Enviado por alfeu
Do Meio Bit
Muitos anos atrás trabalhei em um lugar onde todo mundo odiava assinar ponto. Uma vez por mês preenchíamos todos os dias, mesma entrada, mesma saída pra almoço, volta e nos dias de fecharmos, as horas-extras normais.
Um dia a direção achou que isso não estava certo, que estávamos nos aproveitando, ficando tempo demais no almoço, etc.
Fomos obrigados a marcar todas as entradas e saídas com precisão de minuto, e o diretor do setor rubricava na hora. No final do mês descobriram que a maioria almoçava em 15 minutos, e quase todo dia tinha pelo menos 1 h ou 2 h extras, e os fechamentos eram muito mais longos. No primeiro mês meu salário veio uns 70% a mais.
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Essas economias porcas são comuns em empresas sem visão, e fora gravadoras talvez as empresas mais sem visão hoje em dia sejam os jornais. Todos, sem exceção se recusaram a aceitar a internet até ela ser inevitável. Mesmo hoje cometem suicídio editorial, como um grande jornal do Rio de Janeiro que demitiu todo mundo que cobria tecnologia com mais de 15 anos de casa ou 15 pontos de QI (com uma exceção, oi, Tia C!).
O Daily Telegraph é o mais recente exemplo de atitudes imbecis, antipáticas e retrógradas. Em 2016 existe algo chamado mobilidade, você pode trabalhar de qualquer lugar do planeta. Home Office não faz mais sentido, ele existe no seu bolso. Exceto para os jornalistas que chegaram na redação e descobriram isto debaixo de suas mesas:
Esse tal OccupEye é um equipamento orwelliano que promete otimizar a eficiência da empresa, usando sensores térmicos e de movimento para identificar quanto tempo o funcionário fica na mesa. Você sabe, mesma medida de produtividade de atendente de call-centre e de remador escravo de barco persa.
O tal jornal faz tanto tempo que não sabe o que é um bom jornalista que não reconhece os que trabalham em sua redação. Eles imediatamente começaram a fuçar e descobriram que o sistema coleta dados e transmite em tempo real, com total granularidade. Dá pra quem instalou o negócio saber quanto tempo cada funcionário ficou na mesa, quantas vezes e por quanto tempo levantou.
É o tipo de informação inútil em um mundo onde você pode trocar mensagens com o primeiro-ministro enquanto toma um café, ou quanto pode estar tranquilo performando o número 2 enquanto pesquisa uma matéria em seu iPad.
Os jornalistas ficaram puctos, com razão. O RH correu para explicar que não era nada disso, estavam pensando em salvar os pandas polares ou algo assim, que os sensores ficariam por um mês e então teriam informações de consumo de energia, otimização de espaço, etc. Tudo que o site da tal empresa não diz que faz.
Alguém brincou de Garganta Profunda e vazou a história para o Buzzfeed, magicamente o projeto ecológico miou, e em meras 4 horas os sensores foram recolhidos. Menos mau, mas ainda fica aquele gosto ruim de saber que a única coisa que te separa de um regime de servidão medieval é a legislação trabalhista.
Morvan
12 de janeiro de 2016 6:31 pmExcelente Ponto de Reflexão; Bom Humor E Fluidez.
Boa tarde. E bem escrito. A propósito de mais-valia e de outros cânceres capitalistas, escrevi, há algum tempo: Aposentadorias: 85/95 E Avante. Trabalhar Para Viver Ou O Contrário?. Trata-se de um questionamento sobre o trabalho e sua visão tayloriana persitente na nossa sociedade líbero-rentista. Sim, e a remissão ao trabalho de Chaplin também merece relevo e está no meu artigo, idem.
roberto S
12 de janeiro de 2016 6:40 pmservidão medieval
“única coisa que te separa de um regime de servidão medieval é a legislação trabalhista.”
Como os “modernos” administradores e empreendedores alegam que a legislação trabalhista é uma trava para o capitalismo, podemos crer que na verdade eles tem mesmo é saudades dos velhos tempos de …. “servidão medieval”.
altamiro souza
12 de janeiro de 2016 9:24 pmaí um cara de alto QI foi
aí um cara de alto QI foi demiido porque ficou mais tempo no
banheiro do que o previsto pelo sensor das cagadas inovadoras…
sensorzinho nazista esse, sô!
Athos
13 de janeiro de 2016 4:23 pmÓtimo texto.
Nada melhor do
Ótimo texto.
Nada melhor do que screver sobre si mesmo.