1 de julho de 2026

A voz dos invisíveis, por Carlos Motta

 
A voz dos invisíveis
 
por Carlos Motta
 
E lá se vão 35 anos da morte de um dos mais originais artistas populares do Brasil, o inconfundível Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato na cidade paulista de Valinhos em 6 de agosto de 1910 e falecido em 23 de novembro de 1982 na capital paulista.
 
Muitos, mas muito mesmo, falaram e dissecaram a obra de Adoniran, ressaltando a revolução linguística de suas letras, que incorporaram, como nenhum outro, a maneira de se expressar do povo, essas pessoas comuns, batalhadoras do dia a dia, heróis anônimos da sobrevivência.
Adoniram, porém, fez mais: ao pôr em evidência em suas músicas o sujeito ordinário, esse ser quase invisível que, na verdade, é o grande protagonista histórico desta sofrida nação, ele acabou revelando todas as mazelas, toda a injustiça e desigualdade que amarram o país no atraso, ignorância e subdesenvolvimento.
 
Quantos Jocas, Charutinhos, Mato Grossos, Arnestos, Manés, Iracemas, Nicolas, Geraldas, quantas Malvinas, quantas tristes margaridas, existem ainda neste Brasil, à espera de uma vida menos sofrida, de uma oportunidade para melhorar o salário ou para conseguir um emprego?
E quantas vezes ainda os jornais noticiarão o que Adoniram colocou em seu “Despejo na Favela”, um retrato cru de uma situação que, de certa forma, sintetiza este país?
Canta, Adoniran!
 
Despejo na Favela
Quando o oficial de justiça chegou
Lá na favela
E, contra seu desejo
Entregou pra seu narciso
Um aviso, uma ordem de despejo
— Assinada, seu doutor
Assim dizia a ‘pedição’
“Dentro de dez dias
Quero a favela vazia
E os barracos todos no chão”
— É uma ordem superior
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
É uma ordem superior
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
É uma ordem superior
— Não tem nada não, seu doutor
Não tem nada não
Amanhã mesmo vou deixar meu barracão
Não tem nada não, seu doutor
Vou sair daqui
Pra não ouvir o ronco do trator
— Pra mim não tem ‘probrema’
Em qualquer canto eu me arrumo
De qualquer jeito eu me ajeito
Depois, o que eu tenho é tão pouco
Minha mudança é tão pequena
Que cabe no bolso de trás
…Mas essa gente aí, hein?
Como é que faz?
Mas essa gente aí, hein?
Com’é que faz?
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
Essa gente aí
Como é que faz?
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
Essa gente aí, hein?!
Como é que faz?

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4 Comentários
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  1. Daniel Rech

    24 de novembro de 2017 1:12 pm

    Gênio

    Gigante Adoniran Barbosa

  2. jcordeiro

    24 de novembro de 2017 3:11 pm

    Continuação

    Nassif: não se trata de um Adoniram atualizado. É que a ladroagem e as macutais continuam as mesmas. Os safados foram devidamente sucedidos pelos da mesma laia. Veja a atualidade, o Congresso, o Executivo e a mais nova aquisição — o Judiciário. A Nação está nesse tripé.

    Um viva ao profeta Adoniram.

  3. AMORAIZA

    24 de novembro de 2017 5:22 pm

    Adoniran,

    o Charutinho do Morro do Piolho.

    Programa “Histórias da  Maloca”, com ele, Alzira de Oliveira, Pagano Sobrinho e outros humoristas retratando a vida de quem  fazia  limonada de uma vida azeda.

    A música cantada por ele:

    ” O Charutinho está cansado de chorar

    Chora negão na rampa,

    Chora que eu também já chorei,

    Você comeu, sarsicha com mostarda,

    Aqui Gerarda, Aqui Gerarda”.

  4. AMORAIZA

    24 de novembro de 2017 5:44 pm

    O ruim

    é que o Brasil não muda, o brasileiro não se humaniza e as mazelas quando não se mantém ainda aumentam.

    Em sua época, além da pobreza profunda , o maior mal era o alcool, e as pessoas em situação de desabrigo eram bem mais raras.

    Havia, por força da educação, alguma solidariedade. Hoje temos invasões, guetos, favelas, cortiços e a rua.

    Das causas: a miséria de nascimento,  sem perspectiva de melhora, as  drogas, o desemprego, o êxodo rural, a desagregação familiar, o alcoolismo, entre outras causas,  como consequências de políticas  de total indiferença ao bem estar da população, e um evidente desprezo à solidariedade (exceto no breve período getulista e lulista).

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