A história do boxe está repleta de combates históricos, desde os de Jack Dempsey contra Finnigan, Sugar Ray Robinson contra Jack La Motta, La Motta contra Marcel Cerdin, Joe Louis contra Max Baer. Uma das características do combate épico é o equilíbrio, a imprevisibilidade, o fato de se saber que qualquer um poderá cair na lona a qualquer momento.
Durante longos anos, por exemplo, o peso médio argentino Carlos Monzon -o maior da história, na sua categoria-, com seu corpo esguio, magro até, a maneira de jogar o tronco para trás para se desviar dos golpes dos adversários, foi previsível: vencia todas, como quem vai a um passeio, do mito italiano Nino Benvenutti ao extraordinário cubano-mexicano José “Mantequila” Nápoles.
Épicos mesmo, pelo equilíbrio de forças, foram seus combates contra o talentosíssimo colombiano Rodrigo Valdez, que fez carreira invicta como a dele.
Épico também foi o combate entre o nicaraguense Aléxis Argüelo e o negro americano Ray “Boom Boom” Mancini, outra máquina de bater. Argüelo dominou até o penúltimo assalto, dando um dos maiores shows de boxe da história. Bastou um soco bem colocado do americano para ele vacilar e ser demolido por uma saraivada de golpes.
Mas o maior épico da história do boxe foi Muhammad Ali, especialmente quando voltou da suspensão a que foi submetido por ter se recusado a lutar no Vietnã. E digo especialmente não porque ele tenha voltado melhor. Voltou pior.
Mais pesado, menos efetivo nos seus golpes, ainda ostentando “jabs” fortes, mas sem a leveza dos primeiros tempos, e sem aqueles golpes que, aparentemente sem forças, destruíam animais como Sonny Liston. E talvez no período em que vicejou o mais forte conjunto de pesos pesados da história.
Voltou, foi derrotado por Joe Frazier em uma luta histórica, na qual foi à lona do penúltimo assalto. Antes da revanche, Frazier foi demolido por George Foreman -provavelmente o mais forte lutador de todos os tempos-, com um murro no estômago no terceiro assalto que o levantou do tablado como a uma boneca de pano.
Para recuperar o título mundial, Ali tinha que enfrentar Foreman, e o significado dessa luta transcendeu o tablado. Foreman era o oposto de Ali. Era o representante típico do establishment norte-americano, certinho fora de quadra, um animal de ferocidade dentro. Tinha sido o negro que se enrolara na bandeira dos EUA na Olimpíada, enquanto outros atletas negros protestavam contra o racismo e a guerra.
Era enorme e com um jeito de lutar todo especial. Cruzava os braços em xis, protegendo simultaneamente o tronco e a cabeça. E tinha um direto de direita fulminante.
Nenhuma de suas lutas passara do quinto assalto, a maioria absoluta terminara antes do terceiro. Pois era esse gigante que Ali teria que enfrentar, se quisesse recuperar o título.
A luta foi na África, e repleta de significados. Era o herói pacifista, o representante dos rebeldes de Woodstock, das passeatas no Capitólio, enfrentando a mais poderosa máquina de bater, quase um desses personagens de Stallone criados não pela KGB, mas pela CIA.
Começa a luta e, desde os primeiros minutos, via-se um Ali irreconhecível, preso nas cordas, protegendo o rosto com as luvas e recebendo, inerte, uma saraivada de socos no fígado, no estômago e nos braços.
Assalto após assalto foi isso. Confesso que pensei em desligar a televisão para não ver meu ídolo naquele triste fim de carreira. A única coisa que não batia naquele enredo era que, sempre que terminava um assalto, depois de passar três minutos sob pancadaria, Ali subia nas cordas e saudava a multidão de africanos que o aplaudia. Eu ficava pensando com meus botões, coitado, ele está comemorando o fato de poder respirar um minuto de intervalo antes de voltar a apanhar.
E foi assim até o sétimo assalto. No sétimo tinha-se um Foreman resfolegante que nem uma locomotiva velha, a esta altura dando socos sem direção contra um Ali que continuava paradão. Até que, em um determinado momento, Ali soltou um jab no queixo do adversário.
