Thiago de Mello: um poeta singular e plural, por Rômulo Moreira

Serviu no Itamarati como agente diplomático de cultura do Brasil na Bolívia e, posteriormente, no Chile, onde conheceu o poeta Pablo Neruda, que se tornaria seu grande amigo e tradutor.

Divulgação

Thiago de Mello: um poeta singular e plural

Por Rômulo de Andrade Moreira[1]

“Pois aqui está a minha vida. Pronta para ser usada. Vida que não guarda nem se esquiva, assustada. Vida sempre a serviço da vida. Para servir ao que vale a pena e o preço do amor.” (A vida verdadeira).

Ontem, 14, faleceu o poeta Thiago de Mello, nascido há 95 anos em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha, no interior do Estado do Amazonas. Além de um escritor singular e plural, ele foi um tradutor e um dos poetas mais influentes e respeitados do país, um verdadeiro ícone da literatura regional.

Ainda criança, mudou-se com a família para Manaus, iniciando seus estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e, depois, no Ginásio Pedro II. Dez anos mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1950, ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, mas não chegou a concluir o curso, preferindo seguir a carreira literária.

Durante a década de 50, colaborou com veículos de oposição ao governo de Getúlio Vargas, fundou a Editora Hipocampo e dirigiu o Departamento Cultural da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro.

Durante um curto período, serviu no Itamarati como agente diplomático de cultura do Brasil na Bolívia e, posteriormente, no Chile, onde conheceu o poeta Pablo Neruda, que se tornaria seu grande amigo e tradutor.

Nesse período, escreveu a sua obra de estreia, “Silêncio e Palavra”, de 1951, “saudado com entusiasmo por um dos maiores críticos do país Álvaro Lins, que reconheceu seu talento e lhe pediu um lugar entre os grandes autores brasileiros; trata-se de uma obra marcada por intensa subjetividade e conteúdo reflexivo sobre a vida e o sentido da vida.”

No ano seguinte, lança “Narciso cego” (1952), uma das obras mais intensas e questionadoras do autor, “discutindo a condição humana e a busca de compreensão e de um lugar no mundo: em meio às incompreensões e obscuridade do mundo, o sujeito poético discute poeticamente a angustia de ser e estar no mundo.”

Em 1965, retorna para o Brasil, porém três anos após a sua chegada é perseguido pelo regime militar e se vê forçado a viajar novamente para Santiago, onde permanece exilado por dez anos, tempo suficiente para escrever algumas de suas maiores obras que lhe renderam também um prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, ainda durante o regime militar, tornando-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Neste mesmo ano, lança “Faz escuro mas eu canto”, uma obra fundamental na produção poética do escritor, “marcando uma mudança no seu discurso lírico, passando a predominar a temática da liberdade e identificação com a luta social dos seres humanos por justiça e igualdade. O pano de fundo de seu discurso poético são os anos difíceis da ditatura militar.” Neste livro estão alguns dos poemas mais conhecidos de Thiago de Mello: “A vida verdadeira”, “Madrugada camponesa” e “Os estatutos do homem”.

No ano seguinte, foi a vez de “A canção do amor armado” (1966), optando o poeta “por um discurso crítico em relação ao que o Brasil vivia. Pelo título, percebe-se a escolha que ele fez por uma poesia engajada e de defesa da liberdade e da justiça. Os poemas deste livro se definem por essa tônica de conteúdo político.”

Já no final da década de 70, lança “Os estatutos do homem” (1977), “a primeira edição independente do seu célebre poema, com desenhos de Aldemir Martins. A partir desta publicação, o poema virou um livro independente com várias edições. O texto é uma síntese temática da lírica do escritor, versando sobre a liberdade, a justiça, a utopia e a fé no ser humano.”

Na década seguinte, nos anos 80, lançou três livros:

1)      Mormaço na floresta (1981), “marcante do novo momento de sua trajetória poética; após seu retorno do exílio, passa a residir em Barreirinha, especialmente numa localidade do Rio Andirá, chamada Ponta da Gaivota, onde construiu uma casa, vivendo em contato direto com a natureza. Essa experiência teve influência em sua obra, com o poeta retratando poeticamente temas da vida ribeirinha e a condição do homem interiorano.”

