquecendo-se” dos caminhões, dos trens, dos navios e dos aviões de grande porte).

    Agora, querer simplesmente banir o gás natural é burrice, leiguice. Energia elétrica não dá por aí, salvo nos raios – e ainda não aprendemos a capturá-los em loops supercondutores. A indústria de painéis solares é suja. A indústria de baterias é imunda. Barragens também causam grande impacto ambiental. Energia nuclear idem (inclusive já tendo desempenhado por muitas décadas o papel de vilã). A indústria de biocombustíveis também traz sérias questões ambientais e sociais. Não há energia totalmente limpa, apesar da turma do folclore e da mídia idiota que difunde mitos modernos naquelas reportagens sobre “tecnologia” feitas por jornalistas despreparados. O maior problema do gás natural é seu lançamento bruto na atmosfera, não sua queima em indústrias ou em usinas de geração de energia.

    Mais importante que combater falsos vilões, sem o necessário pensamento complexo, é jogar luz nas tentativas do sistema de apresentar soluções falsas ou paliativas, que deixam os paradigmas cruciais intocados. O carro elétrico é uma delas, que não muda a lógica do ineficiente transporte individual, da produção e descarte em massa de bens de consumo; pensem em toda a energia e água que consomem, mineração de que dependem e lixo que produzem ao longo de seu ciclo de produção e uso. Por exemplo, onde estão as discussões sobre mudança de legislação para aumento do prazo de garantia de bens duráveis, sobre direito à manutenção, sobre se acabar com essa sociedade de descartáveis? Não podemos continuar acreditando que dá para criar uma nova humanidade só com tecnologias, soluções exógenas, sem mudanças endógenas de hábitos e paradigmas.

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