5 de junho de 2026

A Quarta Guerra Púnica, por Felipe Bueno

Os Irmãos da Itália atualmente no governo, se pudessem, colocariam no Mediterrâneo o muro que Donald Trump não conseguiu erguer

do Observatório de Geopolítica

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A Quarta Guerra Púnica

por Felipe Bueno

Foi-se o tempo em que os romanos entravam sem pedir licença em terras que não eram suas. Isso começou na própria península itálica e se espalhou pelo continente europeu. O Mediterrâneo tornou-se mare nostrum e levou os romanos ao norte da África e ao Oriente. O Canal da Mancha não foi impedimento para a expansão ocidental. Aos que enaltecem as conquistas dos generais, suponho não ocorrer que do lado derrotado sempre poderia haver um grupo de insatisfeitos gritando “Iulius Cesar domum ite”*.

Mas isso foi há bastante tempo.

O Império Romano, mais por razões geográficas que humanas, é ancestral da Itália. Faço essa ressalva porque é vasta a quantidade de toscanos, emilianos, lombardos, piemonteses, lígures, campanianos, sardos e demais que vivem suas vidas com aquela altiva autonomia, renovada a cada amanhecer e, para o bem e para o mal, sem dar a mínima importância para o que a Itália pensa de si mesma e de sua história comum.

As lembranças dos dias de glória, porém, são capazes de despertar afetos e delírios em determinadas almas.

Tais memórias, inclusive, foram essenciais na consolidação da tardia unificação do país, visto que a Itália que hoje conhecemos é resultado de movimentos que foram acomodados na segunda metade do século XIX.

O primeiro a usar essas ferramentas com resultados trágicos foi Benito Mussolini. Entrado na história da humanidade como poderoso orador e insidioso político, saiu pateticamente pela porta dos fundos, não sem antes deixar um rastro de morte, destruição e desprezo pelo outro.

Assim como acontece na Alemanha, cuja história, enquanto nação, tem semelhanças e até raízes comuns, o fantasma do ditador extremista de tempos em tempos sai dos livros e coloca-se por trás de discursos e atos de ódio. Ganha eleições, coloca radicais no comando, toma decisões que vão de encontro ao que se espera de uma nação civilizada.

Os Irmãos da Itália atualmente no governo, se pudessem, colocariam no Mediterrâneo o muro que Donald Trump não conseguiu erguer entre os Estados Unidos e o México. Não estão sozinhos: Ursula Von Der Leyen, presidente da União Europeia, já afirmou que cabe aos europeus decidir quem pode entrar, confirmando novamente a invencível fraqueza do Velho Continente.

*Em latim: Julio Cesar, vá para casa.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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