15 de junho de 2026

O trabalho de base, por Lincoln Secco

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Enviado por Leo V

O trabalho de base

Por Lincoln Secco

Do Blog da Boitempo

Em julho de 1919 Filip Mironov ousou escrever uma carta aberta a Lenin onde reportava que os camponeses da região do Dom gritavam “Queremos sovietes, fora os comunistas”. Claro que se referiam aos “comunistas” que oportunamente aderiram depois de 1917. Mironov tinha sido o responsável pela resistência ao avanço das tropas brancas do General Krasnov. Em 1920 foi preso e assassinado pelo governo bolchevique. Em 1960 o Exército Soviético o reabilitou.

O dilema daquele cossaco pobre que se fizera chefe militar foi o da esquerda histórica desde a Revolução Francesa. Jacobinos sob Napoleão, comunistas sob Stalin e anarquistas na Rússia ou na Espanha tinham que escolher entre o déspota progressivo ou a derrota para inimigos muito piores.

Longe estamos de situação parecida no Brasil. Nenhum grupo de esquerda tem aquelas qualidades que só o momento histórico e as escolhas humanas podem forjar. Ainda assim, vivemos uma situação política muito grave. Desde 1964 a Direita não saía às ruas. O governo caminhou tanto à direita que perdeu parte do apoio que tinha nos movimentos sociais e não recebeu nenhum alívio de seus opositores do mundo oficial da política.

O que deveriam fazer os novíssimos movimentos populares diante de uma ameaça de impeachment da presidenta eleita?

TRABALHO DE BASE

Antes de mais nada cabe dizer que, individualmente, ninguém deveria permanecer indiferente à cassação de um mandato legítimo. O atual governo tem o direito de cumprir seu mandato, ainda que o atual governo seja conciliador e não tenha percebido que o pacto social rentista que outrora o sustentava se quebrou.

Mas a pergunta não se refere a indivíduos e sim a coletivos.

Os novíssimos movimentos fazem aquilo que o PT abandonou faz muito tempo: trabalho de base. Por isso, a ascensão do Movimento Passe Livre no período de junho de 2013 a janeiro de 2015 só surpreendeu quem estava preso ao país oficial. Desde 2005 ele operava longe dos gabinetes da esquerda bem empregada.

Como ele, muitos coletivos e movimentos fazem seu trabalho silencioso nas periferias. Se despontarem aqui ou ali na cena política não será por obra das redes sociais. Na maioria dos casos não atuam com pautas amplas, concentram-se numa única de grande capacidade de mobilização local ou até nacional. Sua organização horizontal e sua utopia não acorrentam seus membros. Eles e elas formam ali esculturas sociais fora do circuito dos partidos de esquerda. A política oficial está numa frequência, eles e elas em outra.

COBRANÇAS

Constantemente tais movimentos são cobrados à direita e à esquerda. E os black blocs? Irão à marcha antifascista? São contra a Copa do Mundo? Ao atacar a prefeitura deste partido não colaboram com o governador daquele outro? Por que não se engajam na campanha pela água? Por que abriram a porta do inferno em junho de 2013? O que pensam do programa Mais Médicos? Por que não dão mais entrevistas?

A mais nova pergunta, caso a luta política venha a se acirrar será: são a favor do governo federal ou ficarão passiva e objetivamente ao lado dos fascistas?

A resposta mais óbvia é manter a autonomia. É que esses movimentos, diferentemente daqueles tradicionais da esquerda (sindicalismo, MST, MTST etc) não têm nenhuma relação orgânica com os governos petistas. Os movimentos sociais citados são parte importante de nossa história e têm todo o direito (talvez, o dever) de lutar pelo governo que ajudaram a construir.

Mas os novíssimos movimentos podem dizer tranquilamente que quem criou a crise política atual e tem que enfrentá-la é o próprio PT. Portanto, é incabível que eles se associem a um partido e a um governo cuja maioria condenou as manifestações populares dos últimos anos e, em alguns casos, apoiou a repressão a elas.

Muitos neopetistas defendem abertamente a prisão de “vândalos”. Não deixa de ser sugestivo que o único aspecto positivo que a grande imprensa destacou ao mesmo tempo nos dois protestos de 13 e 15 de março foi o caráter “pacífico”. Embora as selfies com a tropa de choque e a apologia da Ditadura Militar não deixem de causar dúvidas… Apenas no dia 15 foram presos em São Paulo alguns “carecas” fascistas, logo soltos. Nenhuma palavra sobre Rafael Braga, o preso símbolo de junho de 2013.

RECUO ESTRATÉGICO                                                                                                       

Apesar disso, os novos movimentos não deveriam ficar indiferentes à conjuntura. O ciclo recessivo de uma economia estruturalmente semi-estagnada, a nova estratificação social e as tensões políticas nas ruas também atingem o trabalho de base.

O lutador de rua é preso como criminoso comum, vândalo, associação criminosa e, possivelmente no futuro por terrorismo. Se até dirigentes petistas são selecionados entre a totalidade dos políticos corruptos do país para serem exemplarmente julgados, o que esperar para quem não possui a rede de apoio jurídico e parlamentar dos partidos estabelecidos?