O gigante estacou, olhos já vidrados. Ali saiu debaixo de seus braços e foi fulminante: uma seqüência memorável de “um-dois” na cabeça do adversário.
E o que se viu foi o maior momento da história do boxe, o golpe que não houve. Aquele gigante desabando, que nem um jatobá podre, caindo em câmara lenta na frente de Ali. Esse o acompanhando, pronto para desferir o último golpe.
Com o gigante quase de joelhos, seu rosto fica a poucos centímetros das luvas de Ali. O campeão acompanha o adversário, os braços retesados, de quem está pronto para dar o golpe final. E se contém, o golpe não sai, porque não era mais necessário. Nunca existiu nem existirá lutador como Ali.
Luis Armidoro
30 de outubro de 2019 2:44 pmPrezado Nassif
Há um filmaço que fala desta luta no Zaire: “Quando Éramos Reis” (When we were kings), de 1996, dirigido por Leon Gast
Octavio Pires'
30 de outubro de 2019 3:01 pmE essa luta mudou também o modo de se lutar boxe entre os profissionais!!! Foremam não sabia recuar “andar para trás batendo”. Ali “apenas” esperou o tempo passar e. no meio da luta começou a também bater em Foremam,já em exaustão, que provou ser um gigante muito e muito forte, mas que naõ suportava pressão- o famoso castigo- referido entre pugilistas. Quando Ali derrubou Foreman, eu pensei que ia desmaiar!!!. até porque. por meio de minha irmã, tinha feito apostas lá nos States, a favor dele!!! E ganhei uma bela grana, porque Foreman era favorito disparado. Alguma coisa parecida com uma eventual luta entre o Tyson no auge e Maquila, com todo respeito ao nosso campeão, que também tem o seu valor
Acer
30 de outubro de 2019 4:16 pmHá que se lembrar da luta entre Sugar Ray Leonard X Roberto Mano de Piedra
Joel lima
30 de outubro de 2019 7:08 pmA imagem do golpe contido de Ali é tão genial quanto o drible que Pelé deu no goleiro uruguaio sem tocar na bola na copa de 70. Dois genios em seus respectivos esportes . Fora deles é 7 a 1 pro Ali.
Roger
31 de outubro de 2019 9:30 amLadislao Mazurkiewicz… Sim, muito bem colocado. Uma bela lembrança. Pena que não dá pra postar fotos aqui. Tenho guardada uma foto aqui no computador, parece que Pelé e Mazurkiewicz estão bailando.
Joel lima
31 de outubro de 2019 1:25 pmPena, Roger, que esse lance não tem os 1278 ângulos de câmera que hoje a tecnologia permite. Imagine esse lance visto por cima
Miguel
30 de outubro de 2019 7:43 pmAlgumas considerações… por que será que o George Foreman que se retirou dos ringues 3 anos depois não teve direito a uma revanche? Ali que perdeu as primeiras lutas contra Joe Frazier, Ken Norton e Leon Spinks teve sempre revanches… Foremam a maior pegada do Boxe não teve este direito…. dúvido que perderia uma segunda luta… não repetiria o mesmo erro.
Anônimo
31 de outubro de 2019 2:51 pmNão poderia ocorrer uma revanche pela razão óbvia, o gigante GForeman não iria errar de novo.
GForeman era tão forte que, muitos anos depois, foi enfrentar EHollyfield e por pouco não venceu, isto sem sentar no banco em nenhum daqueles onze intervalos.
MAli, gostem ou não, foi o maior de todos , é e continuará sendo inigualável, por diversos motivos é impossível que o fenômeno possa se repetir. Para aparecer outro, é preciso uma outra guerra como a do Vietnam, o tal fulano se recusar a ser convocado e por aí vai. Não custa lembrar que o grande Ali foi a primeira pessoa a colocar o governo americano de joelhos, ou seja, foi um autêntico ET dentro e fora do ringue.
Assim como ocorria com Pelé, MAli era sempre cercado por seus fãs nas ruas de NY, uma aberração que só ocorreu com estes dois extra-classe e mais ninguém. A diferença entre os dois é que a sociedade americana sempre preservou os seus ídolos do esporte, enquanto por aqui, a sempre brilhante sociedade brasileira não cultua a memória de ninguém – se alguém perguntar o nome dos nossos três campeões mundiais de F1, talvez dois ou três em cada dez consigam responder, até porque ser campeão mundial de F1 é algo fácil de se conseguir.
