Sugerido por jns
Trechos do artigo “Vinicius, cantor do submundo”, de Roniere Menezes
Na crônica intitulada “A Hora Azul”, publicada no jornal Última hora, de 13 de dezembro de 1952, Vinicius aborda a questão do homem-bicho do poema de Manuel Bandeira.
Inicialmente, escreve sobre a cena que vira em um circo, na Avenida Presidente Vargas, perto da Praça 11.
Em seguida, Vinicius escreve um trecho que nos parece ter sido a base para a futura letra de ‘Pau-de-Arara’.
O dia era lindo, um pouco quente, mas azul, o que o fez lembrar-se de episódio ocorrido quando estava com Plínio Süssekind Rocha no bar Alcazar em Copacabana.
Apareceu ‘um rapazinho de uns dezoito anos e nos perguntou se queríamos vê-lo comer umas giletes, idéia contra a qual relutamos’.
Mas ele explicou:
– ‘Por favor, doutor. Eu mastigo as giletes por qualquer cinco cruzeiros. É que eu ainda não comi nada até agora, sabe doutor…’
O poeta erudito abraça os versos da cultura popular sertaneja.
No texto de ‘Pau-de-Arara’, música de Carlos Lyra e letra de Vinícius de Moraes, o discurso nordestino entra em cena, incluindo o sotaque, a coloquialidade e o ritmo da viola de cantador de feira.
Chegando ao Rio de Janeiro, os migrantes buscam ser ouvidos nas praças, nas rodoviárias e nas praias.
O ‘pau-de-arara’ afirma: ‘a fome era tanta que nem voz eu tinha’.
Expõe-se ao mundo mostrando dissonâncias em relação à suntuosidade da paisagem.
A ausência de voz, detalhe lançado em meio aos versos, sinaliza não apenas para a ausência de visibilidade, mas de uma interlocução real com espaço público.
Em ‘Da hospitalidade’, Jacques Derrida afirma que o estrangeiro, o ser desajeitado ao falar a língua no novo lugar, sempre corre o risco de ficar sem defesa.
A personagem viniciana canta: ‘nem voz eu tinha’.
Para Derrida, o estrangeiro é, principalmente, quem apresenta sua existência de modo ‘estranho à língua do direito’, pois, nessa instância, são formulados os deveres de hospitalidade.
‘Não se oferece hospitalidade ao que chega anônimo e a qualquer um que não tenha nome próprio, nem patronímico, nem família, nem estatuto social, alguém que logo seria tratado não como estrangeiro, mas como mais um bárbaro.’
Roniere Menezes
Doutor em Estudos Literários / UFMG – FALE
Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – Brasil
Zélia Barbosa Canta Pau de Arara
https://www.youtube.com/watch?v=mQIb5nm8PQ0 width:640 height:480 align:center
jns
3 de janeiro de 2014 1:32 amsem pai nem mãe
‘Não se oferece hospitalidade ao que chega anônimo e a qualquer um que não tenha nome próprio, nem patronímico, nem família, nem estatuto social, alguém que logo seria tratado não como estrangeiro, mas como mais um bárbaro’ – Jacques Derrida
Derrida (1930-2004) foi o fundador da “desconstrução”, uma maneira de criticar não só os textos literários e filosóficos, mas também as instituições políticas.
[video:http://youtu.be/JMDG9r6knB0%5D
“Sem um país para se viver, um campo para o plantio, um amor para acariciar ou uma voz para cantar, você está morto” – Smithsonian Folkways
‘Zélia Barbosa, denuncia a situação dos trabalhadores rurais, explorados por latifundiários e forçadas a fugir de suas casas por causa da seca e canta o lamento dos habitantes das favelas que deixam as suas famílias para trabalhar e esperar um aumento que nunca vem.’ – Smithsonian Folkways
“Apoiado por violão e percussão, a música popular de Zélia se tornou um veículo de expressão e de ação para os menos favorecidos e a classe social mais explorada do povo brasileiro dos sertões e das favelas.”
[video:http://youtu.be/zwNaRY6w4cE%5D
O Último Pau de Arara
Cantor e compositor pernambucano, natural do distrito de São Pedro (Garanhuns), Sebastião do Rojão gravou do início da década de 60 até o início da década de 80. Cantou vários ritmos durante a sua carreira, como o bolero, mas ficou marcado mesmo como cantor de forró, tendo registrado a sua voz em vários LPs individuais e em algumas coletâneas.
Rojão gravou músicas próprias e de compositores como Gordurinha, Elino Julião, Juarez Santiago, Walmir Silva, João do Vale, Jackson e Pedro Sertanejo.
Foi contrato das gravadoras Bervely, Cartaz, Premier, Chantecler e Copacabana.
Faleceu no dia 25 de outubro de 2011 em Caruaru.
[video:http://youtu.be/F4vRD6MpOlo%5D