A seca seletiva da imprensa, por Fernando Brito

Sugerido por Assis Ribeiro

Do Tijolaço

A seca seletiva da imprensa brasileira
 
A crise da água em São Paulo não está sendo coberta pela imprensa.
 
Está sendo encoberta, isso sim.
 
Pergunto se o distinto amigo e a querida amiga viu uma reportagem sequer, acompanhada das fotos correspondentes, sobre as “obras”  que vão permitir o bombeamento da água do fundo das represas do Cantareira, viu?
 
Para não dizer que não houve nenhuma, houve uma, mostrando dois tratores limpando uma área junto à represa do Atibaia.
 
Nada mais.
 
Hoje, o Cantareira deve amanhecer com apenas 9,8% de sua capacidade, já que os 10% de ontem são apenas obra do “arredondamento” feito pela Sabesp. O relatório da Agência Nacional de Águas  já apontava 9,9%.
 
O maior reservatório, Jaguari-Jacareí, está reduzido a 2,5% de seu volume.
 
2,5%, isso mesmo.

 
Vou dar os números, que são públicos e acessíveis pela internet.
 
Em 31 de janeiro, o Cantareira tinha 217 bilhões de litros de água.
 
Ao fim de fevereiro, 160 bilhões.
 
Terminou março com 127 bilhões  de litros.
 
Hoje, tem 96 bilhões de litros, mesmo com toda a economia compulsória que descontos e multas impõem aos consumidores mais pobres.
 
Isto – ao lado da melhoria das chuvas em março e abril – permitiu baixar de 40 para 30 bilhões de litros a perda mensal do sistema.
 
Este mês a situação será pior e o esvaziamento vai superar os 40 bilhões de litros, como em fevereiro, mesmo com a vazão de saída reduzida.
 
Precisa de máquina de calcular?
 
Se tudo der certo, o bombeamento inédito leva a água até novembro. Claro, se o outro sistema que foi mobilizado para socorrer o Cantareira – o Alto Tietê – aguentar a sobrecarga.
 
E chega-se ao período de chuvas “devendo” nada menos que 180 bilhões de litros de água para que ela volte ao nível das comportas, sem exigir bombas.
 
Se as chuvas voltarem com força, o cenário em 2015 será igual ao de hoje.
 
Mas o distinto amiga e a lúcida leitora leem todos os dias previsões catastróficas sobre a…falta de luz iminente.
 
A capacidade aproveitada do armazenamento de água nas hidrelétricas é, entretanto, quatro vezes maior do que a do Cantareira.
 
Era, no domingo, de 42,5%, somando todo o Sistema Interligado Nacional. Angra I, parada desde fevereiro para manutenção programada, está sendo progressivamente (como é normal em geradoras) religada desde o final de semana. A pior situação, a do Sudeste, está em 38,8%.
 
Não é uma questão de torcer por uma “seca federal” ou uma “seca estadual”, porque as pessoas e a economia precisam de luz e água.
 
Nem de que haja uma seca em São Paulo e abundância de águas no resto do Sudeste.
 
O Brasil foi advertido em 2001 da fragilidade de seu sistema e São Paulo o foi na seca de 2004.
 
Não se discute a sua justeza, mas o fato é que só temos uma situação elétrica insegura porque Belo Monte foi atrasada pelas questões ambientais, do contrário estaria gerando hoje quase um quarto de nossas necessidades elétricas, com o período chuvoso do Norte do país.
 
Em São Paulo, nem sequer discutimos questões ambientais, pelo simples fato de que não se fez nada ou quase nada em matéria de melhoria do sistema de abastecimento.
 
Onde o amigo ouviu isto ser debatido na imensa “cobertura” que tem a crise na geração de energia?
 
A imprensa brasileira tme um nível mais baixo que o do Cantareira, já disse isso aqui.
 
E é tão turva quanto as águas do “volume morto”  de seus reservatórios.

9 Comentários

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Cheetos

- 2014-05-08 02:46:46

Eu tenho visto chamadas

Eu tenho visto chamadas diárias nos jornais matinais da Globo, o que é uma surpresa, tem até tomada ao vivo alguns dias, feitas de um dos reservatórios e reportagem sobre a falta de água (mas com cobrança alta) em algumas regiões da cidade de SP, notadamente carentes.

Pior foi hoje darem a entender que a água que estava escoando naturalmente estava sendo disperdiçada..