Nabantino Gonçalves
30 de outubro de 2019 11:46 pmNassif, oitavo assalto.
carlos a.
31 de outubro de 2019 4:21 amnorman mailer registrou o confronto – que acompanhou “ao vivo” – e muitas de suas consequencias extra-boxe em um livrinho que coloca a palavra obra-prima na ordem-do-dia: A LUTA -, lancado no brasil pela companhia das letras. imperdivel para quem gosta de boxe, jornalismo, politica, literatura etc. etc. embrulhados em um grande texto.
Roberto Silveira
31 de outubro de 2019 3:04 pmIncrível como as narrativas, quando sob a batuta de Mestres, dão margem a grandes textos, na forma e no conteúdo, num casamento perfeito. Parabéns, Nassif, grande jornalista!!!
E, por falar em Titãs, saudade do Paulo Henrique Amorim…
LUIZ CARLOS TOLEDO PEREIRA
31 de outubro de 2019 11:02 pmEu assisti. Meus ídolos eram Ali, Pelé e os Beatles. Tempo bom. Quase enlouqueci com a queda do monstro Foreman. Contra todas as apostas, o impossível aconteceu, com o velho Cassius Clay meio fora de forma, derrotando o lutador mais forte da história do boxe. Tempo em que o box era arte, não apenas pancadaria.
Anônimo
1 de novembro de 2019 12:48 pmOlá, Nassif!!! Também considero esse o “combate do século”, aliás, eu o chamaria sem favor algum de “O combate da História!…”
Foi a vitória do talento genial, raro, único, contra a força bruta e selvagem desprovida dessa característica: o talento especial.
Muhammad Ali não foi “apenas” o mais genial lutador de boxe de todos os tempos: foi, de longe, o de mais e maior personalidade, era provido daquele narcisismo essencial aos vencedores em qualquer esporte. É esse narcisismo que, nessas pessoas, lhes dá uma autoconfiança e uma frieza absurdas, quase desumanas…
Não passa em suas cabeças a hipótese da derrota, do “não conseguirem” realizar o grande feito e., com ele, a glória que julgam mais do que merecida.
No Brasil, quem mais se assemelhou na carreira a Muhammad Ali nesse aspecto – o narcisismo acompanhado por uma natural e infinita autoconfiança – foi Romário. Quando o comparamos com Zico, por exemplo, um craque mais completo do que ele, quando vemos as expressões corporais, as falas, os olhares, essa diferença fica nítida. Muhammad Ali e Romário tinham aquele “atrevimento extra”, de olharem para si mesmos e se acharem quase invencíveis, quase passíveis de conquistarem quaisquer vitórias em suas carreiras… Muitas vezes, é o detalhe que faz com que um determinado atleta se supere na hora dos maiores desafios.
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Foi esse “narcisismo básico e natural” que trouxe ao grande Ali a frieza, a naturalidade, a inteligência monstruosa com que lutou contra o gigante dos gigantes no quesito força bruta: George Foreman.
Cansou-o, instigou-o, minou-lhe a certeza da vitória fácil esperada por todos, nocauteou essa certeza de Foreman antes dos socos que terminaram a luta…
O bailarino dos ringues, o maior lutador de todos os tempos, uma leveza inimaginável para um peso pesado, um mestre na estratégia: foi a vitória de sua personalidade toda-inteira contra aquele que era “apenas” o lutador da força mais descomunal de todos os tempos.
Nunca mais haverá outro Muhammad Ali. Nunca mais haverá luta igual…
Eliseu Leão
4 de novembro de 2019 9:31 pmNunca gostei de boxe mas sempre admirei Classius Clay, o atleta medalha de ouro nos jogos olímpicos em 1960 e 1964, que jogou fora as medalhas conquistadas para os Estados Unidos e Louisville, sua cidade natal, ofendido por ser barrado nos restaurantes e Cafés frequentados por brancos. Sempre vou admirar o Homem que disse à guerra do Vietnam, enfuriando (e assustando) a classe dominante estadunidense; preferiu perder o título de campeão mundial, pagar multa milionária e ir pra cadeia. “Matar Viet Cong? Por que? Eles nunca me chamaram de porco negro, nunca fizeram nada contra mim nem ao povo negro. Não vou…” E não foi.
