Sobre o maniqueísmo nas discussões da Internet

Vamos a algumas considerações sobre as reações provocadas por três posts do blog: o elogio ao apuro técnico do jornalismo da Globo; as críticas (antigas até) ao Ministro da Fazenda Guido Mantega; e o bloqueio de comentários ao post sobre a montagem fotográfica do Ricardo Setti, blogueiro da Veja.

Alguns desses posts foram para suscitar reações, sim, e permitir uma análise mais acurada sobre três pontos:

  1. ter-se mais clareza sobre o essencial e o acessório nas discussões políticas, econômicas e midiáticas;
  2. analisar a inutilidade do maniqueísmo na discussão de ideias;
  3. entender melhor o próprio espírito do blog.

A crítica negativa absoluta – ao essencial e ao acessório – é ineficaz. Fica um discurso para convertidos, como ocorre com os blogs de esgoto. O jornalista perde sua principal arma: a capacidade de discernimento, de separar o que é bom ou ruim e expor com franqueza.

Se tudo o que sai de um lado é ruim, e no outro lado só se tem virtudes, liquida-se com a capacidade de análise e de crítica. Vira torcida organizada, não espaço de reflexão.

Dito isto, vamos aos posts polêmicos.

O caso Globo

Ontem mesmo publiquei um post sobre minha palestra em um ambiente influente: de juízes e desembargadores federais. Lá, aprofundei as críticas contra a  mídia, instei os juízes a defenderem os direitos individuais contra os assassinatos de reputação, apresentei pontos centrais que caracterizam abuso de poder econômico e cartelização da mídia e denunciei expressamente o envolvimento da Veja com o crime organizado. Essa é a batalha essencial e em um ambiente em que cada palavra é pesada e julgada.

No entanto, alguns dos comentaristas se fixam no post em que elogio a qualidade técnica do jornalismo da Globo, um elogio merecido e que em nada diminui o teor das críticas às manipulações do sistema Globo. O post, aliás, termina com as ressalvas quanto à linha editorial do Globo.

Você pode escrever: “a Globo manipula os fatos, é golpista, faz parte de um cartel etc etc… porém a qualidade técnica do seu jornalismo é boa”. Para parte da blogosfera, é sinal de rendição. Como é que se faz?

O caso Guido

Nos últimos dias, é divulgado o PIB, tratado como pibinho. Aqui, banco o estudo do Chico Lopes sobre os erros de metodologia do cálculo do PIB. Na sexta, uma coluna com o Ministro Fernando Pimentel, organizando os pontos que delineiam um cenário econômico de desenvolvimento.

Na própria coluna de hoje, um conjunto enorme de fatores reforçando a aposta no futuro, como a queda dos juros, o câmbio, as concessões. E a explicitação de um ponto vulnerável: o discurso do Ministro da Fazenda Guido Mantega. Aliás, repetindo as mesmíssimas críticas que fiz no início do ano.

Quem conhece minimamente os meandros da política econômica, sabe que sua continuidade independe de Guido. E entende que a natureza da minha crítica é totalmente distinta da do “The Economist”. A revista pede a cabeça de Guido, como representante de uma linha de política econômica que ela própria critica. Aqui, critica-se Guido por, não sabendo explicitar adequadamente, comprometer os princípios da política econômica.

Trata-se de diferença essencial de enfoque. Mas o clima de torcida impede muitos de entenderem o óbvio.

O maniqueísmo transforma toda crítica em teoria conspiratória. Vou poupar os amigos que embarcaram nisso e não expor seus comentários em um post para não deixá-los constrangidos.

O caso Ricardo Setti

Não existe nada de mais execrável nas seções de comentários do que levantar a bola para sessões de linchamento. É uma das piores marcas dos blogs de esgoto.

Aqui, fiz o principal, expus a enorme tolice de Ricardo Setti, ao veicular uma foto falsa de Lula. Digo mais: se fosse verdadeira, sua publicação ainda assim seria execrável, indigna da biografia de Setti. Lamento, aliás, que ele esteja contaminado pelo estilo fétido da revista.

Daí a permitir toda sorte de ofensas contra ele, vai uma distância. O que o debate público ganharia, além do efeito catarse? Nada. Levantar a bola e permitir linchamentos é tão fácil que até o esgoto pratica.

A missão do Blog

Aqui mesmo, tenho criticado a submissão dos Ministros do STF ao clamor externo. Imagine se, para dar cada opinião, eu fosse me basear no pensamento da maioria, no patrulhamento, no efeito-manada; ou só aceitasse comentários que seguissem determinada linha de pensamento. Atenderia à necessidade de catarse (característica maior dos blogs de esgoto) e prejudicaria qualquer veleidade de aprofundamento na discussão.

Por isso mesmo, tenho enfatizado a diferença entre os blogs militantes e os blogs jornalísticos. Os dois tipos são legítimos, mas cada qual tem uma função diferente. O jornalístico tem o papel de clarear os fatos, estabelecer o contraditório nas opiniões, trazer visões distintas da realidade visando retomar o papel legitimador do jornalismo – que se perdeu nessas loucuras dos últimos anos.

Um post que contradiga o pensamento da maioria traz reflexões e discussões muito mais profundas do que os posts de torcida.

Quem acompanha o Blog conhece de cor e salteado nossa linha. Para quem acompanha esporadicamente, vai aqui a explicitação de princípios:

  1. Este é um blog jornalístico, não um blog militante.
  2. É um blog que preza a discussão de alto nível de nossos comentaristas. A pluralidade e o aprofundamento de temas são pontos centrais da linha editorial. O critério para a seleção de comentários é o de estimular o contraditório e a discussão. Às vezes leio críticas contra posições consideradas conservadoras de alguns comentaristas. Lamento não haver mais comentaristas conservadores para maior equilíbrio das discussões.
  3. Acredito na importância da crítica consistente, como fator de aprimoramento das instituições. A manipulação da crítica pela mídia não é razão para se abolir as críticas consistentes às políticas públicas. A não-crítica é tão perniciosa quanto a crítica generalizada.
  4. Acredito na importância de visões alternativas de país, seja de liberais, seja mais à esquerda. A construção de um país não se faz com enquadramentos ideológicos de medidas, mas pela definição pragmática daqueles que são mais eficientes. Por isso mesmo, prezo tanto as políticas e os movimentos sociais, quanto ferramentas de gestão, inovação e práticas de mercado.
  5. Defendo as políticas sociais, o desenvolvimentismo, condeno qualquer forma de discriminação e de intolerância, acredito na importância de uma oposição civilizada  e de maior regulação do mercado. O que não me impede de abrir espaço para pensamentos contrários, sabendo que é da discussão de ideias que nascem as informações e as análises mais relevantes.

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