11 de junho de 2026

A imprensa e a tragédia, por Carlos Motta

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​A imprensa e a tragédia

por Carlos Motta

Uns poucos parágrafos para entender como funciona a imprensa brasileira, que teve – e tem – um relevante papel nesta tragédia que se abateu sobre a nação:

@ Não existe jornalismo imparcial. Todos os jornalistas, sem exceção, têm lado, têm time, têm preferências, têm preconceitos, porque são humanos, não robôs;

@ Todos os jornalistas que cobrem política sabem, há muito tempo, que esse bando que tirou a presidenta Dilma do Palácio do Planalto é formado por escroques da pior espécie. Se ninguém nunca fez uma mísera reportagem, escreveu uma linha sequer sobre as negociatas desses parlamentares é porque, de certa forma, estiverem aliados a eles, e não porque desconhecessem os crimes;

@ O mercado financeiro pauta o noticiário econômico, “sugerindo” pautas, colocando profissionais 24 horas à disposição dos repórteres, divulgando “análises” e convidando a moçada para cafés da manhã, almoços e jantares nos lugares mais em moda;

@ O mercado empresarial de comunicação é oligopolizado. Poucas empresas, familiares, controlam a informação, ou seja, dezenas de milhões de brasileiros leem, escutam e veem aquilo que algumas dezenas de pessoas permitem e querem;

@ Não existe, nunca existiu, e provavelmente nunca existirá, no Brasil, liberdade de imprensa. Nenhum jornalista apura e publica a notícia que deseja, a reportagem dos seus sonhos, apenas aquela que o seu chefe ordena que saia;

@ Embora os jornalões tenham páginas exclusivas para seus editoriais, a opinião do dono se espalha por quantas notícias forem necessárias, às vezes de maneira sutil, às vezes abertamente;

@ A imprensa brasileira é comercial, ou seja, os grandes – e até mesmo médios e pequenos – anunciantes têm voz forte naquilo que é publicado; 

@ Conheci poucos jornalistas com formação intelectual sólida ou mesmo que dominassem medianamente a língua portuguesa. Em geral tinham pouca leitura, quase nenhum interesse por artes e ciências, e exibiam, quando muito, uma cultura de almanaque. Vários adoravam um “jabá” (presentes de empresas e corporações) e se iludiam com a proximidade exibida por suas fontes – eram ingenuamente usados por elas;

@ O jornalismo brasileiro é tecnicamente indigente, não por escassez de recursos, mas por ter chefias incompetentes e patronais;

@ É improvável que exista lugar menos democrático que uma redação. Reuniões de pauta são apenas uma formalidade. Os repórteres são obrigados a cumprir ordens, mesmo que absurdas ou aéticas. Se não obedecerem, serão demitidos sem dó nem piedade.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

12 Comentários
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  1. Schell

    19 de maio de 2017 1:08 pm

    Corretíssimo. Parabéns.

    Corretíssimo. Parabéns.

  2. Vladimir

    19 de maio de 2017 1:10 pm

    Não é de graça que trata-se

    Não é de graça que trata-se da mídia porca deste país.

    Agora,entendo que,além dos anunciantes,o público alvo também é influente na pauta. O falecido dono de uma editora que publica um revista lamacenta dizia que publicava o que seu publico (obvio,também lamacentos) queria ler.

    Assim,não saimos do lugar: a mídia porca influencia seu publico que influencia a mídia porca.

  3. João de Paiva

    19 de maio de 2017 1:54 pm

    Artigo demolidor

    No ‘extinto’ Observatório da Imprensa Luciano Martins costa mostrou isso aos leitores e ouvintes, por mais de três anos. Tão cortante e ferinas eram as análises de LMC que o editor do OI, Alberto Dines, assim como sócios-fundadores e colaboradores do portal, como Eugênio Bucci e Mauro Mallin, se puseram a atacar LMC, que teve de publicar artigo se defendendo dos ataques covardes que sofreu por parte dos “companheiros” de casa. Pouco tempo depois LMC deixou o OI, que hoje caiu no ostracismo e não é lido nem visto por quase ninguém, sobretudo depois que impediu a postagem de comentários por parte dos leitores.

    Importante: a esmagadora maioria dos leitores apoairam LMC e criticarm eugênio Buci e Mauro malli, pelos ataques covardes ao colega.

    Se num portal que se destinava à análise e crítica de mídia ocorreu fato como esse que descrevi, dá para imaginar o que ocorre nas redações dos grandes veículos comerciais.

    1. Brnca

      19 de maio de 2017 2:37 pm

      Preciso e direto

      Fotografia precisa e verdadeira do jornalismo praticado no Brasil. Num período em que trabalhei em jornais a supresa diária era acompanhar a intimidade dos que cobriam economia com os seus entrevistados, os almoços frequentes em restaurantes da moda, pagos pelo entrevistado, os presentes caríssimos que agradeciam, inclusive, automóveis último tipo, ‘brindados’ pelas montadoras aos que cobriam a área a troco de elogios aos últimos modelos. E todos na redação achavam aquilo normalíssimo. Saí daquele mundo viciado em presentinhos e nunca acreditei em nenhuma notícia que li a partir dali porque logo identificava a fonte interessada. E nenhum jornalista que adora denunciar ‘corrupção’ aqui e ali acha que os presentes que recebem é corrupção igual a dos políticos, funcionário públicos, etc. Em menor escala, apenas isso. Hoje parece que o jabá é mesmo money, money, money.

