Manual do perfeito midiota – Parte 2

 

Nesta nossa série de serviço público, seguimos oferecendo subsídios para que você, cidadão ou cidadã sob a influência do ecossistema da mídia, possa desenvolver os recursos necessários para enfrentar a complexa diversidade do País onde vivemos.

Como você deve ter notado, nos últimos anos o grande conclave social do Brasil ganhou novas vozes, de pessoas que costumavam passar o dia na área de serviço, usavam elevadores lá no fundo do corredor e tinham o fabuloso poder de permanecer invisíveis quando você não precisava deles.

Esse fenômeno, que emancipou milhões desses indivíduos e até colocou seus filhos em faculdades, chama-se mobilidade social.

Não se preocupe: o Brasil nunca tinha visto isso acontecer; portanto, você não é um imbecil por ignorar sua existência.

Também não estamos aqui tratando da sua capacidade intelectual: nosso objetivo é cuidar para que você assegure sua condição de midiota, que oferece uma visão de mundo mais curta, radical, sem sutilezas e, portanto, menos sujeita a angústias.

Por exemplo: se você é do tipo que acredita que “o filho do Lula é dono da Friboi” ou que “Lula comprou a Rede Globo”, está no bom caminho – pois mesmo com as grandes exigências de compliance, entende que o filho do ex-presidente possa ter se tornado acionista majoritário de uma das maiores empresas do mundo sem que ninguém se desse conta. Se você não sabe, compliance é um sistema legal de controle empresarial que, entre outras coisas, impede a ocultação de capital. Serve, por exemplo, para prevenir conflitos de interesse e evitar que grupos terroristas ou criminosos se apossem de grandes recursos financeiros.

Não se preocupe: recentemente, uma senhora de minhas relações jurou que Lula é dono de metade do Brasil, inclusive de uma fazenda que pertence ao Instituto de Agronomia Luiz de Queiroz, e que obteve tudo isso com negócios “no fio do bigode”.

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Ainda não descobri como se faz negócios assim e de que maneira alguém que não tenha bigodes poderia se incluir nesse tipo de capitalismo, por isso entendo de enquadrar essa senhora no grupo dos midiotas.

Você não precisa chegar a esse extremo para assegurar sua candura. Na semana que está terminando, você teve muitas oportunidades para alimentar a midiotice.

Analise, por exemplo, a pesquisa Datafolha publicada no domingo (13/12) e repetida por todos os meios da imprensa hegemônica. Dizia a manchete: “Após 13 anos de PT, 68% não veem melhora de vida”.

Se você, imprudentemente, seguiu lendo, ficou sabendo que nesse período, a renda dos mais pobres subiu 129% e os 10% mais ricos tiveram um acréscimo de 32% em seus ganhos. Mas não siga adiante: você vai concluir que a Folha distorceu sua própria pesquisa e mentiu descaradamente na manchete.

Você ainda pode dizer, em defesa de seu direito à midiotice, que a pesquisa fala de percepção, não dos números reais da mobilidade social ocorrida no Brasil, mas para isso você teria que admitir que houve esse resgate dos mais pobres. Melhor não.

O fato que os editores do jornal não podem omitir é que a percepção da realidade presente é sempre menos favorável do que a visão que se tem do passado, ou seja, a maioria das pessoas tende a achar que o presente é sempre pior. Isso não é novidade, e o diretor da Folha, sendo filósofo, deve conhecer o texto de Immanuel Kant (1724-1804) ao refletir sobre “A religião dentro dos limites da simples razão”: “que o mundo vai de mal a pior é uma queixa tão velha como a História, ou como a velha arte poética, tão velha quanto a mais velha entre todas as poesias, a religião dos sacerdotes”.

Os jornalistas desonestos sempre contarão com alguma razão na crítica do mundo, quando desejarem distorcer a percepção de uma circunstância política ou econômica, porque a tendência natural do ser humano é achar que o hoje é pior que o ontem.

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Os jornalistas interessados em interpretar corretamente a realidade sabem que, numa circunstância adversa, ou seja, com o atual governo sob o bombardeio incessante da chamada mídia tradicional, um grande número de pessoas tende a dissimular eventuais opiniões favoráveis a ele. Por exemplo, boa parte dos 42% que declararam aos pesquisadores que a situação do Brasil continuou igual ao que era antes do governo Lula devem ser considerados mais próximos dos que acham que a situação melhorou do que daqueles 26% que consideram o contrário.

Portanto, o que a pesquisa mostra é que, mesmo sob o ataque constante e desonesto da imprensa hegemônica, o número de brasileiros que reconhecem a melhoria recente na qualidade de vida é muito maior do que os 26% que puxam a opinião pública para baixo.

Mas como nosso propósito aqui é garantir que você siga acreditando na mídia tradicional, fique com a manchete e ignore as malandragens dos editores.

Tentemos outro tema da semana: a condenação, em primeira instância, do ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, apontado como o criador do esquema que ficou conhecido como “mensalão”. Você não estranhou o fato de que Azeredo não foi incomodado pela Polícia Federal e pode esperar o julgamento de recurso em liberdade, enquanto outros personagens seguem presos, mesmo sem condenação e que alguns deles são acusados apenas de “pensar em cometer crime de corrupção?”

Poderíamos também analisar o noticiário sobre o processo de impeachment da presidente da República e a ridícula tentativa da Polícia Militar de São Paulo de reduzir a 10% o total de pessoas que foram à manifestação contra a tentativa de golpe contra as urnas, mas isso pode fazer você pensar demais.

