‘Uma escolha muito difícil’ versus ‘O presidente e os golpistas’, por Eliara Santana

A imprensa - e isso vale para os isentões de outras paradas - tem as mãos muito sujas nessa enrascada em que nos metemos.

UMA ESCOLHA MUITO DIFÍCIL versus O PRESIDENTE E OS GOLPISTAS

por Eliara Santana

Um ano e quatro meses separam esses dois editoriais do jornal Estado de São Paulo. O primeiro título é de 8 de outubro de 2018 – começo do processo de segundo turno da eleição presidencial. A “escolha muito difícil” era entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Dizia o editorial de 2018:

“De um lado, o direitista Jair Bolsonaro (PSL), o truculento apologista da ditadura militar; do outro, o esquerdista Fernando Haddad (PT), o preposto de um presidiário. Não será nada fácil para o eleitor decidir-se entre um e outro”.

Na edição de hoje, 27 de fevereiro, o editorial afirma:

“Não se pode dizer que surpreende a nova estocada do bolsonarismo contra o Congresso, com a anuência do presidente da República. ‘Eu respeito as instituições, mas eu devo lealdade apenas a vocês, povo brasileiro’, discursou Bolsonaro agosto do ano passado. ‘Povo brasileiro’ parece claro, é o nome que Bolsonaro dá a seus seguidores. É a estes que Bolsonaro jura lealdade, embora tenha sido eleito para governar a Nação dentro das normas democráticas”.

Relembro aquele já ontológico pois que recordar é viver e porque ele simboliza muito bem um estado de coisas que foi se construindo.

Àquela altura, achavam mesmo que uma figura pública como Fernando Haddad se equivalia em proposta, modo de agir, percepção do mundo, respeito à democracia a alguém como Jair Bolsonaro? Uma figura também pública que chama filha de fraquejada, diz que prefere filho ladrão a filho gay, diz que não estupra uma deputada porque ela não merece? O professor e o capitão se equivaliam?

Hoje, falar sobre e apontar tais questões não significa atribuir “superioridade moral” a qualquer partido, significa ser honesto para assumir – mesmo discordando criticamente do outro candidato, no caso Haddad – que um não equivalia ao outro. O que Bolsonaro dizia era inaceitável para um candidato à Presidência da República. Simples assim.

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Nem o ódio ao PT consegue justificar que a imprensa tivesse colocado as duas candidaturas no mesmo patamar, em polos opostos. A imprensa – e isso vale para os isentões de outras paradas – tem as mãos muito sujas nessa enrascada em que nos metemos. E essa lembrança não se trata de uma atitude infantil de “ressuscitar” por pirraça o editorial do Estadão a cada nova estocada do presidente – é preciso colocar o dedo na ferida. Temos de mostrar sim, e falar, e escancarar. Porque isso nos levou a uma porcaria sem tamanho, em todos os níveis, e porque agora precisamos pensar coletivamente como sair dela. Sem rancor e sem hipocrisia.

Pra fechar: no caso de um segundo turno Alckmin x Bolsonaro, vocês conseguem imaginar Haddad (que segundo a imprensa equivalia a Bolsonaro) saindo à francesa do Brasil num segundo turno crucial? Acho que não. Pois então, é disso que se trata.

P.S: Tenho achado que a indignação é muito seletiva (por parte de alguns) e não passa de um bate-assopra para irem mostrando os lugares de cada grupo. De parte a parte. Vamos ver

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