5 de junho de 2026

O nó da comunicação do poder público

Sugerido por André Sousa

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Do blog Do Lado de Lá

OLHE BEM, PRESTE ATENÇÃO (PARTE 2)

Por Marco Aurélio Mello

Se os meios de comunicação tradicionais estão em crise (e não só no Brasil) por que, então, o poder público gasta tanta energia com eles?

Esta tem sido uma pergunta recorrente entre os novos interlocutores no cenário virtual. Recentemente, o jornalista Rodrigo Vianna foi malhado sem dó por militantes petistas, porque ousou questionar a falta de boa vontade do novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com a “nova mídia”. Vianna chegou a ser acusado levianamente de estar fazendo muxoxo, para pleitear verbas públicas. O que poderia ter sido um bom momento de reflexão, não só para a militância, mas para os políticos que acabam de atingir o poder, virou mais um fla-flu desses típicos que povoam o universo virtual.

E qual é o nó?

O nó é a falta de habilidade do poder público em fazer chegar aos eleitores a mensagem. O exemplo mais significativo foi o aumento escalonado do IPTU na cidade, que sujeitou Haddad a um desgaste monumental. A grande imprensa claramente manipulou a informação e “editou” o discurso oficial de forma ambígua, dando espaço para um sem-número de interpretações. O que poderia ter sido um golaço da nova administração virou uma canelada contra os paulistanos. E o prefeito? O prefeito limitou-se a usar a própria grande imprensa para acusar o golpe.
Mas por que as crises inventadas pela grande imprensa ainda colam?

Porque a lógica da máquina segue sendo a mesma. O sujeito toma posse, mas as “repartições” seguem seu curso, sem se adequar às mudanças. Vou aos exemplos práticos: os assessores chegam pra trabalhar e encontram sobre suas mesas o “clipping” do dia. São destaques dos principais assuntos noticiados pelos veículos tradicionais. Ou seja, o administrador público começa o seu dia de trabalho se informando por meios que já não informam mais ninguém!

E quando há uma denúncia quase sempre falsa?

A autoridade chama uma “coletiva” pra esclarecer os “fatos”. Só que os veículos cadastrados são os mesmos que, em conluio, planejaram aquela cobertura. Muitas vezes, enquanto aguardam, os repórteres já foram pautando-se uns aos outros. Resultado: a entrevista será um amontoado de lugares-comuns e respostas-clichê, que muitas vezes foram “sopradas” pelo próprio dono do jornal ao entrevistado. Esta troca de favores faz a situação ficar ainda mais nonsense.

Mas nada se compara a uma exclusiva…

Em vez da autoridade lançar-se ao desconhecido, exigir um cadastro de novas mídias e abrir espaço para novos interlocutores, novos agentes da notícia – e era sobre isso que chamava a atenção o texto do Rodrigo – eles insistem em alimentar a máquina que atende a interesses exclusivos de seus algozes. Os exemplos são muitos: lembram-se quando Palocci antes de ir à forca, por exemplo, foi à Folha de São Paulo? Outros vão à Veja de Carlinhos Cachoeira. Assim não dá, não é mesmo? 

Quem orbita em torno desta lógica?

Jornalistas especializados em “comunicação corporativa”, “gestão de crise” e “mídias sociais”. Como se eles e só eles soubessem implementar as “políticas de redução de danos”, para ficar no jargão que já agrega numerosos burocratas prontos a dar “consultorias”, “media training”, “coating” (reparem como há sempre uma palavrinha em inglês para ilustrar esse “admirável mundo novo).

E como o poder público pode se livrar deles?

Para romper com esta lógica perversa, e era este o ponto central da análise do Rodrigo Vianna, a chamada mídia alternativa precisa entrar no jogo. Não necessariamente com dinheiro, patrocínio, mas com incentivo, acesso. Não podemos produzir conteúdo exclusivo, se não temos as portas abertas, nem os meios para alcançar os interlocutores. Precisamos ser atendidos ao telefone, ouvidos, considerados. E do jeito que a “máquina” funciona hoje, fica impossível para um Governo, dito popular, chegar ao seu eleitor sem se abrir à essa nova força.

E as verbas públicas?

Ora, o nome diz: públicas. Se não servem para fomentar novos meios de comunicação, não deveriam servir para patrocinar a grande imprensa. Simples assim. O Estado deveria suspender os anúncios e usar este dinheiro para melhorar a formação crítica dos que precisam de informação de qualidade. Que tal? Estou certo de que eles saberiam sozinhos encontrar o melhor caminho para se informarem e levar a mensagem adiante com precisão e confiabilidade infinitamente maiores.

Mas podemos ligar nos telejornais e criticar a Globo. Também podemos entrar no site da Veja para bombardear seus colunistas. Como diversão, funciona. Mas como mudança de paradigma, pode esquecer.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. José Almir

    12 de dezembro de 2013 1:57 pm

    Caro Marco Aurélio
     
    Acredito

    Caro Marco Aurélio

     

    Acredito que esta inércia de costumes e esta cultura atrelada a grande mídia não é o suficiente para explicar tudo. Penso que existe entre outras coisas um muito medo, sim, um medo que não sabe de onde vem e nem medo de que propriamente. Realmente a governo não tem outra opção a não ser criar e estimular novos canais de informação e comunicação. Ficando preso, principalmente os governos do PT, a este passado estará sem dúvida no pior dos mundos.

  2. ArthurTaguti

    12 de dezembro de 2013 2:08 pm

    E desde quando o governo

    E desde quando o governo federal está preocupado em democratizar a mídia? Esqueceram a entrevista de Paulo Bernardo na Veja?

