20 de outubro de 2026

Três em cada dez municípios brasileiros não têm plano para enfrentar desastres climáticos

Pesquisa aponta falhas na prevenção de eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor; falta de recursos e equipes reduzidas compromete a capacidade de resposta das cidades
Foto G1

30% dos municípios brasileiros não têm planos de contingência e 37% carecem de sistemas próprios de alerta para desastres.
Pesquisa com 2.289 cidades revela baixa preparação para ondas de calor e desafios para prevenção de eventos extremos.
Estudo aponta necessidade de políticas públicas permanentes para fortalecer sistemas locais de alerta e comunicação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Pelo menos 30% dos municípios brasileiros não possuem planos de contingência para enfrentar desastres naturais, enquanto 37% não contam com sistemas próprios de alerta para essas ocorrências. Os dados são de uma pesquisa publicada na revista Disaster Risk Science, que identificou dificuldades estruturais das administrações municipais para prevenir e responder a eventos climáticos extremos.

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O levantamento também revelou que menos de 8% das cidades têm planos de contingência específicos para ondas de calor. O cenário preocupa diante das projeções para o fenômeno El Niño de 2026 e 2027, que apontam para um aquecimento expressivo das águas do oceano Pacífico, com possíveis impactos sobre o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil. Entre os efeitos esperados estão chuvas intensas no Sul, secas severas no Norte e no Nordeste e temperaturas elevadas em diferentes estados.

A pesquisa foi realizada no âmbito do projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos (COPE), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Os pesquisadores desenvolveram uma metodologia para avaliar a capacidade dos municípios de implementar sistemas locais de alerta precoce para diferentes tipos de ameaças. O estudo contou com respostas de 2.289 municípios, o equivalente a 41% das 5.570 cidades brasileiras, em um questionário aplicado em 2025.

Coordenador da pesquisa e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o sociólogo Victor Marchezini destaca que os sistemas de prevenção precisam considerar as particularidades de cada localidade. Segundo ele, as administrações municipais conhecem os problemas dos bairros e devem estabelecer canais de comunicação capazes de orientar a população sobre como agir em situações de perigo.

O estudo avaliou sete aspectos da preparação municipal: estrutura e tamanho das equipes de Defesa Civil, orçamento disponível, mapeamento de áreas de risco, comunicação com os moradores, participação social, governança dos sistemas de alerta e infraestrutura tecnológica para previsão do tempo e monitoramento das chuvas.

Prevenção

Embora a Lei Nacional de Proteção e Defesa Civil, de 2012, atribua aos municípios responsabilidades relacionadas à identificação e ao mapeamento de áreas de risco, um quarto das cidades participantes da pesquisa informou não possuir esse tipo de levantamento. Outros 57% disseram utilizar mapas de risco como instrumento de gestão.

A adoção de ferramentas preventivas também é limitada. Apenas 14% dos municípios afirmaram utilizar cartas geotécnicas de aptidão à urbanização, documentos que identificam áreas mais ou menos adequadas para construções e ocupação urbana.

A falta de profissionais é outro obstáculo. O levantamento identificou pouco mais de 13,5 mil agentes de Defesa Civil nas cidades participantes, mas constatou diferenças significativas no tamanho das equipes. Em 22% dos órgãos municipais, havia apenas um profissional; em 16%, dois integrantes; e em 35%, equipes compostas por três a cinco pessoas. Além disso, um quarto dos municípios informou que seus agentes tinham menos de um ano de experiência na área.

Para Marchezini, a combinação entre equipes reduzidas, pouca experiência e excesso de atribuições dificulta a preparação das cidades. O pesquisador avalia que ainda predomina no país uma cultura de improvisação, na qual a mobilização costuma ocorrer durante as emergências, em vez de se concentrar antecipadamente na prevenção.

A dimensão do problema aparece nos registros de desastres. Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, o país contabilizou aproximadamente 8,9 mil ocorrências em 2024 e 2025. Entre elas, cerca de 2,7 mil foram relacionadas a estiagens e secas, enquanto 2,4 mil envolveram chuvas intensas. No período, os eventos afetaram pelo menos 24,7 milhões de pessoas e provocaram mais de 1,5 milhão de desalojados e desabrigados.

Ações preventivas

A pesquisa identificou também dificuldades para envolver os moradores na preparação para situações de risco. Quase um quarto dos municípios não realiza nenhuma medida de apoio às famílias que vivem em áreas vulneráveis. Entre as cidades que promovem atividades com a população, 11% disseram fazê-lo frequentemente, enquanto 28% afirmaram que essas iniciativas ocorrem raramente.

A participação dos moradores nas ações de Defesa Civil também é baixa: somente 6,4% dos municípios relataram envolvimento frequente da população nessas atividades.

Outro dado chama a atenção dos pesquisadores. Embora 69% das cidades considerem alta ou média sua capacidade de emitir avisos à população, apenas 32% afirmaram utilizar um sistema de alerta. A diferença pode indicar que muitas administrações recorrem a mecanismos informais, como redes sociais, grupos de WhatsApp e comunicados por rádio, que nem sempre são reconhecidos como sistemas oficiais.

O Brasil dispõe da Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), ferramenta que permite às Defesas Civis estaduais e municipais enviar notificações por canais como SMS e televisão por assinatura. O sistema passou por reformulações em 2026 para reforçar a segurança após um ataque hacker.

Políticas permanentes de prevenção

Para melhorar a preparação das cidades, Marchezini defende que os sistemas locais de alerta sejam estruturados como políticas públicas permanentes. A proposta envolve ampliar as redes de monitoramento, aprimorar o conhecimento sobre áreas de risco, integrar o planejamento urbano e fortalecer a comunicação entre diferentes setores do poder público e da sociedade.

O pesquisador ressalta ainda a importância de garantir que os avisos sejam acessíveis a todos, incluindo idosos, pessoas com deficiência e pessoas não alfabetizadas. A emissão de alertas, segundo ele, precisa vir acompanhada de orientações claras e adequadas à realidade das comunidades afetadas.

A equipe responsável pelo estudo pretende agora analisar os resultados por região e porte dos municípios, promover intercâmbios com as administrações locais e elaborar propostas para fortalecer a prevenção. A metodologia desenvolvida também deverá ser aplicada novamente, permitindo acompanhar a evolução da capacidade municipal de implementar sistemas de alerta precoce.

O trabalho segue parâmetros da iniciativa Alertas Precoces para Todos, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2022, que busca ampliar a proteção das populações contra ameaças meteorológicas, climáticas e ambientais por meio da implantação de sistemas de alerta. A iniciativa estabeleceu como meta ampliar essa cobertura até o fim de 2027.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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