A combinação de economias exportadoras de matérias-primas, demanda mundial crescente por elas e governos de centro-esquerda entrou em crise no Brasil, Argentina, Equador, Venezuela e talvez até na Bolívia. Em Honduras e Paraguai, extremamente periféricos, nem chegou a funcionar. A demanda dos países ricos pelas commodities esbarra, todavia, no fato de que aqueles governos latinoamericanos eram permeáveis também à mobilização popular por maiores compromissos do Estado com saúde, educação, transporte, agricultura familiar e livre de transgênicos e contra grandes obras destinadas à geração de energia para a economia primária exportadora e à construção de corredores de escoamento dos produtos exportáveis. Ainda que tais governos mantivessem intacto o grande capital.

Diante disso, o trabalho de base enfrentará maior hostilidade policial quando levar a protestos públicos, ocupações e manifestações nas ruas. O que fazer? A resposta não pode estar neste texto e sim na própria dinâmica dos novíssimos movimentos sociais. Eles continuarão seu trabalho silencioso na infraestrutura da sociedade civil. A aposta é que depois de junho vivemos um novo ciclo político no Brasil. A luta dos partidos continuará e alguns deles, se souberem fazer umaggiornamento à esquerda, continuarão importantes na superfície, mas como um corpo sem alma.

Mas no subterrâneo da política, há um espírito vibrante, ainda sem um corpo social. Como um espectro que nos ronda.

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditosIntérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

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5 Comentários
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  1. Juliano Santos

    4 de abril de 2015 12:45 pm

    Mesmo criticando as tais

    Mesmo criticando as tais “jornada de Junho”, por sua inconsequência juvenil, sempre ressaltei a importância de uma oposição à esquerda, o que é salutar e necessário, já que é claro que o PT encontra-se no espectro de centro-esquerda. Para voce, Leo V, é centro mesmo, mas aí é outra discussão.

    Minha crítica não é de que toda a esquerda deve dizer amém ao governo petista. Mas sim ao fato de, por conta de conseguir maior visibilidade, ficaram lado a lado com facistas, e aceitaram que participassem de seus atos, bandeiras desde do tipo bobagens anarco-infantis de “sem partido, eu sou inteiro”, até violência propriamente dita de pitboys rasgando bandeiras vermelhas com os dentes.

    Quanto aos black blocs, eles são o que são, e uma democracia madura deve saber lidar com eles. Mas ok, isso é passado. Agora tem que ver a nova conjuntura. Continuo achando que a oposicionismo de esquerda deve exercer seu direito de fazer oposição, ainda mais diante do tal ajuste, que desagrada até a CUT. No entanto, vejo irresponsabilidade em certa visão de que é melhor um governo tucano, para escancarar e acirrar a luta de classes. Não haveria luta de classes, haveria sim é porrada no lombo. Sintomático disso é como as PMs aderiram ao dia 15 sem disfarce.

    Mas sim, é preciso admitir que essa oposição de esquerda cerrou fileiras com o PT no segundo turno, ajudando a presidenta a conseguir a apertada vitória. E que depois ela deu uma banana para todos. Não que a necessidade do ajuste seja uma falácia neoliberal. Mas que a Dilma devia explicações aos seus eleitores, sem dúvida. Chamando para o diálogo todos que ajudaram na eleição 

    1. Leo V

      4 de abril de 2015 7:33 pm

      Discordo,
      Nao conheço ninguém

      Discordo,

      Nao conheço ninguém de esquerd que aceitou estar ao lado de fascistas em manifestação.

      Se fascistas apareceram numa manifestação chamada pela esquerda com pauta de esquerda…

      Em 2013 esse foi um processo puxada pela grande imprensa para ressignificar manifestações de esquerda.

      O que existe de fato é o governo do PT, através da Dilma e de seu Ministro da Justiça, criminaliarem manifestantes de esquerda e passar a mão na cabeça dos fascistas.

      As manifestações de esquerda para o governo são de vãndalos, bandidos. Já as da direita, que pedem golpe, que batem em que tem camisa vemelha no caminho, são democráticas.

      Portanto até onde eu sei quem andado de mãos dadas com os fascistas é o próprio governo.

  2. Doney

    4 de abril de 2015 1:33 pm

    A burocracia fatal a esquerda

    Este texto é até traumático de ler, tendo em vista que, seguindo um padrão antigo dentro da esquerda, as lideranças do PT INTENCIONALMENTE bloquearam, asfixiaram e burocratizaram o trabalho de base.

    Mas por quê fariam isto?, alguém poderia perguntar.

    Simples, porque quando você traz novas pessoas para um partido, ou para um sindicato, ou para qualquer outra instituição da esquerda, rapidamente essa nova galera traz novas ideias, novas formas de ver as coisas, novas demandas e, por conta disso, de maneira natural formam-se novas lideranças. E é exatamente isso que as pessoas que estão encasteladas nestas estruturas de poder abominam: serem substituídas, largarem o osso, darem espaço para outras pessoas, voltarem elas próprias a base – o que seria sua obrigação moral (se tivessem alguma moral). OS BUROCRATAS ABOMINAM ESSA OXIGENAÇÃO.