    Para discutir suficientemente as intenções do PT no âmbito da comunicação é preciso contextualizar: mesmo com a grande mídia batendo diuturnamente no partido, compensou ou não compensou, do ponto de vista eleitoral, manter uma postura mais subserviente, ao invés de partir pro confronto direto?

    Pelo que estamos vendo, compensou. Lula foi reeleito e conseguiu eleger sucessora. Dilma provavelmente será reeleita ano que vem. O PT conseguiu a Prefeitura de SP, e entra em 2014 com chances boas de levar o governo do Estado.

    Então, para que mudar? Se Haddad se afoga com a mídia, Dilma vai bem com este cenário, e ninguém do PT é louco de sacrificar um cenário certo de reeleição federal por causa do Haddad. Que a Prefeitura vá para as cucuias, se for o caso.

    Cortar verbas estatais pros grandes veículos, ou tentar regulamentar a mídia levaria o setor a uma “Guerra Santa”, com oposição cem vezes mais furiosa que vemos agora. Como este cenário seria incerto, o PT é conservador e prefere contemporizar para garantir sua própria sobrevivência no âmbito federal, que, em última análise, é a única coisa que importa de verdade no Brasil.

    Conforme o Azenha mesmo ponderou, é preciso deixar esta ilusão que o partido é o progresso, apenas impedido de avançar por uma correlação de forças desfavorável no Congresso e na Mídia. O PT é um partido como qualquer outro, e que pensa primariamente na sua própria sobrevivência/manutenção no poder/ocupação de cargos estatais. 

    Tanto que sua política de comunicação é igualzinha a de qualquer outro (PSDB/PMDB/DEM/PSB). Se a questão fosse realmente a correlação de forças, sem maioria para aprovar a Lei da Mídia, o PT já estaria há muito tempo tentando contornar este lance da comunicação com medidas administrativas, como Vargas fez com o Última Hora, como Requião fez fechando a torneira da publicidade para a Globo, ou como Chaves fez com a TV estatal.

    Se pro PT é boa esta estratégia, pro país é bom? Vocês que me digam, caso um dia o PT perca as eleições, o que o país terá avançado neste campo. Provavelmente, seus deputados e senadores ficarão gritando no plenário do Congresso, assim como faziam antes de 2003, que a mídia manipula, mente e distorce.

  3. atenir

    12 de dezembro de 2013 3:10 pm

    Na esplanda inteira, todos os

    Na esplanda inteira, todos os ministérios tem assinaturas anuais do globo, da veja, da época e do estadão e da folha de são paulo. São milhares de reais gastos com a grande imprensa e quase nada com a globosfera.

    Sinceramente, esses petistas burros merecem ser destronados para aprenderem o que significa bajular o inimigo.

     

  4. Juliano Santos

    12 de dezembro de 2013 3:35 pm

    O Haddad está no começo do

    O Haddad está no começo do mandato e já implementou pelo menos duas excelentes medidas para os paulistanos mais necessitados de políticas públicas. A faixa excluisva e o aumento progressivo do IPTU.

    Deveria então estar aumentando seu prestígio entre a maioria. Mas ao contrário está com sua gestão mal avaliada. Claro, o pig trasformou as medidas numa sacanagem que o prefeito fez com os paulistanos.

    Não adianta, é o mesmo caso da Dilma, nenhum dos dois é bom de comunicaçao com o povão, como o Lula. Portanto, tem que montar uma eficiente estratégia de comunicação. Nas redes sociais, claro, porque no pig não terá espaço.

    O aviso está dado, Haddad. Senao fizer nada, foi porque não quis

  5. Valmir Gôngora

    12 de dezembro de 2013 4:26 pm

    mais do mesmo

    No Valor Econômico de hoje, 12 de dezembro, entrevista de Haddah, página inteira, lugares-comuns, beicinho. Na primeira página, a derrota de Haddad, na justiça, na causa IPTU. O Marco Aurélio está certo.

    1. ArthurTaguti

      12 de dezembro de 2013 5:08 pm

      Quando os contribuintes mais

      Quando os contribuintes mais pobres começarem a receber seus carnês de IPTU, mais barato, a história muda.

      O PT não venceu maciçamente entre os mais pobres em 2006 e 2010 porque dominou a mídia, mas porque eles votaram no partido depois que foram beneficiados pelos programas de transferência de renda.

      O partido cotinua usando a estratégia de contemporizar com a mídia porque vem funcionando relativamente bem, estão ganhando eleições.

      O problema é quando algum dia se tornarem oposição, e no governo federal a mídia afagar o ocupante de plantão igual faz com os tucanos igual em SP.

  6. Edson Alves

    12 de dezembro de 2013 6:14 pm

    O nó da comunicação do governo

    Gosto e torço muito pelo prefeito Haddad, mas o Marco Aurélio está coberto de razão.

  7. jura

    12 de dezembro de 2013 10:06 pm

    “E as verbas públicas?
    Ora, o

    “E as verbas públicas?

    Ora, o nome diz: públicas. Se não servem para fomentar novos meios de comunicação, não deveriam servir para patrocinar a grande imprensa.”

    O dinheiro público não serve para fomentar nem patrocinar ninguém. Só pode ser usado em benefício público, nunca privado.

    Os EUAinventaram o marketing e a propaganda modernos. Nem lá é permitida a propaganda do governo com aqui. Até as campanhas de utilidade pública – as únicas legítimas – são feitas pelo Adcouncil, uma ong que coordena as doações das próprias agências de publicidade e meios de comunicação desde a II guerra, quando foi criado. E eles disputam essas oportunidades para se promoverem.

    O resto é corporativismo e conflito de interesses.

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