Cem anos de Nelson Mandela, o revolucionário sorridente, por José Carlos Ruy

Nelson mandela morreu em 2013, aos 95 anos (Divulgação)

Nelson mandela morreu em 2013, aos 95 anos

do Vermelho

Cem anos de Nelson Mandela, o revolucionário sorridente

O líder revolucionário sul-africano Nelson Mandela, que teria feito 100 anos nesta quarta-feira (18), tem sido apresentado pelos conservadores da imprensa como se fosse o Gandhi de nosso tempo – um pacifista que trocou a revolução como método de luta por mudanças sociais e enfrentamento do imperialismo, e se transformou num “guerreiro da paz”.

Por José Carlos Ruy

Foi o que disse a manchete da revista Veja, na edição em que registrou seu falecimento, em dezembro de 2013. Porta-voz radical da direita e dos interesses do imperialismo Veja, publicou um texto em que aquele disparate tinha com uma clareza que a destacou entre as publicações conservadoras. Disse: “Nelson Mandela era um revolucionário quando entrou na prisão e saiu de lá um estadista disposto a negociar com o inimigo a construção de um país mais justo”.
Nada mais falso. A frase foi apresentada para ser lida como a descrição das mudanças que ocorreram no líder da luta contra o apartheid nos 27 anos em que esteve preso. E, convenientemente, esqueceu a firme atitude de Nelson Mandela, acentuada nos últimos anos em que esteve preso, quando o regime de natureza nazista da África do Sul tentou fazer dele um instrumento de sua perpetuação e de “apaziguamento” da luta no país.

Mandela não aceitou ser manipulado e se manteve, com firmeza, na luta pelas mesmas bandeiras antirracistas, libertárias e igualitárias que sempre defendeu, motivo pelo qual estava encarcerado. Não tergiversou, não cedeu, nem baixou a guarda. Manteve-se como o guerreiro sorridente e firme que o transformou no símbolo da luta contra o apartheid.


Nelson Mandela, em ato político durante seu primeiro mandato, na Cidade do Cabo, África do Sul, em 1995 / Foto: Getty Images

A luta pelo legado de um líder da estatura de Nelson Mandela é intensa, e tem caráter político e ideológico. Isso pode ser visto nas manchetes dos jornais e revistas que noticiam o centenário de Nelson Mandela. Trata-se da disputa pelo “símbolo” que ele representa, pela interpretação do significado da luta que marcou sua existência.

Mas, entre interpretação e vida real e concreta há uma distância que não pode ser desconsiderada.

Nelson Mandela foi um lutador contra o racismo e pela igualdade fundamental entre todos os seres humanos, independente da cor de sua pele. Este é a grande lição que deixou ao mundo; aos lutadores pela democracia, pelo socialismo e pelo progresso social. 

Foi o revolucionário que encarnou, em sua atuação, duas dimensões essenciais da luta anticapitalista da época do imperialismo e da revolução proletária. A primeira dimensão diz respeito à resistência contra toda opressão – e Mandela foi um campeão dessa resistência. Outra dimensão se refere à natureza da luta na época da dominação imperialista: a luta de classes tem também o caráter de luta nacional-libertadora. A resistência contra as classes dominantes de uma nação, aliadas ao imperialismo, é também a resistência contra o imperialismo.

Nelson Mandela foi, assim, um herói da luta de seu povo contra o domínio de classe, que se apresentava como domínio da raça branca contra os demais, principalmente os de pele escura. E, do ponto de vista da luta implacável contra a dominação racista, foi também o campeão da luta pela afirmação nacional da África do Sul e pela reconstrução nacional, que coube a ele dirigir como primeiro presidente da República depois do fim do apartheid.

