4 de junho de 2026

Sistema Cantareira perdeu 70% de mata em duas décadas

Enviado por mpaiva

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Do Deutsche Welle

 
Sistema Cantareira perdeu 70% de mata em duas décadas. Cobertura vegetal aumenta a vida útil dos reservatórios, além de prolongar tempo de abastecimento durante seca.
 
Depois de atingir o menor nível já registrado – apenas 8,4% da sua capacidade –, o sistema Cantareira, principal fornecedor de água da região metropolitana de São Paulo, vai em busca das últimas gotas. Nesta quinta-feira (15/05), a Sabesp inicia uma operação emergencial para recuperar o chamado “volume morto” do reservatório.

A crise no abastecimento de água não se deve apenas ao calor recorde e ao menor índice de chuvas já registrado nos últimos 84 anos. Especialistas defendem que o desmatamento em bacias hidrográficas contribui para diminuir a quantidade e a qualidade das águas, tanto superficiais quanto subterrâneas.

“Nós temos apenas 30% de área com florestas preservadas nesse manancial [Sistema Cantareira]. O restante precisa ser recuperado ou têm uso inadequado de solo”, afirma a coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro.

Resultados de um experimento feito pela ONG desde 2007 – que restaura uma floresta num centro em Itu, interior de São Paulo – comprovam essa relação. “Em 2012, apenas cinco anos depois, foi verificado que o nível dos lençóis freáticos subiu 20% e o dos reservatórios, 5%”, argumenta Ribeiro.

Estudos apontam que a floresta atua como reguladora do ciclo hidrológico, atenuando os impactos de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. “A floresta aumenta a resiliência dos mananciais. O desmatamento não é causa da seca, mas, se houvesse maior cobertura vegetal, o esgotamento dos reservatórios poderia ser evitado”, diz Ribeiro.

O problema, entretanto, não está restrito a São Paulo. De acordo com um levantamento inédito do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, os reservatórios considerados críticos pela Agência Nacional de Águas (ANA) perderam em média 80% de sua cobertura florestal.

“Ainda estamos detalhando o estudo, mas já podemos perceber que uma das semelhanças entre os mananciais críticos em relação ao abastecimento de água é o desmatamento”, explica o coordenador geral do Pacto e diretor para Mata Atlântica da Conservação Internacional, Beto Mesquita.

A pesquisa inclui as capitais do litoral do país, além de Belo Horizonte, Curitiba e São Paulo, bem como cidades do interior paulista, como Sorocaba e Campinas.

 

Abastecimento de água da metrópole paulista está ameaçado

O papel da floresta

 

A floresta tem uma série de funções no ciclo hidrológico. Quando a chuva cai num terreno com cobertura vegetal, a água infiltra lentamente no solo, até atingir os lençóis freáticos. Aos poucos, ela aflora nas nascentes e enche os rios, até chegar às represas.

“A floresta quebra a energia da chuva, porque parte da água fica na cobertura das árvores e atinge o chão devagar. Além disso, o solo da mata é muito poroso, com matéria orgânica e raízes. Por isso, há mais espaço interno e maior capacidade de armazenamento”, explica Mesquita. Ele aponta também que, por essa característica, o solo da floresta libera um fluxo de água mais constante, mesmo durante uma estiagem.

Malu Ribeiro ressalta que o desmatamento ao redor do Cantareira está prejudicando a oferta de água na região. “O sistema está localizado no fundo do vale do Rio Jaguari, que tem um conjunto de nascentes na Serra da Mantiqueira. O desmatamento no curso dos rios até o reservatório faz com que essas nascentes desapareçam e os cursos d’água não consigam se recuperar.”

Enchentes e assoreamento

Onde não há floresta, a infiltração da chuva no terreno é mais difícil. Num solo de pastagem, por exemplo, a quantidade de água escoada é até 20 vezes maior que em área de vegetação, segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Philip Fearnside.

Por esse motivo, em período de muita precipitação, áreas desmatadas estão mais sujeitas a enchentes. A água escoa rapidamente e em quantidade, enchendo os rios e represas, muitas vezes de forma desastrosa. Neste processo, a água carrega consigo muito material orgânico, erodindo o terreno e assoreando os reservatórios.