MALICK BOWNES, artista: — “Foi extraordinário ver um negro assumir posição dessa importância e de enorme significado político. Perdeu o título de campeão mundial e milhões de dólares mas ganhou o respeito, a estima e admiração de milhões de negros na África e no mundo inteiro”.
=== URGENTE: é preciso distribuir esse documentário, legendado, em todas as escolas e universidades brasileiras, sobretudo em todos os círculos esportivos e culturais de todas as periferias do Brasil, onde uma classe dominante indigna, criminosa, recalcada, perversa, inculta, corrupta e racista, para isolar-se da dilatada pobreza (e suas consequências) na cidade do Rio de Janeiro, não encontrou solução melhor que instalar grades de ferro cercando condomínios e até igrejas. Foram os anos do lesa-pátria Fernando Henrique Merdoso; grades de ferro para isolar um flagelo provocado, dilatado e mantido por essa elite de merda. Como o cidadão pobre pode fazer valer a própria dignidade e seus direitos sob o jugo de uma burguesia indigna como a carioca? ===
não é expressão ofensiva: nos anos da Bossa Nova a garota de Ipanema tomava banho de mar com “janjão”: placas de merda provenientes dos esgotos que desembocavam na praia; hoje são os moradores da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, a geração Bosta Nova: vivem em condomínios “tipo americano”; contraem micoses e dermatoses tomando banho na merda deles mesmos (economizaram na construção de tratamento de esgoto!). É ou não é uma merda de classe?
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Assisti “When We Were Kings” atraído pela música e artistas que exibiram-se no estádio de Kinshasa; convidaram muitos pesos máximos da música negra da época: Miriam Makeba, James Brown, The Crusaders, The Spinners, B.B. King, e outros; nesse documentário produzido em 1996 pela Poly Gram, fiquei sabendo tudo dos bastidores daquele encontro de boxe. Evento culturalmente importantíssimo.
Fiquei paralisado já nos primeiros instantes: forte expressão facial de Makeba de cabeça inclinada, tingida por luz avermelhada, enquadrada no detalhe dos olhos, depois na boca e depois no rosto inteiro, com riffs de guitarra e rápida transição para Muhammad Ali dizendo: “Sim, estou na África; África é minha terra. Que vá aos diabos a América e o que ela pensa. Vivo na América mas a casa dos negros é a África. Quatrocentos anos atrás ero escravo e hoje retorno para combater junto com os meus irmãos”.
As entrevistas desse documentário são muito instrutivas e divertidas; vale a pena citar alguns trechos.
MUHAMMAD ALI olhando para a telecamera com seu modo histriônico, irreverente, garante que vai armar um barraco: “Quando Foreman chegar vai ser o início do seu fim; vou comê-lo num só bocado, vou aposentá-lo. Se o mundo ficou assombrado com a renúncia do Nixon ficará ainda mais assombrado quando eu mandar ele pra KO” “Sou jovem, sou bonito, sou veloz, sou forte e ninguém me pega”.
Eu ouvia isso divertido quando quase caí da cadeira, trombado pela inesperada seção de sopro dos Cruzaders (abertura de Rabbits); seguiram-se filmagens de repertório em preto e branco com cenas chocantes de violência de negros contra negros.
Nassif não exagera. Vai ser difícil voltar a ver atleta como Ali. Temos que retroceder à antiga Grécia para encontrar mitos como ele. A estátua grega de bronze “Pugile em repouso” de autor desconhecido do século V confirma a popularidade desse esporte. As duas estrelas da época foram Teógenis de Tasso (nasceu na ilha de Taso ao norte do mar Egeo), legendário pugile com cerca de 1300 encontros e… 1300 vitórias!! (22 anos ininterruptos de sucesso olímpico) e Milon, campeão invicto de luta grega- romana, nascido em Kroton, atual Crotone na Calábria, (cidade de outro gigante que só usava a cabeça, chamado Pitágoras). Theógenis e Milon foram considerados os homens mais fortes da Terra, depois de Hércules.
