Povo Guató tenta retomar a rotina no pós-queimadas, mas o trauma e os estragos ainda são muito recentes

Na reportagem especial do Amazônia Real, os indígenas relatam a perda de 92% de seu território destruído pelas queimadas ilegais – vindas de fazendas da região – durante os meses de julho a setembro.

Na imagem acima está João Guató, 73 anos, em meio a cinzas e troncos queimados em seu território (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)

Cuiabá (MT) –  Com muita garra, esperança e união, o povo da Terra Indígena da Baía dos Guatós, no Pantanal mato-grossense, vai se reerguendo depois da maior queimada já registrada no bioma, desde que o Instituto Nacional de Pesquisa Especiais (Inpe) começou a medir os focos, em 1998. Os efeitos colaterais ainda são muitos: roças e plantas medicinais devastadas, animais mortos, rio quase seco e, na cabeça de muita gente, o fogo ainda permanece vivo. “Foi um fogo que eu não consigo apagar ele da minha mente. Foi um fogo que me atormenta, me causa medo. Quando eu vejo uma lavareda de fogo perto de mim eu me sinto sufocada”, disse a anciã Sandra Guató.

Em Mato Grosso, as queimadas foram proibidas em todo estado em  15 de julho. Mas do mês da proibição até setembro – o período mais crítico – o que se viu foi um recorde de queimadas ilegais nos três biomas (Amazônia, Cerrado e Pantanal) ao ponto de destruir mais de 2 milhões de hectares da maior planície alagada do mundo, só na parte de Mato Grosso. Somando o território de Mato Grosso Sul, a área devastada chega a 3,9 milhões de hectares, o que representa 26% de todo o bioma. Os dados são do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A Terra Indígena (TI) Guató foi o último território demarcado pelo governo federal, em 2018. O ex-presidente Michel Temer (MDB) homologou a demarcação administrativa feita pela Fundação Nacional do Índio (Funai) com uma área de 20 mil hectares no município de Barão de Melgaço, no Mato Grosso. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) mantém, de 2019 até os dias atuais, a promessa de campanha de não demarcar uma terra indígena.

Os índios Guató são conhecidos também como os “índios pantaneiros”. No início de dezembro, a reportagem da Amazônia Real visitou a Terra Indígena Guató para saber o que ficou após as queimadas que consumiram 92% do território, de acordo com LASA.

O cenário ainda é de muitas cinzas e incertezas. Onde havia um verde intenso de uma vegetação vigorosa, hoje são enormes descampados de galhos secos e retorcidos pelas queimadas. As baías caudalosas também não se recuperaram e no momento se parecem mais como pequenas lagoas diante de uma paisagem chamuscada: “o capim nativo a gente já percebe brotando com as primeiras chuvas de outubro. Mas as árvores, o que foi queimado, queimou, não nasce mais. Agora, é só replantando”, destacou Alessandra Guató, uma das líderes de seu povo e presidenta da Organização de Mulheres Indígenas de Mato Grosso (Takinã).

À Amazônia Real, ela contou que a recuperação pós-queimada para as 80 famílias que vivem na TI teve início com o replantio de árvores e da roça, a partir das chuvas mais intensas que se iniciaram em novembro. “Recebemos doações de mudas para o plantio de Ipê, Jenipapo, Caroba e Aroeira. Já na roça, replantamos mandioca, banana, milho e melão, por exemplo. Serão frutas e verduras que servirão tanto para o nosso consumo quanto para venda e geração de renda à comunidade”, explicou Alessandra.

Já corixo – um pequeno rio afluente do Rio Cuiabá que passa dentro da TI – começou a encher timidamente a partir das chuvas de novembro. Alessandra explica que muitas partes do rio ainda estão rasas. Ela teme que muitos peixes possam morrer por conta da poluição das queimadas, quando o rio de fato começar a encher. “O pior ainda está por vir, pois quando o rio encher na parte onde estão as cinzas das queimadas, essas cinzas vão poluir o rio e tirar o oxigênio da água. Isso vai matar muitos peixes. E peixe é uma das nossas principais fontes de alimentação e de renda também”, lamentou Alessandra.

Enquanto a roça não germina, os Guató ainda dependem das doações de cestas básicas e galões de água, que começaram a chegar a TI em setembro. “Já recebemos doações de alimentos da Fepoimt [ederação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso], Casa Civil [Governo de Mato Grosso] e Funai [Fundação Nacional do Índio]; e de ferramentas para roça da Opan [Operação Amazônia Nativa] e da Umiab [União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira]”.

Apesar de toda dor e estrago, Alessandra avalia que as queimadas também trouxeram aprendizados. Um deles é se preparar para o ano que vem. Nesse sentido, a comunidade tem corrido atrás de apoio para conseguir tratores para fazer o aceiro, que funciona com uma espécie de barreira de contenção as chamas, bem como a formação de uma equipe de brigadistas indígenas, que estarão atentos e próximos, quando o fogo começar.

“Até porque, neste ano, a gente dependeu de brigadas que estavam muito distantes do nosso território. Já com os brigadistas locais, o combate é mais efetivo”, ressaltou Alessandra. Os Guató também pretendem buscar apoio para furar poços artesianos. Dessa forma, quando o fogo aparecer novamente, vai ter água em maior volume para combatê-lo.

“Nesse período tão difícil das queimadas, posso dizer que um dos maiores aprendizados foi a união, porque recebemos apoio de várias pessoas que a gente nem esperava receber. E posso dizer também que outro aprendizado importante foi a falta de conhecimento que a gente tinha para combater o fogo. Sendo assim, a gente espera se preparar melhor para enfrentar essa realidade no ano que vem”, reforçou Alessandra.

