25 de junho de 2026

Naturalmente sambista, por Aquiles Rique Reis

Em 2013, Zeca Baleiro decidiu gravar alguns sambas autorais, acompanhado de um quinteto de grandes instrumentistas do gênero

Naturalmente sambista

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por Aquiles Rique Reis

Sempre tive Zeca Baleiro em alta conta. Ouvia suas músicas bem estruturadas, que não se prendem a convenções ou estilos pré-concebidos. Admirava suas letras, libertas do senso comum. Mas eis que neste momento, quando 2024 tateia à espera do Carnaval, Zeca nos vem com um disco temático… onze sambas! A curiosidade me fez pensar: só sambas…? Como assim? 

            Bem, vamos lá: em 2013, Zeca decidiu gravar alguns sambas autorais, acompanhado de um quinteto de grandes instrumentistas do gênero regido pelo produtor e parceiro Swami Jr. Trabalho que só agora vem a público. 

            Antes de ouvi-lo, tamanha era a vontade de achar uma pista que me guiasse ao que o levou a essa opção, fui ao release. Lá estava O Samba Não é de Ninguém (Saravá Discos, com distribuição da ONErpm). 

            Mas pensei: o que teria levado Baleiro, um compositor sempre disposto a se reinventar, a dar um cavalo-de-pau em sua carreira? Mas quer saber? Minha dúvida não procede. Ele não precisa dar explicações sobre para onde irá sua obra. Decide e vai!

            É… mas não rolou simples assim, não. E é o próprio Zeca que nos fala sobre sua hesitação: “O samba pra mim sempre foi um lugar meio que sagrado, intocável, perigoso… Os sambas que gravei foram sempre em tom paródico, quase como uma alusão brejeira à brasilidade, quase um samba ‘fugindo do samba’. (…) Aqui não, aqui o samba é levado muito a sério, respeitando a tradição lírica e melódica do gênero (…)”. A dúvida que me assolara dissipou-se.

            Para reverenciar o samba, Zeca criou uns bem raiz e outros mais bossa – oito só seus e três em parceria com Eliakin Rufino, Salgado Maranhão e Swami Jr. Alguns são em tom menor, marca registrada de sambas clássicos (ao final deste texto estão três links para audição).

            Com som mixado por Alexandre Fontanetti e masterizado por Carlos Freitas, os instrumentistas dão no couro com vontade. São eles: Zé Barbeiro (violão 7 cordas), Gian Correa (violão), Swami Jr. (violão e violão de 7 cordas), Henrique Araújo (cavaquinho e bandolim), Douglas Alonso (percussão e bateria), Vitor da Candelária (percussão), mais o coro formado por Alemão do Cavaco, Ana Duartti, Lissandra Oliveira, Marcello Furtado e Tatiana Parra. E tem alguns convidados: Rubinho Antunes (flugelhorn), Allan Abbadia (trombone), Alexandre Ribeiro (clarinete e clarone), Tiago Costa (piano) e Teco Cardoso (flauta em sol).

            Zeca Baleiro canta com a naturalidade de um veterano sambista de carteirinha. Assim, fazendo jus a ganhar destaque num meio que ele próprio considera “sagrado, intocável, perigoso”, ajunta-se a bambas de hoje e de sempre.

Aquiles Rique Reis

Nossos protetores nunca desistem de nós.

PS. A capa do disco, que terá versão em vinil, é do saudoso Elifas Andreato. Falecido em 2023, esta é uma de suas últimas capas.

“Santa Luzia” (ZB):

“Casa no Céu” (ZB e Eliakin Rufino):

“Amorosa” (ZB):

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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