2)      Manaus, amor e memória (1984), “uma recordação dos acontecimentos que lhe marcaram a infância e a juventude, um passeio pela memória e uma crônica apaixonada por Manaus.”

3)      Num campo de margaridas (1986), “um dos mais ternos e delicados livros do poeta, definindo-se pelo lirismo e pela amorosidade, com vários poemas evocando lembranças, sonhos e experiências plasmadas de sentimento e forte carga subjetiva. Marca igualmente certo atenuamento dos temas de conteúdo político e social, o que se explica pelo próprio contexto histórico que o Brasil vivia.”

Nos anos 90, publicaria mais três obras:

  1. Amazonas, pátria d’água (1991), onde “expressa um novo olhar sobre a sua terra e o seu compromisso com a Amazônia.”

2)      Borges na luz de Borges (1993), uma longa entrevista em que os dois autores conversam sobre diversos temas: a poesia, a vida, o destino, a política, livros e o papel dos poetas no mundo: “a obra é uma lição rica de conhecimentos para jovens escritores e para quem se busca compreender a existência.”

3)      De uma vez por todas (1996), nas palavras do poeta, “uma espécie de fechamento de sua produção literária, com poemas celebrativos da vida, homenagens a autores e amigos. O livro se estrutura em torno de diversos temas e assuntos – como se fosse uma painel evocativo de suas vivências estéticas e existenciais.”

Para celebrar os seus 75 anos, em 2001, foi organizada a coletânea “Poemas preferidos”, representando o conjunto de sua produção, com os poemas que ele considerava mais expressivos e representativos do seu percurso criativo. É uma bela apresentação dos múltiplos aspectos da lírica do escritor.

Em homenagem aos seus 80 anos, completados em 2006, foi lançado pela Karmim o CD comemorativo A Criação do Mundo, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 56 anos, declamados por ele próprio e musicados por seu irmão mais novo, Gaudêncio.

Em 2009 foi editada a antologia “Melhores poemas”, organizada pelo professor Marcos Frederico Krüger, e reunindo poemas significativos que versam sobre temas variados e ilustram o percurso lírico de Thiago de Mello. O livro é um passeio por sua obra e é uma síntese de sua produção literária até então.

No ano seguinte, é lançado “O menino irmão das águas”, “uma narrativa infanto-juvenil de conteúdo amazônico em que Thiago de Mello apresenta a vida de um menino interiorano, Pedro, que numa viagem cai no rio e vive uma experiência de luta contra as águas para não se afogar. O poeta discute a relação do ser humano com a natureza e que se deve respeitar sua força e aprender que somos irmãos das águas e da natureza.”

Por fim, em 2011, exercitando seu pendor pela tradução, o poeta publica “Poetas da América de Canto Castelhano”, onde apresenta poetas e poemas expressivos da América Latina hispânica. O livro “é um grande painel da poesia no nosso continente – uma apresentação objetiva e didática da lírica de canto castelhano, com cerca de 400 poemas e mais de uma centena de poetas, com destaque para Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Cesar Vallejo, Rubén Darío, Gabriela Mistral, Nicolás Guillén, José Asunción Silva, Jaime Sabines, Ernesto Cardenal, Mario Benedetti e outros.”

No próximo dia 30 de março ele completaria 96 anos…[2]

“A cada instante morremos, dessa morte renascemos”. (Poema de nossas mortes).


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] Disponível em: https://vidaecultura.manaus.am.gov.br/historia-page.php. Acesso em 15 de janeiro de 2022.

1 Comentário

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Dori Carvalho

- 2022-01-18 03:05:18

Uma bela matéria, porém, há um equívoco ao chamá-lo de ícone da literatura regional; Thiago é muito mais que isso; sua obra ultrapassa o regionalismo, tanto conceitual, literariamente, quanto geograficamente. Thiago é um poeta mundial, ou "universal".

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