A JBS e uma rede de prestadores de serviços financeiros tornaram-se alvo de 14 denúncias em quatro países europeus nesta semana. As acusações apontam suspeitas de lavagem de dinheiro baseada na comercialização de gado oriundo de áreas com desmatamento ilegal na Amazônia.
A ofensiva foi protocolada pela Coalizão Jurídica Transnacional (TLC) em agências reguladoras do Reino Unido, da Irlanda, da Alemanha e da Holanda. No caso holandês, país que sedia a controladora do grupo, a JBS N.V., os ativistas também apresentaram uma notícia-crime solicitando a abertura de investigação criminal.
Além da produtora de carnes, as representações atingem 12 parceiros comerciais da companhia, incluindo a filial londrina do Banco do Brasil e instituições financeiras, gestoras e auditorias de atuação global, como Rabobank, Barclays, BlackRock, EY e KPMG.
Rastreamento de rebanhos
O embasamento das ações é um levantamento da organização AidEnvironment, que mapeou o histórico ambiental de 12.576 fornecedores diretos e indiretos da JBS em Mato Grosso, no Pará e no Tocantins.
Os pesquisadores cruzaram dados de Guias de Trânsito Animal (GTAs), registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O estudo vincula esses pecuaristas a 6,6 milhões de hectares desmatados desde 1988, a maior parte degradada antes de julho de 2008.
Na amostra analisada, mais de 80% das fazendas apresentavam registros de supressão vegetal em áreas legalmente protegidas, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs). Embora reconheça que o atual sistema de rastreabilidade animal não consiga provar que um boi específico abatido pela JBS venha de área embargada, a coalizão afirma que o fluxo comercial evidencia o alto risco de irregularidades.
A tese do crime financeiro
A argumentação jurídica da TLC sustenta que o gado criado em terras desmatadas de forma irregular deve ser classificado como bem de origem ilícita. Dessa maneira, os lucros obtidos com sua venda e movimentados no mercado internacional configurariam lavagem de capital, sujeita às rigorosas leis do sistema financeiro europeu.
As denúncias argumentam que os bancos e as auditorias falharam em sua obrigação de monitorar transações de alto risco e de barrar negócios com empresas associadas a crimes ambientais.
“O desmatamento ilegal da Amazônia é um crime, não um modelo de negócio. Povos indígenas e diversos grupos da sociedade civil vêm lutando há décadas contra o lucro que empresas obtêm com essa destruição”, afirma Bláithín Quigley, coordenadora da TLC.
Respostas das empresas
Questionada sobre o processo, a JBS afirma não ter tido acesso integral ao relatório. Em nota, a companhia criticou a falta de transparência da organização responsável pelo estudo e defendeu seus mecanismos de controle:
“A JBS lamenta que a campanha da ONG tenha omitido os supostos dados em que se baseiam as alegações contra a Companhia, o que a impede de tomar providências a respeito. Não podemos nos manifestar sem acesso à metodologia do suposto estudo. Desde 2010, a JBS monitora seus fornecedores de gado na Amazônia. Com imagens de satélite e georreferenciamento, a empresa avalia cada transação com base em critérios definidos em protocolo estabelecido pelo Ministério Público Federal. O sistema analisa diariamente mais de 600 mil km² do território brasileiro e bloqueia automaticamente fazendas com desmatamento ilegal, áreas embargadas, sobreposição com terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação, ou trabalho análogo ao escravo.“
O Banco do Brasil também declarou não conhecer as denúncias formais, ressaltando suas políticas de conformidade legal e ambiental:
“Cabe destacar que o Banco do Brasil mantém políticas, procedimentos e controles de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, em conformidade com a legislação e a regulamentação aplicáveis. Em relação aos aspectos sociais, ambientais e climáticos, o BB adota procedimentos para identificar, avaliar, monitorar e gerir os riscos associados às suas operações e relacionamentos, observadas a regulamentação aplicável e suas normas internas. Entre os anos de 2024 e 2025, esse conjunto de mecanismos permitiu ao Banco do Brasil evitar o direcionamento de R$ 44,4 bilhões em financiamentos para áreas não alinhadas às diretrizes socioambientais, conforme divulgado no Capítulo Estratégia de Conservação Ambiental do Caderno ASG dos respectivos anos. O BB também observa o SARB 26, normativo da Autorregulação Bancária da Febraban que estabelece diretrizes para a gestão do risco de desmatamento ilegal na cadeia da carne bovina. Sobre operações específicas, o Banco do Brasil não fornece informações legalmente protegidas por sigilo bancário“.
Com informações do G1 e Brasil de Fato
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