  4. Noemi Osna

    19 de maio de 2017 2:57 pm

    A imprensa e seus interesses

    O que a grande imprensa sempre defendeu foram seus interesses empresariais. Ou seja: nunca tivemos liberdade de imprensa, apenas “liberdade de empresa”.

     

  5. Marcos K

    19 de maio de 2017 3:13 pm

    Olhando o que acontece não

    Olhando o que acontece não sei quem é mais medíocre: o empresario imbecil, o jornalista ignorante, o político safado ou o intelectual amestrado.  Nem falo da classe média coxinha imbecil, porque essa é, por definição, medíocre. Muito menos do povão porque esse nem sabe o que está acontecendo (até porque tem mais coisas pra se preocupar) e muito menos em que mundo vive.

    Só sei que, no Brasil, a burrice transformou-se em ciência. 2016 foi a demonstração disso. O país expôs suas vísceras, agora é ter a coragem de olhar no espelho e admitir o que somos: ignorantes, preconceituosos, violentos, autoritários, estúpidos, cínicos, imbecis e midiotas.

    Há muito que evoluir.

    Quero deixar claro que reconheço a existência de muitas excessões. Muitas delas postam artigos (com os quais nem sempre concordo) e comentários aqui mesmo nesta página. Temos pessoas que fogem do figurino que descrevi acima. Pena que são poucos e não são ouvidos. No geral, a burrice triunfa.

  6. marcio valley

    19 de maio de 2017 3:16 pm

    Alguma opinião contrária?

    Então… Nenhum jornalista que seja leitor do blog irá contestar a opinião? Seria interessante um debate sobre o assunto com profissionais da área. Tenho a mesma convicão do autor do texto, já publiquei sobre isso, mas gostaria de ouvir a apologia de algum jornalista. Alguém se habilita a afirmar que, à exceção dos pontos fora da curva, como Jânio, ocorre exatamente isso que o autor denuncia?

  7. Carlos B.

    19 de maio de 2017 3:33 pm

    A imprensa não apura nada!


    A quantidade de mortes estranhas em acidentes aeronáuticos como os de Eduardo Campos; Roger Agnelli da Vale, Teori do STF, aqueles executivos do Bradesco; a morte do empresário lá do Recife ligado ao avião que transportava o Campos encontrado num motel! É tudo muito estranho e passa como simples acidente, quando tudo de uma forma ou de outra tem relação com grandes corporações e pessoas envolvidas até o talo com a lava jato! Será tudo coincidência? O que a imprensa apurou? Os casos do Teori e do Campos são emblemáticos! Se não fossem os blogs, a sociedade estaria imersa nessa informação da mídia tradicional mas Graças a Deus apareceu esse negócio chamado internet, pois jornalistas bons e sérios, nós temos aqui!

  8. Fabian Bosch

    19 de maio de 2017 4:03 pm

    Análise rara e precisa.

    Artigo muito estimulante, assim, fiquei refletindo numa outra profissão, que tem em comum com o jornalismo o substrato da sua atividade: a linguagem.

    Esta outra profissão é a do advogado, que, sob este prisma da linguagem, não difere em nada do papel do juiz, do delegado de polícia ou do Ministério Público.

    Uma diferença marcante entre as duas profissões está em que a faculdade de jornalismo não gera uma linguagem própria, nem a impõe aos jornalistas. Basta comparar os estilos de Jânio de Freitas e de Élio Gaspari, digo a sua forma, sua expressão, não o conteúdo.

    No mundo do Direito, o profissional necessita usar certa linguagem, para ser lido e reconhecido como tal. Isso conduz a uma mimésis, um arremedo difuso,  todos copiando expressões, tiques, bordões, uns dos outros. Os exemplos não teriam fim: a expressão ‘em sede de’, nada vernácula, usada pleonásticamente, ao invés de uma simples preposição (em (sede de) mandado de segurança; em (sede de) liminar….). Recentemente, há alguns anos, foi abolida a preposição contra, substituída pela locução ‘em desfavor de’, ou, ‘em face de’, para designar o antagonismo das partes no processo. Em nenhum desses exemplos, se sabe quem, que autor, que autoridade seria a fonte.

