4 de junho de 2026

A morte de Pelé, o maior atleta da história, por Luís Nassif

Nos anos 60 e 70, ainda não havia a TV a cabo. Ficávamos sabendo de seus feitos pelas agências noticiosas.
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A primeira vez que vi Pelé foi na concentração da Seleção de 1958 em Poços. Eu tinha 8 anos e algum discernimento. Se não me engano, durante aquele período o titular era o Dida, do Flamengo; e o ponta esquerda o Canhoteiro, do São Paulo. O centro-avante ainda era Mazzola, mas já sem vontade de se dedicar, pois já estava vendido à Itália. Cedia lugar a Vavá Peito-de-Aço.

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No meio campo havia Didi, absoluto, secundado por Zito. Também não me lembro se, na concentração, Zito já fosse o titular, ou Dino Sani, do São Paulo.

Seja como for, Pelé não chamou a atenção por lá. Só na Copa explodiria após o gol no País de Gales.

Depois disso, limitei-me a acompanhar seus jogos, surrando o São Paulo e quem mais viesse. Mas me lembro bem do campeonato mundial vencido pelo Santos, contra o Milan, com Pelé sendo substituído por Almir, o Pernambucaninho.

Contato direto tive no início dos anos 70, quando Pelé completou mil dois e Veja preparou uma capa. Entrei na equipe de cobertura e fui até a chácara Nicolau Morán tentar uma entrevista com o Rei. Ele saiu do treinamento conversando com Léo e Nenê, dois meios campos do Santos. Dava conselhos:

  • Vocês têm que fazer como Dirceu Lopes: pegou a bola, partam em direção ao gol.

Mas nem me deu pelota.

Fui até o técnico Mauro Ramos de Oliveira, o fantástico zagueiro que levantou a Copa de 1962. Disse-lhe que era seu conterrâneo e queria entrevistar Pelé. Perguntou de que família. Disse-lhe que era filho do Oscar Nassif. E ele:

  • Seu Oscar! Foi ele quem me levou para o futebol.

E meu pai nunca tinha me dito nada.

Imediatamente chamou Pelé e disse-lhe para dar uma entrevista “para o filho do meu amigo”.

Aí, foi só ligar o gravador que Edson deu aquele sorriso de Pelé para abrir a entrevista.

De lá fui para Santos, entrevistar amigos fiéis e ressentidos. No começo de carreira ele teve um empresário, Pepe Gordo. Depois, romperam, com Pelé acusando-o de levar vantagem. Tinha também um advogado muito conhecido, que julgava que Pelé tinha se comportado de forma ingrata com ele.

Enfim, dos relatos surgiu a figura de Edson Arantes do Nascimento. Fogoso, em qualquer cidade em que ia jogar, arrumavam uma companhia feminina para ele.

Tinha também suas mesquinharias. Quando pensaram em fazer um jogo em benefício de Vicente – o quarto zagueiro da Seleção Portuguesa, considerado marcador implacável do Rei – recusou-se a comparecer.

Todos seus contemporâneos, mesmo super-craques como Rivelino, Gerson e outros atestavam que Pelé sempre via na frente, seja nos lances essenciais, seja para se defender de pancadas.

Aliás, é quase milagre que, tendo sido caçado em todos os campos do planeta, nunca tenha sofrido uma contusão grande. Mas era craque também na arte de devolver agressões. Se corresse e o jogador adversário viesse por trás tentando derrubá-lo, ele tinha uma técnica especial de esperar o bote, saltar e mover os braços de maneira a atingir a cabeça do agressor.

Nos anos 60 e 70, ainda não havia a TV a cabo. Ficávamos sabendo de seus feitos pelas agências noticiosas. Como o dia em que guerrilha e governo de um pais africano suspenderam a guerra para assistir um jogo de Pelé.

A era do YouTube joga diariamente na tela do computador jogadas fantásticas de Ronaldinho, Ronaldo Gaúcho, Zidane, Romário. Mas cada jogada criativa foi inaugurada por Pelé há décadas. Fazer tabelinha com a canela do adversário, chapéu na área seguido de gol, gol de falta, de cabeça, passe de costas, fez de tudo.

A mania brasileira da polarização dividiu a torcida entre o gênio que deu certo, Pelé, e o que não deu, Garrincha. E ele sofreu patrulhamento por conta disso. Ficou tão traumatizado com as cobranças políticas que, em uma das vindas ao Brasil, depois de ter-se mudado para os Estados Unidos, foi indagado pelos repórteres sobre seu candidato a presidente – as eleições tinham sido por aqueles dias. Sua resposta:

  • O voto é secreto!.

Na vida familiar, tinha enorme apego pelos pais, especialmente Dondinho que, antes do nascimento de Pelé, foi contratado por meu pai para a Caldense e era exímio cabeceador.

A mancha em sua vida foi o não reconhecimento de uma filha fora do casamento. Ela morreu pouco depois, de câncer.

A presença maciça da familia, filhos e netos, velando por ele nos dias finais, no entanto, comprovam que o Rei era família.

Morre com a fama indisputada de maior jogador da história.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Albertino Ribeiro

    29 de dezembro de 2022 10:05 pm

    Belo artigo e homenagem. Obrigado, Nassif 🙏

  2. Augusto

    30 de dezembro de 2022 7:48 am

    Mito…

  3. Douglas da Mata

    30 de dezembro de 2022 8:29 am

    O maior jogador da história…e?