NOTA: um prof. Italiano chama atenção para o fato que, sim, nossa civilização ocidental, mediterrânea, recebeu muito da civilização greca mas os gregos não eram ocidentais. “Não podemos cometer o erro dos estudiosos ingleses e alemães do século XIX que imaginaram os nossos progenitores gregos, altos, belos e louros dos olhos azuis. Os gregos são mediorientais. A posição geográfica da Grecia foi a razão da sua fortuna: de um lado o contato direto com as grandes civilizações do Oriente Medio, com a Mesopotâmia, com a Pérsia e do outro com a Europa e o norte da África; daqui gerou-se a enorme riqueza cultural e material dos inteligentíssimos e presunçosissimos gregos”.
Portanto o homem alto, de pele escura, bonito, com o físico de Muhhamad Ali serve perfeitamente como ícone do nosso imaginário olímpico. Os temíveis spartanos eram baixos, atarracados, de barba e cabelos longos e pretos. Aqueles estudiosos ingleses e alemães deixaram-se enganar pela excelência grega em representar -artisticamente – a divindade e a beleza.
E o negro moçambicano nascido entre 1555-56, de 2 metros de altura, musculosissimo e com fama de guerreiro fora do comum que viajou para o Japão na companhia do jesuíta Alessandro Valigno? Chamava-se Yasuke. Fiquei conhecendo essa história porque em julho passado publicaram um texto interessante sobre ele aqui no GGN: “[…] o mais valioso dos samurais e membro de honra da guarda de um poderoso daimyô de nome Oda Nobunaga. Segundo pesquisadores, Yasuke fora escolhido para ser o portador da espada do daimyô, o que representa o máximo da confiança do senhor em seu samurai. Até hoje, relatam, não foi encontrado registro histórico de outros samurais que alcançaram tamanho prestígio”.
É mole?
Coletiva com a imprensa
Hotel Waldorf Astoria de N.Y., setembro de 1974
MUHHAMAD ALI: — Agora tenho experiência, sou professional. Fraturam-me o maxilar, fui vencido, beijei a lona. Fiquei esperto. Derrubei árvores preparando-me para esse encontro. Dei soco em crocodilo. Fiz uma baleia de saco de pancadas; algemei relâmpagos e aprisionei trovões. Semana passada matei um rochedo e feri um pedregulho…. Mandei um tijolo pro hospital; comigo a ciência médica entrou em crise.
Sou mais veloz que a luz: ontem apaguei a luz do quarto de dormir e quando ele ficou escuro eu já estava deitado. Eu sei que vocês todos preferem Foreman mas comigo esse cara não vai ter pra onde correr.
NORMAN MAILER: — “Eu estava convencido que dessa vez Ali sentia medo. Medo que aumentaria com o aproximar-se do encontro. Aparentava segurança. Sabia que era inferior ao rival como fora com Ken Norton e Joe Frazier que Foreman aniquilara.
HOWARD COSELL, cronista do ABC Sports: — “Muhammad Ali acabou; honestamente não creio que possa vencer Foreman”
MUHAMMAD ALI de cara feia apontando o dedo para o telespectador: — “Howard Cosell você sai por aí espalhando pra todo mundo que eu não tenho chance; que só restam as orações; passa o tempo dizendo que não sou o mesmo de dez anos atrás! Pois bem, conversei com a tua mulher e ela me disse que você não é mais o mesmo de DOIS anos atrás, que não dá mais no couro e revelou que a tua peruca é feita com pelo de asno…”
Imaginem se Cosell fosse um ministro do Supremo…
MOHAMMAD ALI comentando o encontro com Sonny Liston em 1965: — Acertei-lhe um gancho. O público nem percebeu. Fui rápido demais. Somente Sport Illustrated notou. O soco que dei em 4 centésimos de segundo só pode ser visto na moviola; dividi 1 segundo em 100 partes; menos de um bater de cílio, de um flash fotográfico. Pois bem no instante em que dei o soco no Liston a grande maioria piscou os olhos. O que explica não terem visto. Revejam o vídeo de olhos abertos, sem piscar e com a cara grudada na tela.