    Não se trata, entretanto, de gramática ou de estilo ou de usos da língua….trata-se de uma linguagem que serve de envoltório para qualquer asneira, tanto como para algum pensamento digno do nome. Os exemplos são cotidianos, mas um paradigma dessa ambiguidade é a condenação de um morador de rua, por estar trazendo consigo dois tubos de desinfectante, tidos como explosivos; a interdição do Instituto Lula; a condenação de um homem que cortou de uma árvore alguns fragmentos para fazer um chá……

    Na base da ambiguidade da linguagem usada pelos profissionais do Direito está, paradoxalmente, a crença em que o Direito, as leis, são escritos de modo unívoco, isto é, as palavras teriam apenas um único significado. Esta ilusão de uma linguagem unívoca no Direito enganou Montesquieu:

    “Mais les juges de la nation ne sont, comme nous avons dit, que la bouche qui prononce les paroles de la loi ; des êtres inanimés, qui n’en peuvent modérer ni la force ni la rigueur.” Mas os juízes da nação não são, como temos dito, senão a boca que pronuncia as palavras da lei; seres inanimados que não podem moderar nem a sua força nem seu vigor. (Esprit des Lois, Livre XI, Chap.VI)

    A idéia de uma lnterpretação literal, de modo que resultasse sempre no mesmo conteúdo, é a um tempo, ilusão e ideologia. A igualdade e abstração das normas jurídicas repousaria no seu conteúdo – os valores – jamais nos seus enunciados, nunca nos seus significantes.

    Assim, tamanha a largueza na interpretação das leis, não seria necessário que o Tribunal Federal de P.Alegre considerasse excepcionais condutas processuais do juiz Moro. Repita-se, a dicção do Direito reside na ponderação dos valores incritos nas normas, ou, como foi escrito no Digesto: saber leis não é decorar suas palavras, mas extrair sua força e vigor.

    “Scire leges non hoc est verba earum tenere sed vim ac postestatem.”

    Sob a aparência (nem sempre) de cumprir leis, os ditos profissionais do Direito aplicam seus valores (de sua classe social), de regra, com inúmeros vetores, como tem sido analisada  neste blog a atuação de Moro.

    Bem, não é conveniente me estender mais, senão isso viraria um tratado, coisa que não me disponho a fazer. Os textos em francês e em latim servem para dar autenticidade ao meu escrito, nunca para demonstrar cultura (livresca?), como já foi interpretado por aqui.

     

     

     

  9. antonio rodrigues

    19 de maio de 2017 5:54 pm

    Pobre senhor Carlos Motta,

    Pobre senhor Carlos Motta, autor deste post, conheceu “poucos jornalistas com formação intelectual solida”.

    Trata-se de um ignorante ou de alguem com muita falta de sorte na vida.

    Caso mais atento, teria dirigido seu olhar alguns centimetros acima e lido o texto de Mauro Santayana, aqui mesmo no blog.

    Santayana é um genio, uma pessoa de carater inabalavel, que domina a linguagem de uma forma total.

    O senhor Carlos Motta vive e não teve o previlegio de ler ou assistir uma reportagem do mestre Jose Hamilton Ribeiro. Não sabe o que perdeu.

    O infeliz não conseguiu saborear a sutileza de um Janio de Freitas, combatendo o que deve ser atacado com a maior coragem e firmeza.

    Virou moda atacar jornalista.

    E nunca o Brasil e mesmo a humanidade tiveram tanta necessidade da presença dos jornalistas.

    O jornalismo é tão importante para o desenvolvimento da sociedade humana, que sofreu um forte ataque nos ultimos anos pelas forças reacionarias do atraso.

    O senhor Carlos Motta, como muitos outros que seguem a moda, erra ao confundir funcionarios de uma empresa de comunicação com jornalistas.

    Os “jornalistas” da Globonews, por exemplo, não passam de ativistas politicos, atividade bastante distante do jornalismo.

    Quem não entendeu isso não poderia se colocar na condição de critico de uma categoria profissional, que ja colaboraram e continua ajudando com coragem e determinação no desenvolvimento  da sociedade.

    Ao contrario dele, conheci grandes redações, formadas por pessoas de total integridade, preparo e coragem.

    Vi esses profissionais desafiarem os maiores perigos, denunciarem atrocidades.

    Meu grande mestre, Jose Hamilton Ribeiro, perdeu uma perna numa guerra, muitos outros perderam suas vidas, foram perseguidos.]

    Quem errou não foram os jornalistas, mas certa “esquerda”, que não entendeu a importancia deles para o desenvolvimento da sociedade e deixaram seus instrumentos de trabalho cairem em mãos adversarias.

  10. jose antonio santosjj

    19 de maio de 2017 5:56 pm

    de acordo!

    Cento e dez por cento de acordo!

    É por essa e por outras que não mais leio nada que é publicado ( fora os blogs sujos).

    Alguém pode dizer que é uma atitude tendenciosa. É mesmo, reconheço.

    Mas na minha idade posso de dar ao luxo de ser tendenciso. Não sou Jornalista!!!

  11. Junior 5 Estrelas

    19 de maio de 2017 6:19 pm

    Há anos não leio um

    Há anos não leio um comentário tão objetivo,conciso e acima de tudo verdadeiro sobre o jornalismo consolidado patrio,como esse artigo de Carlos Motta.Quando anota que “todos os jornalista que cobrem politica,e foram responsaveis pelo golpe que vitimou a Presidenta Dilma Roussf,são escroques da pior especie”,ele adentra ao paraiso e convalida a maxima do País apodrecido.

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