10 de junho de 2026

Questões por trás da cratera aberta na Marginal Tietê

Sabesp despejou diariamente o equivalente a 86 piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento no rio Tietê ao longo de dois meses
Foto: Reprodução Facebook Sabesp

A abertura de uma cratera na marginal Tietê, em São Paulo, pode ter comprometido anos de trabalho na despoluição do rio – um trabalho conduzido justamente por quem deveria protege-lo: a Sabesp.

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A cratera em questão foi aberta no dia 11 de abril de 2025, na pista central da Marginal Tietê (sentido Castello Branco), nas proximidades da Ponte Atílio Fontana, na altura da saída para a Rodovia dos Bandeirantes.

A primeira análise descartava danos à tubulação e projetava três dias de reparos. Entretanto, o solo voltou a ceder em 12 de maio, e a cratera foi reaberta no mesmo local.

Para lidar com a questão e liberar o tráfego de forma mais rápida, a Sabesp optou por uma alternativa mais barata: esvaziar parte da rede de esgoto para viabilizar o acesso técnico a 18 metros de profundidade.

Isso implicou no despejo de esgoto sem tratamento diretamente no rio Tietê durante quase dois meses diariamente, em quantidade equivalente a 86 piscinas olímpicas de esgoto ao dia.

“O interceptor estava a 14 metros de profundidade e ficou a 18 metros. Uma fissura na parede de concreto pode ter levado ao rompimento com o colapso da boa parte do interceptor, com efeitos numa extensão de 20 a 40 metros”, ressalta o engenheiro Amauri Pollachi, que trabalhou por 30 anos na Sabesp e atualmente é pesquisador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS).

O plano emergencial foi encerrado apenas no dia 28 de junho, quando a Sabesp afirmou ter concluído o esvaziamento da rede e iniciado a fase definitiva dos reparos. Mas os danos já estavam feitos.

“O interceptor de esgotos, uma tubulação de 2,5 m de diâmetro, com parede em concreto e construída há cerca de 20 anos por método de escavação não destrutiva (similar ao tatuzão do Metrô), provavelmente rompeu devido à carga adicional de solo com espessura de 4 metros em razão da terraplanagem do terreno para a ampliação das pistas da Marginal Tietê, no governo estadual do Serra”, explica o engenheiro, ressaltando que tais dados só vieram a público via engenheiros que trabalharam no projeto, já que a administração (privatizada) da Sabesp não emitiu uma nota técnica sobre o que aconteceu e as providências tomadas.

Despejo agravou quadro de degradação do Tietê

Em setembro de 2024, dados da Fundação SOS Mata Atlântica indicavam que a mancha de poluição no rio Tietê havia crescido 29% em relação ao ano anterior, alcançando 207 quilômetros de águas impróprias.

Por conta do despejo de esgoto sem tratamento, existe o temor que os níveis de poluição tenham ultrapassado os patamares dos últimos dez anos.

A população carente que mora nos entornos não passou ilesa: durante os meses de maio e junho, moradores relataram aumento de casos de diarreia, vômitos, infecções de pele e mau cheiro constante.

O caso acontece em meio ao primeiro ano de privatização da Sabesp – em julho de 2024, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) finalizou a venda de uma parte do capital da empresa, colocando-a sob controle privado.

Alguns dados merecem atenção: em fato relevante divulgado recentemente, a Sabesp divulgou novas economias de água, esgoto e tratamento de esgoto, mas é preciso ter em vista que muitas novas economias de esgoto não possuem ligações de esgoto, pois são virtuais, obtidas por meio de um clique no sistema comercial.

“As quantidades de novas redes de água e de esgoto são antagônicas à evidente maior necessidade de expansão de esgoto para alcançar universalização! Divulgam-se 567km de novas redes de água ante 307km de esgoto! É uma contradição absoluta!”, destaca o engenheiro Amauri Pollachi.

Segundo a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), análises técnicas para avaliação dos impactos ambientais decorrentes do incidente estão em andamento.

“Em 30 de junho, durante reunião na sede da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a Sabesp apresentou um plano emergencial com prazo de 45 dias para execução de intervenções estruturais, incluindo o redirecionamento do esgoto da tubulação subterrânea, na altura da ponte Atílio Fontana, para outras estruturas. Segundo a companhia, o esvaziamento e isolamento completo do interceptor são etapas essenciais para viabilizar a recuperação definitiva da infraestrutura”, afirma a Cetesb, em nota oficial enviada ao Jornal GGN.

“O plano está em andamento e vem sendo monitorado pela Cetesb, em conjunto com a Arsesp e a URAE-1, por meio de fiscalizações em campo e reuniões periódicas com a concessionária”, destaca a autarquia.

Críticas à privatização

Desde a privatização, sindicatos e movimentos populares vêm denunciando cortes de equipes técnicas, falta de manutenção preventiva e atendimento mais lento em situações emergenciais.

“Um ano após a entrega da Sabesp à iniciativa privada, a nova gestão tenta reescrever a história da empresa com comparações enganosas e propaganda vazia. Em nova campanha publicitária, a direção afirma que vai investir, em cinco anos, mais do que a empresa pública investiu em cinquenta”, afirma o Sintaema – Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, em nota a respeito do  primeiro ano de privatização da Sabesp.

“Mas os números não sustentam esse discurso: segundo levantamento divulgado em publicação pela Folha de São Paulo, a Sabesp investiu mais de R$ 74 bilhões entre 1995 e 2024 — e, corrigidos pela inflação, esses valores ultrapassam R$ 135 bilhões. Ou seja, a promessa de “fazer em 5 anos o que não foi feito em 50” é, na prática, uma distorção grosseira da realidade”, diz o Sintaema.

“Por trás do discurso de universalização e modernização, o que há é o interesse da Faria Lima em transformar um serviço essencial em fonte de lucro para acionistas, às custas da tarifa do povo e da precarização dos serviços”, destaca o sindicato de funcionários da Sabesp.

“A expressiva perda de funcionários em curto período, grande parte com décadas de experiência em saneamento, sem retenção desse conhecimento técnico e aliada à centralização de tomada de decisões no ambiente corporativo, permite afirmar que está em curso um processo irreversível de degradação da qualidade dos serviços prestados e de resolução de problemas”, pontua o ex-engenheiro da Sabesp.

“Essa tentativa de apagar a história da empresa pública tem objetivo claro: legitimar a privatização – marca de campanha de Tarcísio de Freitas para 2026 – e mascarar um projeto que transfere um patrimônio coletivo para o controle do mercado financeiro. Um projeto que ameaça a qualidade do serviço, o acesso da população mais pobre à água e ao esgoto tratados, e a soberania hídrica do Estado de São Paulo”, reitera o Sintaema.

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Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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2 Comentários
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  1. ed.

    26 de julho de 2025 9:16 pm

    Ou seja, salvo engano, mais 5 mil piscinas olímpicas no período.
    Ou seja, cerca de 13 bilhões de litros de bo$ta e poluição no rio Tietê.
    É como se jogássemos no período 1 litro e meio de cocô liquefeito produzido por cada um de toda a humanidade atual.
    Não é pra brincar de fazer contas.
    É só pra colocarmos o problema em perspectiva.
    Não vamos esquecer que isto vai chegar lá na bacia do Prata e no oceano…

  2. Luciano Amaral

    27 de julho de 2025 8:53 am

    Vale ressaltar que a Sabesp tem know-how para lidar com situações deste tipo. Ela poderia ter posto uma ETE compacta no local, para amenizar o impacto. Qualquer consultor ambiental tem isso em mente. Isso é conseguencia da falta de zelo e consideração com o meio ambiente.

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