MALICK BOWNES, artista: — Torcemos todos por Ali — Foreman? Quem é? Ele diz que também é negro, mais negro que Ali e não entende a razão de tanta antipatia. Certo, Ali tinha a pele mais clara mas para nós ele era o defensor da justa causa africana e dos afro-descendentes no mundo. Era um guia, um grande guia.
Foreman desembarcara no aeroporto com um enorme pastor alemão; ofendeu os africanos (lembrando os belgas, sempre acompanhados por esses cachorros).
MOHAMMAD ALI: — Eu não combato por prestígio social; combato para melhorar a vida dos meus irmãos mais pobres que vivem nas ruas dos Estados Unidos, que vivem de esmola, de subsídio, dos que não têm o que comer, que não tem consciência de si, dos que não têm futuro. Quero mostrá-los a Louisiville, a Indianápolis, a Cincinnati. Vou percorrer o Tennessee, a Flórida, o Mississipi. Quero mostrar aos afro-americanos as suas raízes. Sou um eleito. O boxe é apenas um meio para narrar a África à minha gente. Estou certo que eles nada sabem como eu também não sabia. Quero ser a ponte entre África e América. Para isso é preciso vencer. Preciso vencer George Foreman. Sou um instrumento de Allah. Foreman é lerdo, seu “direito” não existe mais. Não o temo. Vou entrar com tudo e suportar seus golpes porque Allah é comigo e Foreman é nada em relação à missão para a qual fui eleito. — O poder, a mídia dos brancos, prognosticaram minha derrota no quinto/sexto round. Devo entrar em pânico? Eu escuto Allah e não o que diz o mundo.
NORMAN MAILER: — O encontro teve início às quatro da manhã para ser transmitido às 10 da noite nos EUA. Antes do início presenciei uma cena que não vou esquecer: o vestiário do Ali parecia um obitório. Improvisamente Ali rompe aquele silêncio sepulcral: “por que tá todo mundo triste? Qual é o problema?”
GEORGE PLIMPTOM: — Era como se todos olhassem um homem que subia ao patíbulo.
NORMAN MAILER: — Todos achavam que ele seria derrotado e temiam; conheciam Ali, sabiam que ele não entregaria os pontos; que lutaria até o fim e seria retirado do ring morto ou inconsciente. Previam derrota histórica.
GEORGE PLIMPTOM: — Ali olhou Budini e disse: “é preciso bailar está noite”
NORMAN MAILER: — “vou bailar” E todos juntos: “sim” e ele: “o que farei esta noite?” Todos em coro: “você vai balar”, “vai bailar e deixá-lo furioso”… choravam todos. Mas ele os tinha motivado de tal maneira que todos ficaram serenos.
Termina o primeiro round. Ali voltou pro seu ângulo. O pesadelo que ele mais temia no ring verificou-se. Combatia com um homem que ele não podia dominar; que era mais forte que ele; que não tinha medo dele e queria bater nele com toda a sua força. Ali olhava-o num modo que não vou esquecer. Foi a única vez que vi o medo estampado no seu olhar. Parecia em transe dizendo a si mesmo …finalmente a hora – X – chegou … Volta-se para o público e grita “A-li-bomayê” (Ali, mate-o) e cerca de 100 mil pessoas urlam num estrondo —- aquele urlo subiu no ring.
Foreman ficara sabendo da tática da “dança” e o aprisionou nas cordas; Ali entendeu e deu início a outra estratégia que não revelará: destabilizava Foreman emocionalmente resistindo aos golpes e pronunciando, baixo e compassadamente coisa tipo “vai ver se eu tô na esquina, baby”. Inacreditável, corrosivo. Era preciso estar próximo para ouvi-lo; ele falava baixo, enquanto Foreman descarregava o peso de um arsenal imenso de socos descomunais, brutais; Ali era à sua mercê isso todo mundo via, mas não ouvia; esquivava-se daqueles tiros de bazooka apenas dobrando-se de um lado para o outro dizendo “George, você me desilude…virou mariquinha…bate com menos força de uma donzela… que se passa hermano? Foreman espumava como um bisonte alucinado é cego. Na metade do quinto round Foreman era exausto além dos seus limites e ainda faltavam três.
GEORGE PLIMPTOM: — Ali destacou-se das cordas e desfechou-lhe um direito; Foreman era uma torneira aberta de suor.