“Esse é um problema grave no Brasil e principalmente no Sistema Cantareira, porque perdemos a capacidade de reservar água. Quando chove muito, o excedente acaba sendo jogado fora”, argumenta Ribeiro.

Segundo Mesquita, por evitar o assoreamento, a floresta aumenta a vida útil do reservatório, além de prolongar o tempo de abastecimento durante uma seca.

Umidade e qualidade da água

Outra importante função da floresta é reter água da atmosfera. Na bacia do Rio Guandu, no estado do Rio de Janeiro, 30% da água é incorporada ao sistema por essa via, segundo estudo da Conservação Internacional. “Quando vêm a neblina e nuvens carregadas, quanto mais floresta tiver em regiões montanhosas, maior a retenção de água”, diz Mesquita.

A floresta contribui para manter a umidade do ar, através da transpiração das plantas. “Cerca de 30% da água na atmosfera vêm das florestas. Num reservatório, se o ar está seco, isso também aumenta a evaporação na represa”, alerta o presidente e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, José Galízia Tundisi.

A vegetação também participa no ciclo hidrológico, atuando como um filtro para manter a qualidade da água. “A floresta retém metal pesado em suas raízes e matéria em suspensão. Ela também filtra a atmosfera e diminui a quantidade de partículas que podem cair na água”, afirma Tundisi.

Um levantamento deste ano da Fundação SOS Mata Atlântica em sete estados também comprova essa relação entre floresta e a qualidade da água. Dos 177 pontos avaliados, apenas 19 (11%), localizados em áreas protegidas e de matas ciliares preservadas, tiveram bons resultados.

 

Floresta Amazônica também influencia regime de chuvas em São Paulo

Desmatamento na Amazônia

 

Não é apenas a perda de floresta nos mananciais que pode ameaçar a oferta de água em São Paulo. O desmatamento na Amazônia também impacta negativamente a quantidade de chuva que chega ao sudeste.

Estudos revelam que até 70% da precipitação em São Paulo, na estação chuvosa, depende do vapor d’água amazônico. O meteorologista Pedro Silva Dias, da Universidade de São Paulo, também pesquisa o tema. “O desmatamento na Amazônia vem causando impacto, por exemplo, a produção de arroz no Brasil. Se houver um processo muito intenso de perda de floresta amazônica, as regiões sul e sudeste sofrerão um processo de desertificação”, defende Ribeiro.

Philip Fearnside diz que esse desmatamento, em torno de 20%, não explica a seca atual em São Paulo. “Ainda tem 80% da floresta amazônica, isso não é suficiente para causar uma queda dramática na chuva de São Paulo de um ano para o outro”, diz o pesquisador, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007, com outros cientistas, por alertar contra os riscos do aquecimento global.

Fearnside ressalta, entretanto, que o impacto é gradual e progressivo. “Se continuar desmatando, como é o plano do governo com os projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), vai diminuir o fluxo de água para São Paulo, que já está no limite para o abastecimento. Cada árvore que cai, é menos água indo para lá.”

Mentalidade do esgotamento

Para os especialistas, há uma mentalidade voltada para o esgotamento dos mananciais, que prejudica a gestão dos recursos hídricos no Brasil.

“É a falsa cultura da abundância, a ideia de que podemos esgotar os reservatórios, porque depois vem o período de chuvas e enche de novo. Só que há uma diminuição do volume de águas ao longo das décadas em vários reservatórios do sudeste. Em São Paulo, isso ocorre na bacia do Piracicaba e na bacia do sistema Cantareira”, afirma Ribeiro.

José Galízia Tundisi chama esse pensamento de “aqueduto romano”. Consiste em usar o reservatório até esgotar e depois buscar água limpa em uma região mais distante. “É o que São Paulo está fazendo. Em breve vai ter que pegar água no Paraná”, afirma o pesquisador.

Os pesquisadores alertam que é muito difícil recuperar um manancial depois de exaurido. O solo fica pobre e seco, funcionando como uma esponja. “Quando chover, o terreno vai chupar grande volume de água, até que ele recomponha os aquíferos subterrâneos. Em alguns casos é até impossível reverter a degradação”, diz Ribeiro.

