O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente: a minha história é talvez igual à de Belchior, por Josely Teixeira Carlos

No dia em que Belchior faria 74 anos, professora evoca trechos do cancioneiro do rapaz latino-americano, ao rememorar sua trajetória de pesquisa

Foto Revista Movimento

O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente: a minha história é talvez igual à de Belchior

por Josely Teixeira Carlos

 “Eu vou pra São Paulo e Rio (Eldorados de além-mar), a estrada é uma estrela pra quem vai andar”. Talvez tenham sido exatamente esses versos da canção “Monólogo das grandezas do Brasil”, de Belchior, que me fizeram querer seguir essa viagem. A mesma que o sobralense fez no final da década de 60. E, assim, depois de 26 anos morando no Ceará, “sem ter medo da saudade”, como cristalizou “Mucuripe”, parti de Fortaleza para São Paulo para um doutorado na USP, justamente para estudar a obra do compositor das canções que me inspiraram por tanto tempo no ímpeto de migrar.

O início desse percurso em 2007 coincidiu com o momento em que Belchior decidia iniciar o seu exílio final. Por isso, o começo de meu roteiro de saída de Fortaleza inaugurou também na minha vida de pesquisadora uma busca pelo autor da frase “Vida, vento, vela leva-me daqui”.

Em Sampa, “eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei”. Encontrei Belchior (que escreveu “Fotografia 3×4” e “Passeio”) pelas ruas, “por entre os carros do São Paulo” violento, na Consolação, nos parques “em plena quarta-feira” e no domingo, na eletricidade e no cimento dos prédios, mas também no pensamento, no coração e sentimento dos cidadãos comuns, nordestinos do Brasil inteiro que não param na Paulista, a maior avenida do Nordesre.

Lá em São Paulo, enquanto me debruçava, na tese, nas profundezas do cancioneiro de Belchior, decidi procurá-lo no Rio, que corre e engana. E Belchior estava lá: “na Zona Norte, nos cabarés da Lapa”. Vi ainda Belchior “dentro do carro, sobre o trevo, a cem por hora”, no escritório e no 8º andar de um apartamento. E no Corcovado, de braços abertos, ouvi o autor de “Paralelas” cantar: “Copacabana, esta semana o mar sou eu”.

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Depois de São Paulo, fui morar na capital francesa, para continuar as pesquisas sobre a obra de Belchior na Sorbonne. E confesso que, além de tudo o que a cidade-luz representa, os versos de “Tudo outra vez” tiveram lugar especial dentro da mala.

Naquelas “ilhas cheias de distância”, enquanto “minha fala nordestina” misturava-se ao francês, deparei Belchior (o artista plástico que ilustrava seus álbuns, como vemos em Autorretrato, de 1993) nos quadros do Louvre, no sarcasmo e no bigode do anarquista Georges Brassens, na ousadia de Gainsbourg e principalmente no “amor/humor das praças cheias de pessoas” e na dor dos migrantes do mundo todo que têm certeza de que têm “coisas novas pra viver”.

Longe do Trópico, encontrei Belchior ao ouvir de perto a voz fanhosa de Dylan (o Belchior americano) e ao ver no palco o entusiamo de McCartney, ídolos que influenciaram grande parte da obra do cearense.

Nosso sinhô! que vontade… meu deus! ai! que légua… eh! mundão… me larguei nessa viagem por ser a rodagem pro seu coração

“Rodagem”

Voltando ao Brasil, morando em Porto Alegre, tive notícias de que Belchior era meu vizinho. E claro que concordei com o que “Newton já sabia: o que pesa no Norte, pela Lei da Gravidade, cai no Sul”. No Pampa, vi Belchior nos nordestinos vendedores de rede que encontramos pelas ruas e nos cearenses estudantes das universidades, que aqui vêm, normalmente depois de tirar os primeiros lugares no Vestibular (como eles, Belchior também ficou em primeiro lugar no Vestibular de Medicina na UFC). Com bastante frequência, encontrei Belchior no IAPI, maior e mais antigo condomínio do continente e bairro da capital gaúcha em que morou Elis Regina – uma das grandes responsáveis por apresentar Belchior ao público de canção no Brasil, quando interpretou “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”, em 1976 – em sua infância, e onde fui passear ontem, como de costume, no final da tarde. Ao passar defronte da casa 21, de Elis, lembrei-me que na segunda, 26 de outubro, Belchior faria 74 anos.