Então presidente do ANC, Nelson Mandela, regressa à cela que ocupou durante 27 anos, no quarto aniversário de sua saída da prisão, em 1994 / Foto: Reuters

Mandela iniciou-se na luta antirracista desde muito jovem. Tinha apenas 23 anos de idade quando, em 1941, entrou para o Congresso Nacional Africano. Foi em Joanesburgo, onde foi estudar direito, que se ligou à luta contra a opressão racial. Era um advogado de prestígio, que se tornou líder da resistência não-violenta e pacifista. O exercício da advocacia o levou a constatar, na prática, aquilo que pode parecer óbvio: a lei é exercida para favorecer os poderosos, aqueles que dominam. Na África do Sul esta situação era agravada: lá prevalecia o preconceito racial como norma de governo.

Em 1944, com seus amigos Walter Sisulu, Oliver Tambo e outros, participou da criação da Liga Juvenil do CNA (ANCYL, na sigla em inglês). O objetivo era atrair os jovens e aprofundar a luta contra o racismo.

Opressão racial que se traduzia na espoliação da população africana de suas melhores terras, na secular segregação que reduzia a população originária a viver em locais determinados pelo governo racista, na exploração da força de trabalho negra em benefício da classe dominante branca. Quando se descobriu riquezas minerais, como ouro e diamantes, essa exploração e dominação chegou ao paroxismo, e os dominantes brancos foram à guerra civil para garantir o domínio. A guerra dos Bôeres, entre o final do século XIX e início do século XX, foi a expressão maior dessa disputa entre dominantes brancos, mas a conta da guerra foi jogada sobre os ombros dos negros, cuja situação foi fortemente agravada.

No contexto das disputas que então ocorreram, os africânderes, descendentes dos holandeses que colonizaram a África do Sul desde o século XVIII, conseguiram relativa autonomia desde a aprovação da Lei de União (em 1910), enquanto os ingleses ficaram com os territórios de Basotolândia (atual Lesoto), Bechuanalândia (atual Botsuana), Suazilândia e Rodésia (atual Zimbábue).

Na ocasião a resistência africana deu um passo grande com a fundação, em 1912, do Congresso Nacional Africano, por nacionalistas africanos que rejeitavam as leis segregacionistas.

Esse foi o contexto em que nasceu Mandela, em 1918. E no qual foi educado. Certa vez ele escreveu que a educação eurocêntrica, marcadamente britânica, dada às crianças africanas tinha o objetivo de levá-las a aprenderem a ser “ingleses negros”.

A opressão assumiu sua feição mais grave depois de 1948 quando o Partido Nacional, cuja ideologia é inspirada no nazismo, chegou ao poder, que manteve por 46 anos, até a eleição de Mandela, em 1994. Sob seu domínio o racismo chegou ao auge. Introduziu o apartheid e agravou as leis segregacionistas e a opressão dos negros.

A reação da população não branca – que, em 1963, ano da prisão de Mandela, abarcava 68% de negros e 12% de mestiços e asiáticos, contra apenas 20% de brancos, do total de 17 milhões de sul africanos – foi imediata, e muito firme. Em 1950 novas leis segregacionistas foram impostas, e aumentou o roubo das terras de negros, mestiços e indianos. 

Presidente de África do Sul, Nelson Mandela, cumprimenta Diana, princesa de Gales, durante uma visita de Lady Di à Cidade do Cabo, no dia 17 de março de 1997. A princesa Diana confessou ser uma grande admiradora do líder sul-africano / Foto: AP
 

Em 1949 Mandela já se destacava na luta contra a opressão racista; nesse ano foi indicado para o Conselho Executivo do CNA. Em 1951, tornou-se presidente do ANCYL e, em 1952, do CNA da província de Transvaal sendo, por isso, o vice-presidente nacional da instituição. Quando foi lançada a Campanha De Desafio, em 26 de junho de 1952, com a realização do Dia do Protesto, Mandela foi seu porta-voz e dirigente nacional. Aquela foi uma manifestação de desobediência civil, com os negros ocupando espaços reservados aos brancos – em banheiros públicos, correios, bancos de jardim etc.

Mandela sofreu, em seguida, uma sucessão de prisões sendo, ao final, condenado (com outros 19 companheiros), com base na lei de Repressão ao Comunismo, a trabalhos forçados. Depois, foi proibido de participar de atividades políticas.

