Chegamos ao limite da água mais funda, canta Macalé. Por Carlos Motta

Neste domingo de carnaval, 3 de março, Jards Macalé vai completar 76 anos de idade. É o mais velho "maldito" da música popular brasileira

Chegamos ao limite da água mais funda, canta Macalé

por Carlos Motta

Neste domingo de carnaval, 3 de março, Jards Macalé vai completar 76 anos de idade. É o mais velho “maldito” da música popular brasileira. E um dos seus mais jovens artistas, a julgar pelo seu mais recente disco, “Besta Fera”, com 12 músicas inéditas.

Fazia anos que Macalé não lançava um disco com obras novas.

Pouco importa, as que compõem “Besta Fera” preenchem com louvor esse intervalo de tempo.

O disco é uma aula de criatividade.  

Tem músicas para todos os gostos, desde a simplicidade de um samba de mesa até as células de um rock pesado, carregado de guitarras distorcidas. Tem ainda citações do mestre Dorival Caymmi, metais de gafieira, baião…

Para produzir “Besta Fera” Macalé se cercou de uma moçada da pesada: Kiko Dinucci e Thomas Harres são os produtores musicais; Rômulo Fróes, o diretor artístico; Rejane Zilles, assina a direção geral. Tim Bernardes, Juçara Marçal e Rômulo Fróes têm participações especiais, e os músicos que participam do disco são Thomas Harres, Guilherme Held, Pedro Dantas, Kiko Dinucci, Ariane Molina, Luê, Thai Halfed, Coro da Nenê da Vila Matilde (Clara, Nenê e Irene), Rodrigo Campos, Thiago França, Amilcar Rodrigues, Filipe Nader e Allan Abbadia.

Há quem veja Macalé como um simples provocador, aquele sujeito que esconde sua mediocridade em atitudes pensadas para chocar a plateia. Pode até ser que ele tenha abusado dessa imagem, mas é inegável que, noves fora, a sua contribuição para a música popular brasileira é enorme. Basta dizer que, ao lado desse lado iconoclasta, foi capaz de ressuscitar a carreira de Moreira da Silva, revistar a obra de Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho, regravar Ismael Silva e vários outros sambistas esquecidos.

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Além disso, sempre esteve antenado com o momento político-social do país.

Em “Gotham City” alertava para os perigos do morcego e do abismo na porta principal – em plena ditadura militar.

Neste Brasil Novo chefiado novamente comandado por oficiais militares de caras e mentes fechadas, tem a coragem de cantar “Trevas”:

Sol rumo ao sono

Sombras sobre o oceano

Cidades cobertas de névoa espessa

Jamais devassada

Por brilho de sol

Chegamos ao limite da água mais funda

Levanto o olhar pro céu

Chegamos ao limite da água mais funda

Levanto o olhar pro céu

Trevas, trevas

Treva a mais negra sobre homens tristes

Trevas, trevas

Treva a mais negra sobre homens tristes

Me calo

É uma pena que Jards Macalé seja único – ele bem que poderia ser dezenas, centenas, milhares…

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