Um fogo que não se apaga da mente

Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros)

“Eu quando ouvi o estalo do fogo, quando ele estava passando era muitos bichos gritando, passarinho, macaco, capivara, eu não aguentei e chorei. Não gosto nem de lembrar. Foi terrível!”, conta Eunice Moraes de Morim, ao lembrar da noite que o fogo cercou a sua casa de madeira com cobertura de palha, no mês de setembro.

Ela tem 47 anos e é da região conhecida como “Aterradinho”, que faz parte do território Guató. No dia da queimada, Eunice estava em casa com as duas filhas, seis netos, a mãe e o pai, que tem mais de 100 anos.

Recorda que o fogo chegou no final da tarde, trazendo muita fumaça, fazendo o dia se transformar em noite. “Eu desesperada porque não tinha barco, não tinha para onde correr e aqui dentro de casa era só fumaça”.

Com a ajuda da irmã, Eunice conseguiu sair de casa e levar a sua família para o postinho de saúde dentro da comunidade, que também estava envolto de fumaça. Foi uma noite e outro dia inteiro de fogo intenso, que só não reduziu a casa de Eunice a cinzas graças ao esforço de vizinhos que com uma bomba d’água foram molhando o entorno para que as chamas não conseguissem chegar até a casa.

“Era um fogo muito alto. Foi terrível. As crianças tudo gritando e eu sem nenhum bote pra sair. Quando o fogo passou, a gente foi do outro lado, tinha muito bichinho morto, passarinho, dava muito dó de você olhar o que aconteceu. Para as pessoas que não tá [sic] aqui até não acredita no que a gente fala. Mas para quem estava aqui e assistiu, foi muito triste essa queimada. Até hoje eu fico pensando e falo com as crianças: o que era não vai voltar a ser nunca mais”.

Carlos Henrique Alves Guató (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)

Carlos Henrique Alves Guató, de 42 anos, lembra que o fogo estava distante, mas que de uma hora para outra invadiu a terra indígena: “Se aproximou muito rápido da nossa comunidade.  Saiu de fora e veio para dentro da reserva e veio devastando tudo, aqui na nossa região, por durante muitos anos, a gente nunca viu um fogo desse tipo”.

Henrique disse que a situação era tão dramática que ele não sabia quem socorria primeiro. “Todo mundo ficou preocupado com as casas. A gente mora um muito distante do outro e ficou difícil pra gente até ficar olhando a casa do vizinho, a gente socorria aqueles que vinham pedir socorro, porque a gente não sabia quem atender… ao mesmo tempo que eu estava atendendo a minha mãe, a gente estava atendendo a minha casa, e aí já chegou outro vizinho pedindo socorro, porque a casa dele também estava queimando, foi muito triste para nós…”, recorda Henrique.

Veja o vídeo Resiliência Guató

Fogo que vem de fora

Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)

Setembro, de longe, foi o período que mais registrou focos de queimadas no Pantanal: 5.859, de acordo com o satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Desse total, 5.188 focos (88%) surgiram em áreas clandestinas, fora dos registros dos órgãos de fiscalização e de imóveis cadastrados no Certificado Ambiental Rural (CAR) da Secretaria de Meio Ambiente (Sema-MT). O levantamento faz parte do sistema “Monitor das Queimadas”, ferramenta criada pelo ICV.

Os dados vão contra a fala do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido), e de fazendeiros da região, de que a maioria das queimadas no bioma foi provocada pelos próprios indígenas.

As causas das queimadas em imóveis privados ainda dependem de investigações mais específicas para se saber o motivo. Mas a grande maioria está relacionada a abertura de novas frentes agropecuárias, afirma o ICV, acrescentando que o desmatamento também está associado a lógica de expansão de cultivo de cabeças de gado.

A situação fez com que o Ministério Público Federal (MPF) pedisse, no final de setembro, ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para identificar a origem dos incêndios no bioma. Mas, passados quase três meses do pedido, O Ibama até agora não deu resposta e as investigações do MPF ainda não foram concluídas.

O que diz o Ibama

Brigadista tenta apagar o fogo no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)

Procurado pela Amazônia Real, o Ibama disse que enviaria por e-mail as respostas quanto às ações de combate e prevenção futura as queimadas nas terras indígenas do Pantanal. O órgão, por meio de sua assessoria de imprensa, também disse que comentaria sobre o andamento da fiscalização para punir os infratores que cometeram os incêndios criminosos, principalmente no mês de setembro.

Mas até a publicação desta reportagem, o Ibama não enviou as respostas. O espaço segue a aberto para a manifestação do órgão.

  • TI Baía dos Guatós, Eunice Moraes de Amorim (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • TI Baía dos Guatós,, Adílio Alves (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • TI Baía dos Guatós, Euclides de Amorim (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Terra Indígena Baía dos Guatós, MT (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Terra Indígena Baía dos Guatós, MT (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Terra Indígena Baía dos Guatós, MT (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Terra Indígena Baía dos Guatós, MT (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Animais sofreram com as queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Animais sofreram com as queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Animais mortos no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)
  • Queimadas no Pantanal (Foto: José Medeiros/Amazônia Real)

Marcio Camilo – É jornalista cuiabano e remanescente da Comunidade Quilombola de Mato Cavalo (Nossa Senhora do Livramento – MT). Atua nas áreas de política, jurídico, cidades, esportes, cultura e reportagem. Já foi diretor de Cultura do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor) – gestão 2013 a 2015 – e, em 2014, integrou o Comitê Popular Regional da Copa do Mundo, que discutiu os impactos das desapropriações nas comunidades periféricas de Cuiabá (MT). Atualmente é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGCOM-UFMT), no qual investiga o fenômeno do Jornalismo Declaratório na imprensa cuiabana.

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