“Numa disputa por corações e mentes, é crucial estar nos territórios” avalia Marilene de Paula

São duas frentes de luta dentro do campo de esquerda para que se possa ampliar sua atuação. As mudanças sempre vêm, de uma forma ou de outra.

“A Retomada da Democracia e Futuros Possíveis”. Observatório de Favelas

“Numa disputa por corações e mentes, é crucial estar nos territórios” avalia Marilene de Paula

por Arnaldo Cardoso

Nesta segunda parte da entrevista publicada no último dia 20, neste Jornal GGN, sob o título “Uma sociedade civil atuante é fundamental para a democracia” com a historiadora Marilene de Paula, coordenadora do escritório brasileiro da Fundação Heinrich Böll, iniciamos com suas ponderações acerca das formas de representação da sociedade civil para além dos tradicionais partidos políticos, como atenuantes da crise de representatividade que vem fragilizando as democracias pelo mundo.

Após resgatarmos que a Fundação Heinrich Böll tem entre seus pilares a defesa – na Alemanha e no mundo – das várias formas de representação da sociedade civil, Marilene argumentou que “Devemos pensar a democracia como um sistema que assegura liberdades civis e políticas, que exige um estado garantidor de direitos de sua população e que constrói pesos e contrapesos para manter o estado democrático de direito. A sociedade civil é parte desse sistema”.

Diante da realidade que está posta aos brasileiros, Marilene ressaltou que “Vamos precisar dela [sociedade civil] mais que nunca para elevar as vozes daqueles e daquelas que estão demandando direitos. Como um sistema complexo, atores reacionários e fundamentalistas [animados com a chegada de Bolsonaro ao Planalto] têm atacado a democracia por dentro, em suas instituições. Mas há resistência, senão viveríamos em uma ditadura, sem [nenhuma] liberdade de expressão e outros direitos. A resistência vem da sociedade civil, mas também daquelas instituições que estão sendo atacadas”. 

Questionada sobre as forças sociais que tem resistido nos últimos anos, Marilene não parece ter dúvidas quando afirma que “O Brasil possui uma das sociedades civis mais vibrantes e competentes do mundo. Tem representatividade em vários fóruns internacionais […] Uma importante inflexão que está em curso [reside na pergunta] ‘para que serve um movimento ou ONG?’. Até bem pouco tempo uma grande parte delas tinha como fim exigir políticas públicas, dialogar com as instâncias dos governos, exigindo direitos. Mas se não há diálogo com o governo, se o que vemos é um desmonte das políticas, então qual é a minha tarefa? Muitas deram novo sentido às suas práticas e estratégias, redirecionaram recursos para o diálogo, voltaram aos territórios, entenderam que há outras perguntas e respostas a serem dadas e se juntaram àqueles e àquelas que mais têm sofrido. Não é à toa que a pauta racial ganhou visibilidade, a questão das mulheres e da população LGBTQI+. Ao mesmo tempo houve uma ampliação de representatividade, o mundo das redes sociais e seus influencers agora também se juntam nessa conta”.

Prosseguindo nessa reflexão, colocamos uma pergunta sobre o quantum de pressão é necessário para promover avanços democráticos na nossa sociedade, ao que Marilene respondeu reconhecendo dificuldades mas afirmando crer que “novas forças (coletivos jovens, por exemplo) [estão sendo] forjadas nos últimos anos. E ao mesmo tempo, o momento também trouxe a possibilidade de reflexão profunda sobre a forma com que essas organizações viam seus públicos, que espécie de diálogo interno faziam em termos de espaços de poder. Eu costumo dizer que precisamos de mais Marielles e menos Che Guevara. Muitas organizações e partidos ainda são dirigidas por homens brancos, de meia idade, sem renovação de quadros, sem repensar suas políticas internas em relação a negros, jovens, e em especial mulheres negras. O aumento do poder de grupos radicais e fundamentalistas mostra que o discurso da democracia como valor e ferramenta não chegou até boa parte das pessoas. Vejo que isso cada vez mais está sendo posto em xeque e as instituições estão se repensando”.

Sobre as várias arenas da luta política, pontuamos que, na democracia liberal a disputa  eleitoral é o momento privilegiado para a reconfiguração das forças políticas, e depois no Parlamento, visando a aprovação de leis propostas por grupos que se fazem majoritários. Concomitante a essas lutas, há a guerra cultural, que transcende os espaços institucionais da política e abarca toda a sociedade.

Vendo a sociedade brasileira como ainda marcada pelo patriarcalismo, machismo, racismo, elitismo, conservadorismo religioso, como a esquerda pode vencer sua posição de desvantagem em relação à direita, nessa guerra cultural?

Diante dessa pergunta, Marilene avaliou que: “São duas frentes de luta dentro do campo de esquerda para que se possa ampliar sua atuação. As mudanças sempre vêm, de uma forma ou de outra. Há que se fazer uma mudança profunda de renovação de quadros. Colocar em lugares chaves aqueles que representam as aspirações reais, que conseguirão dialogar com o mundo inescapável da tecnologia, diante da precarização do trabalho, da crise social e econômica que estamos vivendo. Velhas linguagens que [apenas] nomeiam o capitalismo como o grande vilão, sem dar substância, não contribuem para avançarmos em renovar e direcionar as ações para a construção de um mundo mais justo.

A construção de pontes, de diálogo entre grupos, também é uma força importante. A esquerda mais tradicional deixou de lado suas bases. [..] Numa disputa por corações e mentes, como diziam os antigos, é crucial estar nos territórios”.