Com a retirada do “volume morto” do Cantareira, especialistas temem pela recuperação do reservatório. A reserva, que nunca foi usada antes, será puxada por bombas, já que fica abaixo do ponto de captação da represa.”Se usar todo o volume morto do Cantareira, vai levar anos para retornar ao que era antes”, lamenta Tundisi.

 

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11 Comentários
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  1. marcos nunes

    19 de maio de 2014 1:25 pm

    Mote de campanha

    A TV Globo aborda a questão da maneia mais impessoal e rápida possível, à maneira da Bandeirantes. As outras, não faço ideia, mas a TV Brasil, sempre no seu afã de não ser metralhada pelos canais comerciais, mantém distância mais prudente do que a necessária.

    Este, porém, é um dos motes da campanha contra Alckmin na próxima campanha eleitoral, tão ou mais importante do que o imbróglio Metrô. Corrupção o eleitor de certa maneira releva, mas falta d’água é impossível.

    Então é necessário martelar essa questão com críticas aos 20 anos de poder do PSDB, mas também é necessário propor soluçõs de curo, médio e longo prazo para o problema, para não ficar só na crítica não propositiva.

     

  2. Motta Araujo

    19 de maio de 2014 1:40 pm

    A proteção das reservas de

    A proteção das reservas de agua por matas é um fator fundamental do sistema de fornecimento de aguas, infelizmente no Brasil essa providencia nunca foi levada a sério.

     

    http://www.nyc.gov/html/dep/html/drinking_water/history.shtml

     

    O Departamento de Aguas de Nova York tem 19 reservatorios  e  3 lagos para garantir agua para a cidade, alem de aqueduto puxado do Rio Delaware e uma das politicas CENTRAIS há mais de um século é comprar todas as terras que circundam essas reservas, o programa de compras é permanente, já tem verba propria pra isso, se alguem colocar a venda terras perto dos reservatorios eles compram.

    Não se consegue entender a permissividade para loteamentos nas areas em torno do Cantareira, ai se envolvem vereadores, politicos, mafias de ocupações ilegais, não se dá importancia ao tema, é proprio do Brasil.

  3. Ivan de Union

    19 de maio de 2014 2:00 pm

    So lembrando que se o volume

    So lembrando que se o volume finado estava em 8.9 por cento no dia da bomba e esta em 8.1 hoje…  ele ja perdeu 10 por cento.  Vai chegar mais cedo do que eu pensei:  Bem vindo ao pre-lama!

     

    (sim, ta em 8.1 e nao 8.4, o texto ta desatualizado)

  4. José CostaMartins

    19 de maio de 2014 2:02 pm

    Me chamou a atenção a falta

    Me chamou a atenção a falta de arborização (sem gozação, sou originalmente daquela área, sei que o ambiente é para lá de inóspito para a com a vida, seja ela qual for) ao longo da transposição do São Francisco. A água vai evaporar toda antes de chegar ao destino.

    1. Ivan de Union

      19 de maio de 2014 4:21 pm

      Imediatamente aa volta nao

      Imediatamente aa volta nao pode ter arvores porque as raizes dariam problemas mais cedo ou mais tarde, sem contar com folhas e galhos caindo na agua.  Tem que ser grama, relva, e de preferencia arbustos pra segurar as folhas voando pra dentro dagua -cactus tambem funcionaria excelentemente.

      Arborizacao em si tem que ser de 15 metros pra traz.  Mas por enquanto se eh possivel ver a terra vermelha, quer dizer que a obra eh recente demais pra tratar do problema.

  5. Assis Ribeiro

    19 de maio de 2014 2:20 pm

    Alckmin, pega o gancho aê.

    “Não é apenas a perda de floresta nos mananciais que pode ameaçar a oferta de água em São Paulo. O desmatamento na Amazônia também impacta negativamente a quantidade de chuva que chega ao sudeste.”

    Diga que a culpa foi dos pobres que invadiram a reserva e desmataram insuflados pelo PT. Assim você livra os grandes consumidores de água e o seu governo.