Naquela época começou a ficar claro para Mandela que os tempos da resistência pacífica ficaram no passado. Disse isso, de público, pela primeira vez, num discurso em Sophiatown, em 1953. Foi quando começaram as gestões em busca de apoio internacional à luta contra o apartheid. As esperanças se voltavam para a China, a União Soviética e os países socialistas, além das nações africanas que lutavam pela independência nacional. Mas havia resistências dentro do CNA, onde prevalecia a velha tática da resistência pacífica e não-violenta.

Um novo passo foi dado em 1954 quando o CNA, sob direção de Albert Luthuli, criou o Congresso do Povo, unindo todas as vítimas do apartheid, um período em que os ataques da repressão eram cada vez mais graves. Em 1960 Luthuli concordou com a ideia de Mandela de criar um braço armado para o CNA, em resposta aos ataques da repressão. Quando, a polícia promoveu o massacre de Sharpeville (em 21 de março de 1960), a luta antirracista cresceu. Naquela localidade a polícia abriu fogo contra um protesto pacífico à lei do passe (que impunha aos negros o uso de uma espécie de passaporte para seus deslocamentos pelo país); 69 pessoas foram assassinadas por rajadas de metralhadora e cerca de 180 foram feridas. Em 8 de abril de 1960, o governo nazista do Partido Nacional proibiu o CNA, que passou para a clandestinidade.

A evidência da violência do governo provocou uma mudança essencial no CNA que, desde então, abandonou a tese da resistência pacífica; em 1961 surgiu o ramo militar do CNA, o Umkhonto we Sizwe – “Lança de uma Nação” -, conhecido pela sigla “MK”. E Mandela foi seu comandante.
Entretanto, Mandela, revolucionário consequente e avançado, não aceitava que prevalecessem teses militaristas na organização que, segundo ele, deveria estar subordinada politicamente ao CNA, com treinamento político ocorrendo junto à formação militar. O objetivo da revolução, dizia ele, era tomar o poder e não formar atiradores.

Cresceu também a influência de Cuba com o grande exemplo do comandante Ernesto Che Guevara.

“Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições”, explicou Mandela anos depois.

A atividade foi intensa. Mandela viajou clandestinamente ao exterior, indo a Londres, à Libéria, Nigéria, e Etiópia em busca de apoio e treinamento militar, como recebeu na Etiópia. No Marrocos os professores foram os argelinos que lutavam pela independência nacional, contra a França.

Mandela pretendia construir um exército revolucionário que tivesse apoio popular, coordenasse a guerrilha e instruísse a população. Esta atividade resultou em sua, em 5 de agosto de 1962, pelo descumprimento da ordem de restrição que o impedia de viajar ao exterior. Foi condenado, com outros dirigentes, a cinco anos de prisão. Estava preso quando a polícia descobriu, em 11 de julho de 1963, documentos comprometedores que agravaram sua pena.

No tribunal, em sua defesa, Mandela manifestou a dimensão de sua compreensão da luta antirracista, que o tornaria um ícone mundial. “Nos outros países africanos, vi brancos e negros se misturando de forma pacífica e alegre em hotéis e cinemas, usando o mesmo transporte público e morando nos mesmos bairros. Voltei para casa para relatar essas experiências aos meus colegas.

Cumpri meu dever com o povo e com a África do Sul. Tenho certeza que o futuro mostrará que sou inocente e que os criminosos que deveriam estar neste tribunal são os homens do governo”.

Nelson Mandela em sua fundação em Johannesburgo (África do Sul), em 2009 / Foto: Getty Images

Era o mundo sem a dominação racial com o qual sonhava. Naquele mesmo tribunal denunciou, em 1962, que o processo ao qual estava sendo submetido era “um julgamento das aspirações do povo africano”. Disse mais: “Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”. Em 11 de junho de 1964 foi condenado a prisão perpétua, da qual cumpriu 27 anos…

Mandela se revelou, nas declarações feitas perante os tribunais, como o político hábil e o revolucionário consequente que foi. Muitos, em meios jornalísticos e ideológicos conservadores, procuram minimizar, esconder ou condenar suas relações com o SACP (Partido Comunista da África do Sul), com base em um documento “descoberto” na Universidade da Cidade do Cabo pelo historiador britânico Stephen Ellis. Que se refere à filiação do líder revolucionário ao Partido Comunista da África do Sul (SACP) que, nos anos 60, perante os tribunais, negou sua ligação com aquele partido. 