    Então, para garantirem seu espaço, suas regalias, suas mordomias, vão arrumar toda sorte de desculpas, de álibis, de meios de bloquearem o surgimento de novas lideranças – mesmo que isto custe, em última instância, a própria sobrevivência do partido.

    E se o debate interno vai virando uma fábula (e ainda, quando ocorre, não se materializa em nada), o descolamento da ideologia do partido com sua prática no poder se acentua, o partido vai virando um agregado de caciques, e a militância, naturalmente vai se esvaindo, posto que só é ouvida nas eleições internas que garantirão a assunção ao poder de um ou outro cacique de sua preferência.

    Com uma estrutura carcomida dessas, é impossível que a juventude possa se identificar.

     

    Lembro-me que quando eu era um dos líderes do movimento estudantil onde eu estudava, um dos diretores do grêmio me convidou para ingressar no PT. Corria o ano de 2002, estávamos bastante engajados na eleição presidencial, mas preferi não me filiar. Vendo tudo que aconteceu depois, é fácil dizer que eu seria devorado por esta burocracia funesta, e portanto, não ter ingressado foi uma das decisões mais corretas que tomei em toda minha vida.

    Hoje, duvido que convidariam, que fariam este trabalho de base (e olha que as coisas estão mais fáceis, e não mais difíceis). Por exemplo, vejam quantas pessoas ainda defendem, solitárias e abnegadas, buscando canais alternativos de comunicação, os governos do PT nas redes sociais. Por que nenhuma liderança do partido convida essas pessoas a ingressarem no partido, a formarem e serem formadas pelo partido, a aprenderem e a ensinarem com o partido? Alguém realmente acha que é só incompetência? Também há preguiça, é claro, também há a leniência, é claro, também há a burocracia, é claro, mas também é intencional, não tenham dúvida.

     

    Então, o que é a morte para qualquer agremiação de esquerda, os novos movimentos passam a ocorrer fora das estruturas internas do PT.  E nós vemos o MPL, a mídia ninja e até movimentos de direita ascendendo, pois os novos atores surgiram fora de seus limites, cada vez mais restritos. Os militantes não se sentem representados porque de fato as lideranças do partido dos trabalhadores não representam nada, a não ser seus próprios interesses. O partido, convenhamos, vai deixando de ser dos trabalhadores e passando a ser propriedade de sua burocracia interna.

    Dada a incompetência e a vileza em não fazer o seu trabalho de base devido, então o que o PT faz? Tenta cooptar essas lideranças que surgiram na sociedade, sem se dar conta de que, mesmo as incorporando, elas já não são o partido, não representam o partido, porque não cresceram junto com ele, não o formaram e não são formadas por ele. São estruturas exógenas ao PT.

    É o horror.

    E por isso, hoje, podemos olhar para trás e ver que já há alguns anos o PT portava-se como um partido combalido, doente. O tempo passou, e o partido morreu, e quando morreu, ainda poderíamos nos despedir do defunto, quem sabe beijar o finado recém falecido, afinal, ele representara o sonho sincero e abnegado de centenas de milhares de pessoas. Mas seguir com o PT hoje é querer apodrecer junto com o cadáver.

  3. Celso Giovannetti Brambilla

    4 de abril de 2015 2:07 pm

    A história diz outra coisa

    O PT não é de esquerda, tenham isso claro.

    Quando o PT nos anos 90 atingiu uma massa crítica de votos a direção oportunista e de direita expulsou o que havia de esquerda e abandonou a militância e passou a contratar marketeiros e como os partidos tradicionais, aplicou os esquemas criados pelo PSDB e aprofundou as negociatas em troca de apoios políticos e de acordos com a elite e a direita e assim seguimos até os dias de hoje, o PT faz acordo com a direita, que os trai e o PT faz acordo com a esquerda e ele os trai, a barbárie e o atrazo político essa é a maior dívida que herdaremos do PT Como trabalhador entendo que não são bolsas isso bolsas aquilo que me levarão à liberdade da opressão do capital e sim uma luta que até a minha vida poderá custar, mas estarei disposto à luta e não ao afastamento político que nos leva a hoje essa política de, dá com uma colher e tira com uma pá que vivemos, isso é ser enganado, isso é aceitar as migalhas que caem das mesas onde o PT oferece os banquetes aos devoradores de forças produtivas e de capital a qualquer custo sabendo que a conta vai chegar e pegará a classe trabalhadora orfã politicamente para o enfrentamento da realidade e é essa a luta principal que está sendo travada.

  4. Gão

    4 de abril de 2015 5:07 pm

    A direita agradece o congresso mais conservador em 30 anos

       Mas que esquerda competente. Continuem tão vibrantes e com os recuos táticos no momento oportuno.

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