5 de junho de 2026

Andrea dos Guimarães e sua música real e imaginária, por Aquiles Rique Reis

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A pianista, arranjadora, compositora  e cantora Andrea dos Guimarães acaba de lançar Desvelo (www.tratore.com.br), seu primeiro disco solo. Confesso a vocês, leitores, que nunca ouvi nada igual.

Então, perguntarão vocês: a moça é a melhor cantora do Brasil? Uma instrumentista melhor do que os grandes pianistas? Suas composições são obras-primas? Não!, é a resposta às três perguntas.

A voz de Andrea dos Guimarães não chega a maravilhar, suas composições não chegam a enlevar, nem seu piano chega a fascinar. Quando digo que nunca ouvi nada igual é pelo resultado final do trabalho desenvolvido por ela ao longo das doze faixas do álbum.

Desvelo tem arranjos que emolduram as músicas de tal forma que nos fazem perceber nelas um diálogo sublime do real com o imaginário. Real é o canto; imaginário, o piano. A beleza está na dissecação de cada música. Despindo-as, pondo-as em pele e osso, elas se agigantam por serem a conjunção do palpável com o  ilusório – ligadura que as faz mais belas em sua ilusória simplicidade.

Por vezes, e é aí que o trabalho de Andrea mais se oferece ao inesperado, a harmonia tocada no piano não tem a relação que dela se espera como acompanhante do canto. É como se tivessem vida própria, estabelecendo que os limites da música se darão nas fantasias que brotam a cada compasso.

Sozinha no estúdio – cada faixa teve piano e voz gravados ao mesmo tempo – a solidão da mulher vale pelo gesto, pelo grito de quem quer se fazer ouvir.

O repertório é eclético. Lá estão duas músicas instrumentais de Andrea – a simbiose de piano e voz.

“Começar de Novo” (Ivan Lins e Vitor Martins): o piano faz a introdução, dedilhando notas soltas… Tem início o processo do visível provocando o fantástico.

 “Lata d’Água” (Luis Antônio e Jota Junior): o piano toca notas em sequência, enquanto a melodia soa livre.

“Rio de Lágrimas” (Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos) tem início com um lindo canto criado por Andrea. O piano faz a sua parte, que é deixar a melodia seguir fluindo leve. Impressionam os agudos afinados e bem encaixados da moça.

“Meus Tempos de Criança” (Ataulfo Alves) traz a participação afetiva de Alcides Nunes, pai de Andrea. Deus do céu, qual pai não se emocionaria ao ouvir o cantar de seu Alcides?

“Seis Horas da Tarde” (Milton Nascimento) vem ligada com “Asa Branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e tem “Borandá” (Edu Lobo) como música incidental, um medley que traduz a concepção de Andrea para tocar e cantar.

Em “Ela Desatinou” (Chico Buarque), a melodia segue um caminho; o piano, outro. Ambos, ao final da jornada, deságuam no futuro.

“História de Pescadores I – Canção da Partida” e “Histórias de Pescadores II – Adeus da Esposa” (Dorival Caymmi): é quando a delicadeza da voz sente o toque do piano e intensifica o propósito do seu cantar.

A música de Andrea dos Guimarães é como uma canção soando dentro de outra… tão profunda, tão à flor da pele, tão simples, tão bela.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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