NORMAN MAILER: — Ali combatia com tal classe e beleza que quando desfechou o soco final, seguiu de perto com o olhar, rodeando o colosso que desmoronava; segurava nas luvas fechadas “o vento de Allah” pronto para solta-lo mas não o fez: não quis arruinar a estética de um colosso ruindo.
GEORGE PLIMPTOM: — Foreman entrou em pane. Precipitou-se numa depressão profunda que durou cerca de dois anos; emergiu com imensa dificuldade e reconstruiu sua personalidade. Hoje é difícil encontrar alguém mais afável. Foreman; é uma legenda viva nos EUA.
Fiquei sabendo que Ali passara aquela noite sem dormir. Já bem cedo encontrou centenas de admiradores que o circundavam em silêncio e o seguiam; dava autógrafos, beijava crianças, dizia palavras simples de felicidades, apertava mãos, deixava-se circundar por pessoas que o olhavam com sincero respeito e curiosidade… foi então que pensei: Meu Deus, esse homem é um político. Será um grande líder.
MOHAMMAD ALI: — Quando eu pendurar as luvas vou ter muito o que fazer por meus irmãos; temos que resolver a questão da droga; da prostituição; da guerra entre bandas. Os negros não têm consciência de si; fizeram-nos lavagem cerebral. Ficou difícil ensinar aos negros qualquer coisa sobre eles mesmos, de serem unidos, casar e viver entre eles, organizar-se, respeitar-se. Precisam estudar, conhecer a própria história, seus líderes, suas línguas. Devem parar decididamente de implorar aos brancos coisas que eles podem fazer e obter de própria iniciativa.
GEORGE PLIMPTOM: — Eu nunca ouvi Ali dizer se retirava. Se tivesse dito eu não teria acreditado. Ali nasceu para o boxe, para o combate que ele amava muitíssimo. Como frequentemente acontece, quem ama demasiadamente uma coisa acaba consumido por ela. — Voltou para o combate. Foram 22 encontros que causaram-lhe danos físicos. Ouvia-se com frequência que estava doente, com problemas motórios. Ele não escondia e mostrava-se ao mundo como era. Não se autocompadecia e sinceramente não existe algum motivo de compadecê-lo. Acreditava na sua missão. Era feliz, muito mais feliz de viver a vida de muita gente que conheço.
SPIKE LEE: — “Os jovens de hoje ignoram tudo isso. Não sabem sequer o que aconteceu ano passado. Episódios fundamentais como esse diz respeito a todos num passado ainda próximo. Conhecem somente de nome Malcom X, Mohammad Ali, Jacie Robinson; não estudam. Essa galera perde muito em não conhecer a obra de Ali e de outros grandes porque mesmo prescindindo da época em que se vive, é raro encontrar verdadeiros heróis.”
NORMAN MAILER: — Voltei a vê-lo 10 anos depois do Zaire. Foi ocasião especial porque a revista Esquire ofereceu uma festa para homenagear aqueles que se distinguiram naquele ano. Ali era presente por tudo aquilo que fizera e eu por ter escrito alguma coisa boa para a revista. Eram cerca de 25 festejados. Fui acompanhado da minha mulher. Vimos Ali e fomos ao seu encontro; foi gentilissimo com muitos elogios. Na época eu tinha 62 anos. Ele perguntou a minha idade, eu disse… ele fez “Oh”. Ali não mudará absolutamente nada desde o tempo do Zaire. “Desejo chegar com a tua forma perfeita aos 62 anos”… e continuou com cumprimentos. Fiquei lisonjeado, envaidecido. Passado algum tempo arrumei uma desculpa e fui ao banheiro; quando me afastei, girou-se para a minha mulher, muito mais jovem que eu, e disse sério: “Pô, você ainda está com esse velho? – (risos) -Para mim esse é o Ali; gosto muito dele em todas as situações.