    Diga que a culpa é do PT que insuflou a ocupação da amazonia pelo MST.

    1. mpaiva

      20 de maio de 2014 1:10 am

      O Alkmin não precisa de

      O Alkmin não precisa de conselhos nesse quesito, rss … ele “sumiu” praticamente e descolou a crise para a Sabesp, ajudado pela imprensa, claro.

      Claro que a invasão ilegal das áreas de proteção aos mananciais não é culpa dos pobres mas que tem muito poder público historicamente conivente com esses espertalhões “loteadores” de terras que não lhes pertence, aí tem.

  6. Ramalho12

    19 de maio de 2014 2:45 pm

    De Terra da Garoa a Semiárido em 20 anos de PSDB

    Está lá no G1 (pesquisar no Google com os argumentos, Extrema água):

    “A grande estiagem do verão no Sudeste nos últimos dias provocou a realização de uma campanha para economizar água na Grande São Paulo. Extrema, em Minas Gerais, aposta na proteção das nascentes para garantir o estoque de água. O município está ganhando fama mundial com o Programa Conservador das Águas, o projeto recebeu o prêmio da ONU de melhores práticas ambientais no planeta…” (vale a pena ler a matéria toda).

    Embora a iniciativa de Extrema seja municipal, as empresas que vendem água à população (a SABESP, no caso) tinham e têm o dever de coordenar e promover os esforços municipais que assegurem o fornecimento de sua matéria prima, a água. No entanto, a SABESP, como tem sido noticiado, preocupou-se, apenas com aumentar a arrecadação, o que parece ser o único objetivo do governo paulista (afora provavelmente corromper-se em grandes obras estaduais), haja vista a profusão de praças de pedágios no estado, certamente o estado mais pedagiado do Brasil.

    A gestão psdbista nos últimos anos esvaziou os reservatórios de água do estado de São Paulo, mas encheu suas rodovias de praças de pedágio. Resta saber se era isso mesmo o que a população paulista queria.

  7. Manoel Teixeira

    19 de maio de 2014 3:54 pm

    Só para lembrar. O

    Só para lembrar. O agronegócio é responsável por 83% do consumo de água no Brasil. A indústria, serviços e consumo humano ficam com os 17% restantes.

    É forçoso concluir que a ladainha da economia de água pelos humanos não resolverá a questão.

    Os eco-chatos parece não se importarem com o agronegócio e ficam combatendo as hidrelétricas e com o trabalho de mistificação de que os consumidores humanos são os culpados. Da parcel do agronegócio, mais de 10% são utilizados para os bovinos e aves, mais que o consumido pelos humanos.

    1. mpaiva

      20 de maio de 2014 12:45 am

      Manoel Teixeira vc tocou num

      Manoel Teixeira vc tocou num ponto importante mas está bastante enganado qto à alegação de que os ecologistas não perceberam ainda (?) os efeitos ambientais devastadores do agronegócio! Nenhuma discussão durante o Código Florestal, por exemplo, deixou de citar o agronegócio como grande consumidor de agrotóxicos, desmatador, concentrador de renda e, principalmente, sua produção majoritária não é o alimento (como vc bem lembrou).

      Há muito que os ecologistas defendemos novas formas de produção, que encarem a realidade de que os recursos naturais são finitos, inclusive e principalmente a água.

      As críticas às hidrelétricas, (além do problema sócio-cultural da remoção das comunidades tradicionais) são pelo mesmo motivo: elas são grandes indutoras de desmatamento e, como diz o artigo publicado :

      “Estudos apontam que a floresta atua como reguladora do ciclo hidrológico, atenuando os impactos de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. “A floresta aumenta a resiliência dos mananciais.”  

      Cantareira é exemplo prá ninguém duvidar …

       

      Brasil é grande exportador de “água virtual”   http://www.usp.br/agen/?p=164665

      Abç

    2. Ivan Bispo

      20 de maio de 2014 12:59 am

      Só lembrando

      A irrigação para produção de alimentos utiliza 83% do que é retirado, diferentemente do setor hidrelétrico, que utiliza até 100% da Q95.

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