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Já depois de sua morte, em 2017, fui procurar Belchior em Santa Cruz do Sul. Na sua última morada, encontrei Belchior – que desde o início, no sertão nordestino, já era um gauche – em sua versão gaúcho. Ele, apreciador de charutos, escolheu passar os seus últimos anos na cidade considerada a “capital mundial do fumo”. Ele, que tinha o “coração selvagem” e “pressa de viver”, foi morar na pequena e bela cidade que possui um dos autódromos internacionais do Brasil.

Por ser sobretudo uma moça latino-americana, feita “de sonho e de sangue e de América do Sul”, “pensei até em passar a fronteira” e achei que tinha de procurar Belchior no Uruguai, pequeno país que ele visitou tantas vezes e onde viveu no autoexílio.

Foi adentrando a terra dos charrúas que encontrei o conteúdo das canções de Belchior nas “veias abertas da América Latina”, das quais fala Eduardo Galeano. Como o autor uruguaio, Belchior desejou, no campo musical, “tentar o canto exato e novo (que a vida que nos deram nos ensina) pra ser cantado pelo povo na América Latina”, segundo o compositor eternizou nas palavras de “Voz da América”.

De Montevidéu, atravessei o Rio da Prata para Buenos Aires. Lá os versos de “A palo seco” acompanharam a comemoração de meu aniversário: “Tenho 37 anos, por força deste destino, o tango argentino me vai bem melhor que o blues”, adaptei. Na capital Argentina, encontrei Belchior nas muitas livrarias da cidade, no carisma de Gardel e Mercedes Sosa e no talento singular e ousado de Charly García.

Ao passar pelas cidades do interior da região pampeana, senti-me, de novo, no sertão do Nordeste. E quando li uma placa nos confins argentinos que anunciava “Ceará Viajes”, assenti: “Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver”.

Se “como uma metrópole”, o nosso coração não pode parar (como resume verso de “Monólogo das grandezas do Brasil”), viajar ao encontro de Belchior, ou melhor, viajar à procura do que diz o artista em suas canções, é uma viagem em que encontramos a nós mesmos, em corpo, mente e em alma: jovens de todas as idades e lugares, “desnorteados”, “desapontados” e “apaixonados”, que, “mesmo vivendo assim”, não nos esquecemos de amar e somos como Belchior!

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* A professora e comunicadora Josely Teixeira Carlos tem pesquisas acadêmicas na área de Letras e Música e vem estudando música brasileira desde 1999. Concluiu mestrado e doutorado sobre a obra de Belchior. Já ministrou palestras, cursos e conferências sobre música popular no Brasil, França e Uruguai. É jornalista e radialista. Pesquisadora da USP, é pós-doutora pela Paris X e doutora pela USP/Paris-Sorbonne.

Josely Teixeira Carlos – pós-doutora em Análise do Discurso e Música pela Paris X e doutora em Letras pela USP/Sorbonne; pesquisadora da USP, com teses de mestrado e doutorado sobre Belchior

Pesquisas da autora:

CARLOS, Josely Teixeira. Muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior. 2007. 278 p. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2007. Acesso em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/8767

CARLOS, Josely Teixeira. Fosse um Chico, um Gil, um Caetano: uma análise retórico-discursiva das relações polêmicas na construção da identidade do cancionista Belchior. 686 p. Tese (Doutorado em Letras) – Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Acesso em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-07102014-121114/pt-br.php

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