Com relação aos coletivos e movimentos sociais com pautas centradas na questão racial e de direitos da mulher, sobretudo da mulher negra, a atuação de Marilene a frente da Fundação Heinrich Böll apoiando diversos projetos nos últimos anos, respalda sua avaliação de que “O protagonismo desses grupos está no fato de terem base social, em especial as mulheres negras. Esses grupos e coletivos lidam com as dores de sua população todos os dias, constroem laços de solidariedade; a pandemia mostrou isso muito bem. Foram essas mulheres que estavam presentes nos territórios, doando cestas básicas, direcionando para atendimento psicológico, orientando sobre o auxílio emergencial, etc.

As mulheres foram as mais atingidas pela pandemia, perderam seus empregos, tiveram uma carga maior com trabalho em casa, aumentou a violência por ficarem em casa com seus agressores. Os movimentos estão presentes nesse contexto”.

Se sob esse ângulo vemos os coletivos e movimentos sociais renovando suas formas de atuação, por outro vemos aquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman expressou numa entrevista de 2016 avaliando que estamos vivendo o “colapso do diálogo” e apontou as redes sociais como uma das principais responsáveis por isso, estimulando o individualismo e a intolerância.

Discutindo sobre a utilização das redes sociais para ampliar o diálogo, principalmente com os jovens, Marilene teceu as seguintes considerações:

[Os atores político-sociais tradicionais, inclusive do campo progressista] “estão ainda patinando para entender como lidar com as redes, como lidar com a mediação dos diálogos via smartphone e aplicativos. Porém, se olharmos o campo como um todo, os movimentos da periferia do mundo político, as pequenas ongs e movimentos, os coletivos de jovens, eles já estão [ampliando] o diálogo há tempos. […] O desafio é: os tradicionais atores [como partidos políticos] abrirem espaço para esses novos personagens, não como algo fora do sistema, e sim, integrante e protagonista, aprender com eles”.

Abordando o tema mais amplo das atuais desafios à democracia e, tendo em perspectiva que a Fundação Heinrich Böll tem escritórios em 33 países, sendo 5 deles na América Latina (Brasil, Chile, Colômbia, México e El Salvador), observamos que em exercícios de análise política e de cenários na América Latina, é comum que se recorra às imagens de “ondas” e de “movimentos pendulares” para explicar a ascensão de forças políticas de direita e de esquerda em governos da região. Na década de 1980 teríamos vivido uma onda de democratização, na de 1990 uma onda liberal, na de 2000 uma progressista/popular democrática, na última década uma onda de direita/conservadora, e agora estaríamos ingressando numa nova onda de governos democráticos/progressistas de centro-esquerda e esquerda, sendo o acontecimento recente mais relevante a eleição de Gabriel Boric no Chile e a expectativa de derrota da direita na eleição deste ano no Brasil.

Sob essa perspectiva, indagamos a Marilene quais seriam, na sua avaliação, as mais importantes agendas que precisam ser seguidas e implementadas no Brasil por um governo progressista a partir de 2023. Ela avaliou que:

“Primeiro devemos pensar que não será a mesma onda daquela do começo dos 2000. Há elementos que mudaram radicalmente a forma de estar no mundo. A uberização do trabalho chegou para ficar, as tecnologias de vigilância são uma realidade inescapável, as redes sociais estão mais fortes que nunca, a crise ambiental chegou com força devastadora. Portanto, os desafios são em vários campos, é trabalho para décadas.

A crise ambiental e um protagonismo do Brasil, considerando suas florestas e biodiversidade é uma pauta importante. Deve-se fugir das soluções fácies associadas à economia verde, que não dialogam com as práticas nos territórios. Não se pode apostar nas monoculturas agrícolas como fonte de desenvolvimento do país, reconhecidamente aquela que oferta empregos de baixa escolaridade, com baixos salários e precarizados.

Outra pauta importante é a da diminuição substancial da violência no Brasil. São 50 a 60 mil pessoas mortas por ano, uma matança cotidiana de jovens negros, banalizada pelos governos locais e pelo federal. O crime organizado está cada vez mais forte nos estados, tomando mais e mais territórios.

Não há democracia se as pessoas vão pensar duas vezes antes de se candidatarem ou realizarem alguma ação que vá contra o interesse desses grupos por temer por sua vida”.

Como o tema das várias formas de resistência esteve presente ao longo de todo esse diálogo, não poderia ficar de fora a discussão sobre a arte, a arte popular, a arte-educação, a necessidade de descolonizar o conhecimento e a arte, compreendendo toda arte como ato político e forma de resistência.

A coordenadora da Fundação Heinrich Böll contou que “ao longo dos últimos anos tem apoiado vários projetos na área da cultura. Em 2020, em meio à pandemia, fizemos uma chamada pública, juntamente com o Observatório de Favelas e a Fábrica de Imagens, para artistas do Rio de Janeiro e do Ceará. A ‘Mostra Olhares sobre o Agora’ contou com 17 vídeos de artistas desses estados, mostrando temas variados ligados às temáticas LGBTQI+, mulheres negras, memória e história.

O fato de o campo da cultura ter sido o mais atingido por ataques de grupos fundamentalistas e corte de recursos públicos mostra o medo que uma cultura livre impõe a esses atores”.

Marilene concluiu nossa entrevista com o lúcido e estimulante raciocínio de que “A cultura transforma o pensamento, nos faz ver para além dos nossos cotidianos robotizados; um perigo para certos atores e suas pautas reacionárias”.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), escritor e professor universitário.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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