Não se esforce muito nos próximos dias: o PMDB está dividido, o vice-presidente Michel Temer se colocou numa situação institucionalmente insustentável e os apoiadores da atual presidente mostraram que uma eventual ruptura da ordem democrática não será recebida com flores ou balões de gás.

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Nesse ínterim, recomendo a leitura intensiva da revista Veja. Ou a Época. Ouça a rádio Jovem Pan. Assista ao Jornal Nacional. Isso vai apaziguar seu espírito.

Não reflita muito sobre as contradições aqui apontadas, pois se sair por aí questionando a credibilidade da imprensa hegemônica, correrá o risco de se colocar acima das exigências para ser considerado um perfeito midiota.

Como é costume, vou colocar no pé do texto uma referência bibliográfica, mas fique advertido de que você pode sofrer efeitos colaterais com essa leitura. Trata-se de um livro intitulado “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich, escrito em 1946 e publicado em 1947. Fala de pessoas com o perfil do midiota, o homem e a mulher comuns, aqueles indivíduos que formam a massa descrita por Elias Canetti e que constituem o sonho de consumo de todo candidato a tirano.

Destaco alguns frases: “Zé Ninguém, tu estás sempre do lado dos opressores”. (…) “Tu não acreditas no progresso social”, (…) “mas sobre o que se escreve nos jornais tu acreditas, quer percebas, quer não”.

Esse tal de Reich conseguiu ser desprezado pela esquerda e amaldiçoado pela direita. Fugiu do nazismo na Alemanha e morreu numa prisão dos Estados Unidos. Portanto, era um homem perigosíssimo.

Então, cuidado ao ler esse texto. Você corre o risco de perder a condição de midiota e talvez venha a precisar de um programa tipo bolsa miséria intelectual.

Para ler: “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich. 

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

 

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6 comentários

  1. COMO RESGATAR O ZÉ NINGUÉM?

    Aqui no Brasil é comum ver o “ZÉ NINGUEM” se manifestar naqueles seres que se vestem com uma camisa amarela, tenis e meia soquete.

    Com esta mídia é muito difícil segurar o NOSSO  Zé Ninguem que vive escondidinho,  lá no fundo, prontinho pra sair na primeira provocação.

  2. essa brincadeira com a tal 

    essa brincadeira com a tal  da bolsa intelectual pode

    ser hilária à primeira vista, mas com o tempo

    pode dar uma dor intensa

    se o intelectual não for midiota e depender, portanrto,

    dessa canalha grade mídia golpista.

    falar então em inteklectual organico conforme antomnio

    gramsci, parece um sonho distante.

    acabamos tendo que fer esperanças noutro antonio, o negri,

    o que fala da necessodade de resistencia a essa

    vassaladora força conservadora…

  3. MANUAL

    Fico feliz em constatar que nos últimos anos o Governo brasileiro conseguiu produzir tantos especialistas. Temos especialistas em tudo! Como aquele Advogado que põe na placa: “Especialista em Direito civil, penal, trabalhista, tributário, previdenciário…”. Não que eu duvide que alguém possa ser especialista em várias coisas. É possível! Apenas acredito que ele vai ser mais “especialista” em alguma coisa ou não vai ser especialista em nada.
    Antes do advento das chamadas redes sociais, as discussões de ideias e opiniões eram restritas à Academia e/ou a bares da moda com intelectuais, pseudointelectuais e interessados diversos, onde o debate era intermediado pelo Mestre e/ou por algum amigo mais sensato. Pelo que me lembro não havia agressões, xingamentos, defenestrações. Ao contrário, quando alguém batia o pé em determinada ideia e o outro empacava com outra ideia, um dizia para o outro: vá ler fulano, vá ler beltrano. “Contra fel, moléstia, crime, vá de Dorival Caymmi” (Chico Buarque), dizia outro de fora da discussão.
    Hoje, temos especialista em Economia, Cientistas Políticos, Constitucionalistas, Sociólogos, Filósofos! (Quem diria!), e, até temos especialistas em Relações Internacionais. O problema é que como o Advogado acima, não temos várias pessoas especialistas em determinado assunto, mas, várias pessoas “especialistas” em todos os assuntos. E, assim, correm o risco de não serem especialista em absolutamente nada!
    Mas, porém, contudo, todavia, “os especialistas” não deixam de se expor, ou melhor de “expor” sua opinião acerca de tudo, mesmo correndo o risco de se contradizerem o tempo todo e, o que é pior, deixarem transparecerem que, até, não sabem nada sobre o que estão opinando. Servindo de “mulas” para outras opiniões sobre as quais não fazem a menor ideia da origem, a razão e o porquê delas, apenas as reproduzem por achá-la que servem a sua causa. 
    Paliativos: Um livrinho pequenino, mas muito interessante: “Sobre fala merda”, Autor: Henry G. Frankfurt e outro, “Como me tornei estupido”, Autor: Martin Page.
    Não se cansem muito!

  4. Agradecer e agradecer…

    Nassif, obrigado por tudo, pela sua dedicaçao, honestidade e respeito com que voce escreve para todos nós. Muita saúde e amor para voce e para todos os que voce ama nessa vida !!! Que o novo ano corresponda a todas as suas expectativas.  Abraço ! Luiza

  5. Repito: Luciano Martins

    Repito: Luciano Martins Costas deve ser convidado a escrever para o GGN. Nos últimos anos ele se mostrou o maior crítico de mídia do País. É preciso dar voz e espaço para que esse jornalista e crítico possa esclarecer a população brasileira, sobretudo aquela massacrada pela mídia comercial.

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