Mas eles já fizeram pior, ao menos agora estão falando sobre o assunto, claro, bem menos que a abertura da CPI da Petrobrás e, bem raramente, do "trensalão".

Maria Rita

- 2014-05-08 01:02:07

No programa GLOBO CIDADES, de sábado...

A reportagem vai ser sobre o abastecimento de água em São Paulo.

Assistam! Pois daí vocês irão tirar todas as conclusões e todas as dúvidas sobre o tratamento

da imprensa aos governos tucanos. O programa será uma espécie de prova cabal.

Não percam!

Lucinei

- 2014-05-07 19:35:31

Concordo, Daniel.Somente o

Concordo, Daniel. Essa oposição é um desastre de desinformação e incompetência, embora se achem a supina inteligência nacional.

Somente o trecho "O principal problema da imprensa é ser CHAPA BRANCA, como ela faz com SP e MG. Nâo é criticar em excesso o Governo Federal" que eu vejo diferente. Pra mim não são coisas diferentes, distintas: é uma coisa só.

sergio l

- 2014-05-07 15:30:58

A cobertura existe porque não

A cobertura existe porque não falar nada seria pior. Mas a tentativa de livrar a cara dos tucanos é evidente. Hoje mesmo no UOL tem uma enquete sem-vergonha perguntando se a culpa pela falta de água é do Governo do Estado OU da SABESP, como se a SABESP fosse uma empresa da Crimeia ou da Coreia do Norte.

hc.coelho

- 2014-05-07 15:00:31

Aponte-as

Há alguma coisa escondida lá na seção de cultura e divertimento e algumas análises de que houve falha no planejamento, claro que com frases sem sujeitos, uma aqui outra ali, denúncias contra S Pedro, etc, etc. Compare-as com as mil e trocentas manhetes, umas dez declarações assustadas do aécio, artigos de especilistas dependentes, e até editoriais apontando a irresponsabilidade da Dilma por um apagão que não houve e que se houver, está provado, é porque passou por cima de todas as providências devidamente planejadas e executadas. O e.m. em minas se especializou em calcular e divulgar varias vezes o quanto custará ao país o apagão elétrico, mas como é minas, não está nem ai para SP.

Pior cego é o que não quer ver.

Flavio Martinho

- 2014-05-07 14:40:43

E alguns jornalistas -

E alguns jornalistas - bancados pelos patrões ou isenções fiscais ? - estão reunidos e reclamando.

bill

- 2014-05-07 13:49:34

CALAMIDADE ANUNCIADA
ESTELIONATO ELEITORAL

O volume útil total (100%) do SE (Sistema Equivalente do Cantareira) é de 974 hm3. Hoje, 07/05/14, esse volume encontra-se com cerca de 90 hm3. Estão sendo liberadas vazões do SE de 3,0 m3/s para os corpos d'água da bacia (PCJ) e cerca de 21,0m3/s para a RMSP (SABESP).

A afluência média de maio está com míseros 6,5 m3/s, e com tendência de queda! A provável queda dessa afluência é em razão do próprio nível do reservatório, baixíssimo, pois mesmo com precipitações iguais ou maiores que a média histórica nos próximos meses, a afluência mensal não atingirá a média histórica antes de um novo processo de saturação do solo da bacia, o que não ocorrerá, com certeza, no período de estiagem que ora se inicia.

Mantidas as liberações de vazões atuais (3m3/s e 21m3/s) e as perspectivas de vazão afluente da ordem de 30% da média histórica para os próximos meses (será muito difícil a vazão de afluência superar esse patamar de 30%), a depleção do SE será da ordem de 1,5 hm3 por dia, e o SE chegará a 0% do seu volume útil na primeira semana de julho.

O volume morto do Jaguari/Jacareí (cerca de 116 hm3 que serão utilizados, de acordo com o divulgado pela Sabesp) permitirá manter as vazões de 3m3/s (PCJ) e 21m3/s(RMSP) até a 1ª quinzena de setembro, aproximadamente, considerando-se as mesmas premissas de vazão afluente consideradas acima (30% da vazão de afluência histórica).

 De setembro em diante a água a ser utilizada deverá ser a do volume morto do Atibainha, previsto pela Sabesp em 80 hm3, permitindo manter o nível atual de abastecimento da RMSP (21m3/s) até o final de outubro, ou seja, exatamente até o 2º turno das eleições.

