Yamandu Costa, como o jovem gaúcho se tornou a maior referência musical brasileira

A maneira como se relaciona com a cultura brasileira, como respeita e assimila as diversas manifestações musicais, seu respeito pelos mestres, o seu nativismo inclusivo vai se tornando referência

Por este dias, mergulhei nos vídeos que Yamandu mantém no seu canal do Youtube. Dois domingos atrás entrevistei-o para o Domingueira GGN, ele escondendo-se do Covid-19 em um sobrado em uma vila tranquila na  França, dos sogros, pais da violonista Elody Bounie, violonista clássica, com quem se casou há alguns anos.

Elody era a peça que faltava para transformar Yamandu no mais completo músico brasileiro, a maior referência da cultura musical brasileira da atualidade, alcançando um prestígio internacional para o violão brasileiro, que apenas Baden Powell obteve antes dele.

Acompanhei o crescimento de Yamandu desde sua primeira apresentação em São Paulo, logo após a morte de Rafael Rabello. No palco do Tom Brasil, um menino encarando de igual para igual Armandinho, na época o maior virtuose instrumental do país.

Depois, mudou-se para São Paulo e participou de um sarau em casa nos primeiros meses na metrópole. Já esbanjava uma segurança e uma personalidade presentes apenas nos grandes.

O grande músico depende do seu talento. Mas é o caráter que transforma grandes músicos em referencias culturais, em lideranças solares, capazes de iluminar todos os que o rodeiam. Era assim com Rafael Rabello. É assim com Yamandu.

De bombacha, quieto, ouviu pacientemente o pessoal da Contemporânea, uma roda de choro que se reunia aos sábados no centro de São Paulo e que convidei para o almoço. E sorriu discretamente quando o violão chegou até ele e o Negão Almeida tirou de suas mãos e passou para o violonista seguinte, cético em relação aos dotes do gaúcho de bombacha.

Quando começou a tocar calou a todos e deixou boquiaberto o Luiz Carlos Bresser Pereira, um dos convidados para assistir, em primeira mão, o gênio gaúcho mal saído das bombachas. Anos depois, Bresser mandaria um WhatsApp de Paris, rsaindo de um concerto com o Yamandu.

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– Era aquele menino de bombacha que estava em sua casa?

– Ele próprio.

– Terminou o show aplaudido de pé pelo público.

Yamandu viveu seus momentos de liberdade em São Paulo, passou pelos bares da noite, tinha uma sede imensa de conhecer o novo. Naqueles primeiros tempo, a vida se tornou uma correria incessante, pelos bares e pelas cordas do violão. Certa noite, chegou em casa às 2 da manhã, quando o sarau já havia terminado, ao lado de Armandinho, do Phellipe, filho de Baden Powell e do meu futuro parceiro Jorge Simas.

Quando fez duo com Armandinho, disparou a correr. E Armandinho olhando com olhos paternais, sabendo que era um potro de raça experimentando os músculos.

Depois foi para o Rio de Janeiro, onde se impôs rapidamente, apesar da uma tentativa besta de tentar minimizá-lo em relação a Rafael.

Yamandu descobriu o violão e o choro com os LPs de Rafael. Em pouco tempo assumiu a liderança musical da cena carioca não apenas devido ao seu talento, mas a uma personalidade agregadora, generosa – tal qual Rafael.

Mas ainda não havia atingido o amadurecimento. Como o jovem Rafael, e o jovem Baden, muitas vezes se perdia em correrias desabaladas. Mas, nas interpretações mais lentas, deixava antever o grande solista que já era.

Rapidamente foi assimilando as lições dos mestres, especialmente de Dominguinhos, com quem gravou um CD histórico. Dominguinho lhe ensinou a se conter, a “não fazer piruetas”.

A relação com Elody completou o amadurecimento. Dali em diante, explodiu o virtuose do violão, capaz de interpretações inesquecíveis de concertos e, ao mesmo tempo, com uma capacidade única de improviso, uma criatividade no desenho dos improvisos como nunca vi em nenhum outro violonista. Chegou a um nível que Rafael poderia ter chegado, não tivesse morrido tão cedo.

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É capaz de juntar desenhos do violão argentino, do gaúcho, do choro, os contracantos barrocos, com uma criatividade única. E compor concertos dentro da mais completa linha nacionalista brasileira. Na plataforma, transformou suas viagens pela América Latina em vídeos com os grandes violonistas de cada país, assimilando cada estilo na hora, como se fizesse parte de seu repertório desde o nascimento.

Não apenas isso. A maneira como se relaciona com a cultura brasileira, como respeita e assimila as diversas manifestações musicais, seu respeito pelos mestres, especialmente o seu mestre maior, Lucio Yanel, o seu nativismo inclusivo vai se tornando referência cada vez maior da cultura brasileira.

O show “Encontro de Gerações na Música Instrumental Brasileira”, de 27 de março de 2020, é a síntese ampliada do gigante Yamandu, passando por Villa Lobos, Barrios, pelo choro, pelo chamamé, reunindo alguns dos maiores músicos brasileiros. Vai se tornar um show referencial, uma síntese de um país que Bolsonaro nenhum vai destruir.

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5 comentários

  1. E quando juntam-se três jovens magnificamente talentosos, fazem até o veterano e tarimbado Dominguinhos se derramar em lágrimas. É o que acontece na gravação da websérie DOMINGUINHOS+ em seu 6º episódio e Hamilton de Holanda, a cantora caboverdiana Mayra Andrade (que um desavisado pode achar que é uma brasileira nata, lá do sertão) e Yamandu Costa interpretam o Lamento Sertanejo (de Dominguinhos e Gilberto Gil). É tão lindo que dá para chorar desde o início.

    Dominguinhos + Hamilton de Holanda + Mayra Andrade + Yamandu Costa [Lamento Sertanejo]
    https://www.youtube.com/watch?v=LV09kQlGxHU

  2. Yamandu foi apresentado ao público,em Porto Alegre, num show do Baden Powell, no saudoso Teatro Leopoldina,tinha em torno de quinze anos!!!Tive a felicidade de levar meus filhos,crianças,para assitir este show.O Grande e o Futuro!!!

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