Immanuel Wallerstein e o legado de Celso Furtado
por Rosa Freire d’Aguiar
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Em 1997 a Maison des Sciences de l’Homme organizou em Paris um colóquio internacional sobre o pensamento de Celso Furtado e a recepção de sua obra no Brasil e no exterior. Havia uns trinta pesquisadores, entre eles o sociólogo americano Immanuel Wallerstein, cuja morte LF de Alencastro, também presente, acaba de me comunicar. Wallerstein foi o grande discípulo de Fernand Braudel e criador do Fernand Braudel Center, nos EUA. No encontro de 1997, fez uma contextualização histórica do pensamento de Celso e da Cepal. Alguns trechos:
“Celso Furtado escreveu um livro notável sobre as atividades iniciais da Cepal, “A Fantasia organizada”, em que salienta o grande jogo político que presidiu a instalação da agência, numa época em que se temia justamente o que aconteceu: o desenvolvimento de outra perspectiva analítica, o cepalismo.”
“Uma das ideias centrais do cepalismo é a dualidade centro-periferia como conceito para estruturar e analisar a economia-mundo. Isso quer dizer que o comércio internacional não é neutro, tem efeitos importantes na economia-mundo e no desenvolvimento desigual. E por fim — essa é a originalidade do pensamento de Celso Furtado —, é fundamental levar em conta a história. Pode parecer óbvio, mas a maioria dos economistas recusa esse enfoque.”
“Essas ideias dos anos 1950 deram a volta ao mundo. Um mundo em plena expansão, claramente marcado pela dominação do capitalismo. Um mundo que também via a expansão sem precedente dos movimentos antissistemicos: comunistas, social-democratas na Europa ocidental, de libertação nacional na Ásia, África, nacional-populares na América Latina. Todos apresentavam um elemento comum: o compromisso na luta contra o desenvolvimento desigual. E se aproximavam das teses da Cepal, não na teoria mas na prática.”
“Nos anos 60 esses movimentos começam a amedrontar, pensa-se em freá-los, o que foi feito de várias maneiras, em especial com golpes de Estado, sendo o Brasil o primeiro a sofrê-lo.”
“Nos anos 70-80, com a estagnação, a regressão da economia-mundo, o ciclo do desemprego, o endividamento do Terceiro Mundo, mas também dos Estados Unidos e das grandes empresas, tivemos uma espiral descendente, que deu origem à contraofensiva ideológica, às miragens das forças do mercado. Isso provocou o recuo do cepalismo.”
“É como se se tivesse esquecido a história. Mas neste momento em que o neo-liberalismo está tão prestigiado, em que é defendido e aplicado na América Latina, ouso afirmar e ao mesmo tempo prever que daqui a uns anos esse modelo hoje em voga parecerá totalmente caduco e as ideias de Celso Furtado tornarão a encontrar seu lugar.”
Oxalá, Immanuel Wallerstein, oxalá.
Maria Luisa
3 de setembro de 2019 1:50 pmE muito distante do conhecimento disso tudo, o povo vai aceitando todos esses golpes em nosso destino comum.
Claudio Santana Pimentel
3 de setembro de 2019 3:25 pmWallerstein foi também criador do conceito de sistema-mundo, e colaborador de Aníbal Quijano, sociólogo peruano que desenvolveu o conceito de colonialidade do poder. Sua hipótese básica é a de que o mundo “moderno” (branco, europeu, cristão, liberal, capitalista, etc.) somente foi possível devido à conquista e exploração da América, e a criação de uma retórica que coloca a Europa e o EUA (o Norte global) como “centro” e “final” da história. Em tempos de recolonização na AL, Brasil à frente (ou seria atrás?) o estudo de seus trabalhos se mostra absolutamente necessário.
Said Abou Ghaouche Netto
3 de setembro de 2019 11:20 pmQuando ele publicou seu último comentário era como se estivesse se despedindo deste mundo. Cumpriu sua missão com nobreza. Deixará saudades, mas para compensar, deixa um grande legado.