O jornalismo antiprofissional do Poder360, por Marcelo Miterhof

Poder360 vetou um artigo crítico ao presidente da República e ao presidente do BNDES, mesmo depois ter assumido o compromisso de publicação.

O jornalismo antiprofissional do Poder360

Por Marcelo Miterhof[1]

Foi publicado ontem, 3/2/2022, no portal do jornal da GGN o artigo “A ‘live’ de Bolsonaro e as insinuações contra o BNDES”[2], escrito por mim em conjunto com outros nove colegas do banco.  O objetivo do texto – escrito originalmente para o público interno – foi mostrar erros e omissões cometidas em relação à atuação do  BNDES na transmissão ao vivo que Bolsonaro fez em 27/1/2022, que contou a com participação do presidente do BNDES, Gustavo Montezano.

Antes de receber a sempre generosa ajuda e pronta veiculação de Luís Nassif, fui incumbido pelos coautores de buscar a publicação no Poder360. Entrei em contato com o editor de artigos, com quem já tinha tido um contato cordial e eficiente no fim do ano passado, que resultou na publicação de um texto (“A pegadinha de Cuba, Venezuela e… Nicarágua!) no portal em 30/11/2021.

Não menciono o nome do editor porque estou convencido de que ele também foi uma vítima, mas tenho os registros das trocas de mensagens mencionadas a seguir.

Na terça-feira, 1/2/2022, às 15h37, o editor respondeu ao envio do artigo dizendo que havia o interesse do Poder360 em publicá-lo na quinta-feira, 3/2. Como eram muitos autores, fomos atrás das informações solicitadas de cada um (nome completo, idade, email, minicurrículo e foto). Uma nova versão foi enviada na própria terça. Na quarta pela manhã, as informações foram complementadas.

No entanto, na quarta, às 19h10, o editor me mandou uma mensagem dizendo que teriam que suspender a publicação do artigo. Deu uma justificativa genérica: “tivemos uma conversa editorial sobre a linha que o Poder360 deve seguir durante as eleições. infelizmente, esse vai ter que ficar de fora dessa vez”.

Disse que não tinha entendido. Ele assumiu que o erro foi dele, mas seguiu de maneira genérica dizendo que o Poder360 tinha decidido reduzir as contribuições externas. Alegou ainda que o protocolo formal de aceitação dos artigos era via correio eletrônico e não mensagens de whatsapp.

Respondi que não há dúvida de que houve o compromisso, que a explicação para sua quebra estava mal especificada e que o caso soa como um veto editorial.

O editor me ligou. Tivemos uma conversa dura, mas cordata, de cinco minutos. Falei (e depois escrevi em mensagens) que, se o problema fosse uma mudança no número de artigos diários, isso nunca ocorreria desonrando compromissos assumidos, que muita energia foi gasta e tempo de resposta desperdiçado.

Ele insistiu que não era um veto ao conteúdo, mas pediu trinta minutos para tentar resolver. Depois de uma hora e meia, perguntei se publicariam. Quase vinte minutos depois, a resposta foi que não, dizendo que foi um engano seu.

Reafirmei que era óbvio que uma empresa de comunicação não deixaria um editor em situação tão constrangedora por conta de uma (suposta) mudança no número diário de artigos, que isso não fazia nenhum sentido. Lamento sinceramente pelo editor, que me pareceu bom profissional e genuinamente constrangido.

O BNDES sofre há anos com notícias fraudulentas, criadas e vocalizadas por políticos e também pela imprensa, entre outros. O Poder360 não quis, em benefício da opinião pública, diversificar as vozes nesse debate.

A conclusão não é difícil: o Poder360 vetou um artigo crítico ao presidente da República e ao presidente do BNDES, mesmo depois ter assumido o compromisso de publicação. É o jornalismo (anti)profissional, de que alguns tentam se gabar!


[1] Marcelo Miterhof é economista do BNDES. O artigo não reflete necessariamente a opinião do banco.

[2] https://jornalggn.com.br/crise/a-live-de-bolsonaro-e-as-insinuacoes-contra-o-bndes/#_ftn1

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

1 Comentário

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Vladimir

- 2022-02-04 10:42:24

Está certo o editor deste dito site de notícias. Eles seguem a mesma linha daquele capo da revista falida dos salões de cabelereiros de somente publica o que seu público quer ler. Assim,não há como publicar qualquer matéria crítica a corja que domina o país pois foi eleita e apoiada por essa gente,leitora do site.

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