GEORGE PLIMPTOM: — Belo dia presenciei uma cerimônia de formatura em Harvard. Ali fora convidado como orador. Foi simplesmente extraordinário. Chegou a hora dele discursar diante de dois mil formandos. Levava consigo apenas poucas anotações. Fez um explêndido discurso sobre o privilégio do estudo, a ele negado. Pediu a todos de por a bom fruto suas inteligências, conhecimentos, cultura e dar duro para o mudar o mundo em coisa melhor. Foi comovente, tanto que escutou-se um estrondo de ovações. Um dos presentes grita “recita uma poesia!” Silêncio. Na língua inglesa a poesia mais breve jamais escrita, segundo o Barttlet’s Quotations, é a “Antiguidade dos micróbios” que diz assim: “Adão os tinha”. Muito breve! Muhammad Ali foi mais breve ainda: “Eu… nós…” duas palavras. Escrevi ao Barttlet’s: “fiquem sabendo que existe uma poesia ainda mais breve”. Acontece que o sentido daquelas palavras foi muito além da poesia. “Eu, nós” — Que pugile que ele foi…! E que Homem!
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Concordo com o que disse Spike Lee e quero aproveitar essa ocasião para recordar um herói africano e uma heroína brasileira.
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O heroi é Thomas Sankara, assassinado no dia 15 de outubro de 1987 aos 37 anos. Aposto que a grande maioria das pessoas com quarenta anos nada sabem do jovem capitão Sankara, líder da revolução socialista do Burkina Faso que Hugo Chavez chamava “Che Guevara africano”. Sankara encarnou aspirações e necessidades do continente inteiro: cancelamento da dívida (fruto da espoliação neocolonialista); corrupção endêmica; promoção das mulheres na economia rural; responsabilidade cidadã, programas de saúde, educação, modernização produtiva… resumindo: vida com dignidade. Sankara foi lúcido e previdente: tudo o que é humano (reprodução, nutrição, saúde, ecologia…) comporta uma dimensão política.
SANKARA: “Se não pagarmos a dívida os banqueiros não vão morrer mas se pagarmos o povo do Burkina Faso, sim”.
Acontece que os banqueiros franceses estão cagando e andando para qualquer povo. Liberdade —Igualdade—Fraternidade vale somente entre bancos do mesmo porte. Ponto. Mandaram matar o Sankara. Não gostaram do discurso dele pronunciado na Organização para a Unidade Africana apelando para todos os representantes internacionais de considerarem as causas e a real natureza da dívida que não é nada mais que uma nova e ainda mais penetrante forma de escravidão: a financiária. SANKARA: — Notre pays a besoin d’hommes libres pour mettre en place un monde de paix et de respect.
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A heroína é a brasileira Luiza dos Anjos Garcez, ex-moradora de rua que já fez história no atletismo brasileiro. Aos 55 anos, tornou-se a primeira atleta do Brasil a subir no lugar mais alto do pódio da competição.
LUIZA: — “A revelação veio assistindo ao filme Carruagens de Fogo, no chão de uma galeria, em São Paulo. “Vendo aquelas pessoas correndo vestidas de branco na praia, com aquela música, fiquei pensando que eu também poderia correr”, lembra Ana Luiza dos Anjos Garcez, também conhecida como “
Para realizar seu sonho, Luiza distribuiu na época uma “missão” aos colegas da rua: “você vai roubar shorts, você camisa, você meias, vou provar para vocês que consigo”, lembra. “Corri, levei seis horas, era uma maratona, eu não sabia, quase morri, mas fui até o fim, ganhei a medalha”, conta.
Em Paris, no entanto, ela foi a primeira atleta brasileira a conquistar a medalha de ouro em duas provas do Gay Games 2018: a de 5km e a de 10km. Falta a meia maratona neste sábado (11), de 21 km, prova que ela “gosta mais do que todas” Correndo, ela já esteve na Inglaterra, no Japão, Estados Unidos, Argentina, Cuba, Chile, Colômbia e Uruguai. “Sempre competindo, nunca para passear”
Ana Luiza não tem patrocínio de nenhuma marca ou órgão brasileiro, mas que recebeu o apoio institucional da Confederação Brasileira de Atletismo com uniformes da seleção brasileira para competir e uma mala. “Eu gosto de representar o Brasil. Gosto de correr com o uniforme brasileiro, senão não me sinto feliz”, diz a corredora brasileira, que se prepara agora para os 5km, uma das categorias da maratona de Nova York.
Texto completo:
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/ex-moradora-de-rua-e-primeira-brasileira-a-ganhar-medalha-de-ouro-no-gay-games/