    Mudou a vida que quem? Descobriu o que de importante? O que fez quando a vida lhe chamou a ter caráter? Fingiu que não era com ele, e privou a filha de ter um pai, nem que fosse apenas formalmente…

    Mas o fato deste senhor e sua morte estarem em cada jornal pelo mundo (NYT, Post, Le Monde, Corriere, e até o Liberation) diz muito mais de nós que todo resto…

    Somos só isso mesmo: um jogador de futebol negro, machista, racista e que renegou a filha, e talvez uma dos duas mulatas sambando seminuas…

    Ah, e claro, dois ou três batalhões do BOPE e um ou dois caveirões estacionados para manter a paz do público do futebol.

  4. Fábio de Oliveira Ribeiro

    30 de dezembro de 2022 9:43 am

    Em 1970 eu tinha 6 anos. Na época estranhei muito a comemoração do título do Brasil na Copa do Mundo. Não conseguia entender porque as pessoas estavam tão felizes. O futebol não fazia parte da minha existência. Minhas brincadeiras preferidas eram outras: caçar passarinhos e rãs, pescar, perambular atraz de frutas no mato, cutucar colmeias de abelhas e vespas e sair correndo, andar de velocipede, ler livros infantis, participar de tiroteios fantasiosos entre bandos de mocinhos, de guerras “de mentirinha” entre exércitos armados com espadas de madeira e disputas de pontaria com arcos e flechas. A única coisa que acontecia no mundo que realmente despertava minha atenção em 1970 era a guerra no Vietnã e a política externa dos EUA, duas coisa que dominavam o jornalismo na TV. Só comecei a gostar de futebol por volta de 1975 ou 1976. Foi então que comecei a ouvi desse tal Pelé, que foi jogar num time chamado Cosmos. A importância do ídolo na minha vida infantil foi, portanto, muito pequena. Voltei a prestar atenção ao Pelé quando ele começou a namorar com a Xuxa e, uma vez mais quando a imprensa o acusou de abandonar uma filha. Ver a foto do Pelé defendendo a campanha das diretas hoje foi para mim uma surpresa. Naquela época eu realmente não vi aquilo em lugar algum. Também lembro que ele foi considerado o atleta do século, algo que despertou a inveja de muita gente por diversos motivos. Lembro-me de vê-lo repreender Robinho por causa daquele problema com a polícia que ele teve na Inglaterra. Essa foi a única vez que escrevi algumas linhas sobre Pelé https://www.observatoriodaimprensa.com.br/educacao-e-cidadania/caderno-da-cidadania/pele-robinho-e-a-lei/ . A reação mundial à morte do jogador é imensa e maior do que eu poderia imaginar. Até a Nasa o homenageou. O Google sugere 192.000.000 linkes para Lula, 44.300.000 para Jair Bolsonaro, 322.000.000 para Donald Trump e 566.000.000 para Pelé. O jogador brasileiro é mais popular do Google do que John Lennon (90.300.000 resultados), Dostoiévski (656.000 resultados), Albert Einstein (337.000.000 resultados), Alexander von Humboldt (27.100.000 resultados), John Locke (57.200.000) e Molière (23.900.000 resultados). A importância do Pelé me parece evidente, muito maior do que eu sou capaz de imaginar. Um pesquisador que tentasse pesquisar todas as referências feitas ao jogador dispensando 5 minhutos para cada conteúdo passaria 5.384,32 anos na frente do computador. A Pirâmite de Giza tem aproximadamente 4.500 anos. Elas atravessaram o oceano do tempo, viram civilizações nascer, crescer e morrer e continuarão encantando a humanidade no futuro. A imagem de Pelé enganando o goleiro uruguaio Mazurkiewicz https://www.youtube.com/watch?v=Dmrm925C_Cg e errando o gol provavelmente sobreviverá aos 8 bilhões de seres humanos vivos nesse exato momento. Isso não é pouco. No Planeta Pelé nem os faraós egipcios foram tão famosos quando construíram seus túmulos.

  5. Solle

    30 de dezembro de 2022 10:24 am

    A questão da filha não reconhecida teve uma explicação do próprio Pelé. Ele iniciou o processo de reconhecimento, a questão é que começou a entrar um monte de gente querendo vantagens. Advogado, genro,,,,O processo aí esfriou

  6. douglas da mata

    30 de dezembro de 2022 11:55 am

    “A questão da filha não reconhecida teve uma explicação do próprio Pelé. Ele iniciou o processo de reconhecimento, a questão é que começou a entrar um monte de gente querendo vantagens. Advogado, genro,,,,O processo aí esfriou”

    Ah tá, então tá explicado então…eitaaaaaaaaaaaaa…

  7. Douglas da Mata

    30 de dezembro de 2022 12:00 pm

    Sim, Fábio de Oliveira Ribeiro descobriu porque vídeos de gatinhos na internet são tão populares, ou porque um jogador de futebol ganha mais que um cientista com pós-Doutorado em Astrofísica…

    O parâmetro de relevância é, afinal, o google!!!!!!!

    Mas temos esperança, como diria Suassuna, “encontrou-se com o único mal irremediável(…) que nos iguala a todos como um rebanho de condenados”.

    Já foi tarde, já foi tarde… Salve a morte, a única deusa confiável…

  8. Mauro Silva

    30 de dezembro de 2022 4:38 pm

    Caro Nassif
    O Edson Arantes tinha seus defeitos, mas o ñ reconhecimento de Sandra certamente ñ foi um deles.

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