Há dois testemunhos que precisam ser levados em conta a respeito. Mas, antes de apresentá-los é preciso lembrar a conjuntura ditatorial vigente na África do Sul, na época do julgamento, para compreender o motivo da negativa de Mandela sobre sua filiação: autodefesa, de si próprio e das organizações envolvidas (o CNA e o PCAS), que eram alvos da violência da repressão. Mesmo assim, naquele julgamento Mandela fez uma veemente defesa da ação dos comunistas: “Por várias décadas, os comunistas eram o único grupo político na África do Sul que estava preparado para tratar os negros como seres humanos e seus iguais; que estavam preparados para comerem juntamente conosco; conversar conosco, morar e trabalhar conosco. Em função disso, há muitos africanos negros que, hoje em dia, tendem a igualar a liberdade com o comunismo”.

Foi também uma época em que as negociações entre o CNA, a União Soviética e a China se aceleravam, em busca de treinamento e apoio militar para a luta contra o apartheid. Foi a ocasião em que Mandela teria se filiado ao SACP, chegando a fazer parte de seu Comitê Central. Para a direita e muitos setores liberais conservadores foram decisões condenáveis! Para Mandela e os comunistas, não – foram alianças necessárias para a continuidade e o sucesso da luta.

E não há nada a esconder, como insinuam os escribas conservadores. Numa nota divulgada sobre Mandela, em 2013, o SACP diz, com todas as letras: “Ao ser preso em agosto de 1962, Nelson Mandela não foi apenas um membro do Partido Sul-Africano, na clandestinidade, mas também foi um membro do Comitê Central do nosso Partido. Para nós, comunistas sul-africanos, Comandante. Mandela deve sempre simbolizar a contribuição monumental do SACP em nossa luta de libertação”.

Em 1976 a opressão se agravou e a solidariedade internacional aos sul-africanos foi despertada principalmente depois do massacre de Soweto (em 16 de junho daquele ano) quando a polícia abriu fogo contra uma manifestação de estudantes e matou centenas deles. Soweto tornou-se o símbolo mais visível e candente da violência sanguinária do apartheid. A situação deteriorou-se rapidamente e o enfrentamento contra a opressão cresceu. Em 1985 o CNA iniciou uma campanha decisiva contra o governo racista do presidente Pieter Botha. Forçado a negociar, o governo tentou usar o prisioneiro Mandela como interlocutor. Não deu certo. Ele não aceitou conversar com Botha e nem a deixar a prisão naquelas condições chegando a declarar, em fevereiro de 1985: “Quem deve renunciar à violência é o Botha. Que diga que vai acabar com o apartheid”. Era coerente com o que escreveu, anos depois, em suas memórias: “Sempre é o opressor, e não o oprimido, quem determina a forma da luta. Se o opressor utiliza a violência, o oprimido não tem outra escolha do que responder com violência”.

Quando finalmente Mandela foi libertado, em 11 de fevereiro de 1990, ele surgiu como o líder inconteste da luta contra o racismo, contra o regime nazista do apartheid, como campeão da igualdade entre os homens. Em 1991 foi eleito presidente do CNA; na eleição de abril de 1994, chegou à presidência da República, iniciando o processo de democratização profunda de seu país, processo ainda em curso. Mandela, apoiado pelo CNA, teve 62% dos votos, contra 20% da direita representada pelo Partido Nacional. Na presidência, continuou o mesmo revolucionário que foi durante sua longa vida – um revolucionário sorridente cujas lições podem ser sintetizadas numa frase sua: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar.

 
Do Portal Vermelho

 

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