ESTELIONATO SÓCIO-AMBIENTAL

Depois do 2º turno (28/10) um novo período chuvoso terá inicio, em tese, a partir de novembro. Mas o SE estará extremamente baixo, pois cerca de 50% do seu volume morto já terá sido utilizado (algo em torno de 190 hm3). O volume morto a ser bombeado até início de novembro/14 terá correspondido, segundo a estimativa considerada, a 18,4% do volume útil do SE.

Provavelmente essa situação de depleção do SE fará com que a vazão afluente no sistema permaneça bem abaixo da média histórica, pois somente após a saturação de todo o solo da bacia é que, potencialmente, as vazões de afluência tenderão para seus valores históricos novamente, e isso, a depender da normalidade ou não das precipitações e de diversos outros fatores que influenciam esse processo.

Ainda que consideremos o período de novembro/14 a abril/15 com uma afluência média mensal no SE da ordem de 80% da média histórica (estimativa extremamente otimista face às circunstâncias de esgotamento em que se encontra o SE e o comportamento recente do sistema nos últimos 30 meses), bem como mantidas as liberações de 3,0m3/s e 21m3/s para o PCJ e a SABESP nesse período, ou seja, mantido o “rodízio” ao longo de todo o próximo verão, o início do período seco em maio de 2015 encontrará o SE do Cantareira com o seu volume útil praticamente ZERADO, situação muito pior do que a vivenciada hoje.

As chuvas do verão 2014/2015, na melhor das hipóteses (afluência de 80% da média histórica a partir de novembro), serão suficientes, apenas, para repor o volume morto que será utilizado agora em 2014. A figura abaixo apresenta a evolução prevista considerando os parâmetros mencionados acima.

 

A captação do volume morto do reservatório Jaguari/Jacareí e Atibainha sem a respectiva implantação de um racionamento efetivo e severo na RMSP é um verdadeiro estelionato sócio-ambiental (além de eleitoral) que terá reflexos gravíssimos nos próximos anos, provavelmente levando ao colapso do sistema até 2016, com as implicações ambientais e principalmente sociais correlatas. É como se estivessem descontando uma promissória de “água pré-datada” com um agiota. Estão trocando dois anos de água em 2015 e 2016 por seis meses de água (ruim) em 2014.

É espantosa a irresponsabilidade que estão cometendo. Se eventos pluviométricos intensos (altamente atípicos) não ocorrerem de maneira freqüente nos próximos 12 meses, poderemos ter uma calamidade das grandes no 2º semestre de 2015 ou, mais tardar, no inverno de 2016 caso consigam retirar em 2015 ainda mais água do que a prevista este ano do volume morto do sistema e que um racionamento drástico seja implementado após as eleições de 2014, pois até lá, sabemos que só farão o tal "rodízio".

Motta Araujo

- 2014-05-07 13:32:17

Que ABSURDO, a crise do

Que ABSURDO, a crise do Sistema Cantareira está sendo SUPER COBERTA pela imprensa de São Paulo, com PAGINAS DIARIAS e até Cadernos completos, há abundates criticas da Sabesp, do Governo do Estado, a cobertura é total, com chamadas de 1ª página,  será que o asticulista é CEGO?

DanielQuireza

- 2014-05-07 12:48:14

É um absurdo o que

É um absurdo o que acontece.

E esse tucanos ainda tem a cara de pau de se auto proclamaram "bons gestores".

De planejamento nada entendem, são de uma incompetência incrível.

Com FHC tivemos racionamento de energia em 2001.

Agora, com Alckmim já há um racionamento de água, que é mais grave ainda, em 2014.

Isso que, no plano federal o psdb estava no governo há 7 anos.

No estadual, está há 20 anos, sendo 10 do atual Governador.

O principal problema da imprensa é ser CHAPA BRANCA, como ela faz com SP e MG.

Nâo é criticar em excesso o Governo Federal.

Imaginem se Aécio ganhe as eleições este ano. É bem capaz da imprensa chapa branca acobertar o seu governo todo e distorcer as ações "impopulares" que ele mesmo já disse que vai tomar. E ai como que vai ficar ?

É por isso também, fora as medidas impopulares, que, mesmo o Goveno Dilma com os erros que cometeu continua merecendo meu apoio. Apoiar candidaturas com conivência explícita da imprensa é um perigo enorme. Depois não teremos para onde correr.

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