21 de junho de 2026

A biblioteca de Octavio Tarquínio e Lucia Miguel Pereira

Octavio e Lucia

De O Globo – Prosa e Verso – 10/04/2011

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Um inestimável patrimônio intelectual

Miguel Conde escreve sobre a valiosa coleção da biblioteca de Octavio Tarquínio e Lucia Miguel Pereira que foi doada à Procuradoria Geral do Estado do Rio, onde será aberta à consulta pública. Na sequência, os perfis de Octavio e Lucia escritos por Isabel Lustosa e Antonio Candido.

A seção dedicada ao Brasil é a maior do conjunto, e também a de importância mais evidente, reunindo desde uma coleção completa dos “Anais do Senado do Império” até edições integrais de séries que marcaram época, como a Coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional; e a Documentos Brasileiros, da José Olympio.

Um terço dos 8.300 volumes, estima o engenheiro e artista plástico Gabriel Fonseca, neto de Octavio e Lucia , é de primeiras edições com dedicatórias escritas pelos autores, das saudações concisas como um “com muita simpatia e admiração” de Vinicius de Moraes às mais extensas, como um poema em 12 versos de Carlos Drummond de Andrade num exemplar de “Claro enigma”. 

O acervo já pode ser consultado no site www.octavioelucia.com.

 

 

A biblioteca de Octavio Tarquínio e Lucia Miguel Pereira

Até onde se sabe e é legítimo supor, também aos casamentos de intelectuais aplica-se a regra que estabelece a união das escovas de dentes como um corolário da vida conjugal. Mais do que a prosaica coabitação na pia, no entanto, o encontro de bibliotecas talvez seja a imagem que sintetiza de fato com propriedade o matrimônio de quem, afinal, passa a vida em meio aos livros. É mesmo como um símbolo da convivência entre seus avós, o historiador Octavio Tarquínio de Sousa e a crítica literária Lucia Miguel Pereira, que o engenheiro e artista plástico Gabriel Fonseca fala dos 8.300 livros aboletados há décadas nas estantes de um apartamento da família em Laranjeiras.

— Eles passavam os dias juntos aqui: lendo, escrevendo, trabalhando — lembra.

A importância do acervo, porém, ultrapassa em muito a recordação familiar. Octavio e Lucia foram dois dos principais intelectuais brasileiros do século passado (leia abaixo os perfis escritos por Isabel Lustosa e Antonio Candido), e a biblioteca era para ambos o mais indispensável dos instrumentos de trabalho. Ali estão as fontes usadas na criação de estudos pioneiros e até hoje influentes como “Machado de Assis”, de Lucia, ou os dez volumes da “História dos fundadores do Império do Brasil”, de Octavio. 

Depois que os dois morreram num acidente de avião, em 1959, Gabriel tomou para si a tarefa de evitar que a biblioteca, como acontece com tantas, se dispersasse. Recusou ofertas de sebos, colecionadores e universidades estrangeiras, contratou ajudantes para fazer um inventário, e agora resolveu enfim doar a valiosa coleção à Procuradoria Geral do Estado, onde ela será aberta à consulta pública. A seção dedicada ao Brasil é a maior do conjunto, e também a de importância mais evidente, reunindo desde uma coleção completa dos “Anais do Senado do Império” até edições integrais de séries que marcaram época, como a Coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional; e a Documentos Brasileiros, da José Olympio.

Aos livros que usavam em suas pesquisas, Lucia e Octavio somavam os que recebiam dos amigos — gente como João Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Antonio Candido. Um terço dos 8.300 volumes, estima Gabriel, é de primeiras edições com dedicatórias escritas pelos autores, das saudações concisas como um “com muita simpatia e admiração” de Vinicius de Moraes às mais extensas, como um poema em 12 versos de Carlos Drummond de Andrade num exemplar de “Claro enigma”. 

Num sentido em aparência mais restrito, mas talvez igualmente relevante, a biblioteca é um grande registro dos hábitos de leitura e das matrizes intelectuais de uma certa intelligentsia brasileira das primeiras décadas do século XX, para a qual Guizot era um historiador mais importante do que Braudel, a teoria da arte era pensada entre os pólos opostos de Taine e Croce, e Nietzsche tinha que ser lido em francês.

Na abertura da biblioteca, ainda sem data marcada, será lançado um livro da editora Contracapa sobre o acervo, que já pode ser consultado no site www.octavioelucia.com.

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Lucia Miguel Pereira por Antonio Candido:

Breve nota sobre Lucia

 

Lucia Miguel Pereira deve ter sido a primeira mulher a realizar no Brasil uma obra crítica equivalente à dos melhores praticantes locais do gênero. A nossa crítica literária, que sempre foi e continua sendo boa, passava então por uma fase brilhante, na qual continuava a ter como alvo o público instruído em geral e ainda não se havia transformado em especialidade universitária. Lucia publicou naquela altura alguns livros importantes que, somados aos que produziu no domínio da ficção (quatro romances e quatro narrativas para a infância), integram uma produção de relevo.

Uma das suas características pessoais era a grande integridade, em todos os sentidos. No campo do trabalho intelectual este traço se manifestou pela severa exigência no preparo de textos que se tornaram marcos renovadores, como os livros “Machado de Assis” (1936) e “A vida de Gonçalves Dias” (1943), elaborados com solidez e rigor metodológico numa quadra em que estavam na moda, aqui e fora daqui, as biografias romanceadas. Alguns anos depois deu outra prova de valor igual, senão maior, num estudo de período: “Prosa de ficção — de 1870 a 1920” (1950).

Este livro deveria ter sido o 12 de uma “História da literatura brasileira” em 15 volumes, cada qual a cargo de um autor diferente, ideada, planejada e coordenada por Álvaro Lins; mas acabou sendo um dos dois únicos publicados, porque os outros não foram escritos. Lembro esse projeto para ressaltar que Lúcia não apenas demonstrou então o seu rigor nos compromissos, mas foi a única mulher convidada para participar de uma equipe na qual estavam, entre outros, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Alceu Amoroso Lima, além do organizador. Isso mostra qual era o juízo dos entendidos a seu respeito e a posição singular que ocupava na crítica literária, num tempo em que esta parecia privilégio masculino e as escritoras se realizavam sobretudo na ficção e na poesia.

Os três livros que mencionei foram o maciço central da sua crítica, mas é preciso não esquecer que manifestou as mesmas qualidades nos numerosos artigos publicados em jornais e revistas, escritos com sóbria clareza e revelando, além do discernimento, uma informação alerta que lhe permitiu, por exemplo, mencionar quem sabe pela primeira vez entre nós a obra então desconhecida aqui de Franz Kafka. A sua morte precoce aos 58 anos ocorreu quando estava preparando um livro de cunho histórico sobre a condição da mulher no Brasil.

ANTONIO CANDIDO é crítico literário e professor emérito da USP, autor de “O albatroz e o chinês” (Ouro Sobre Azul), entre outros

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Octavio Tarquínio de Sousa por Isabel Lustosa:

Historiador que se fez nos livros

 

Foi minha tese de doutorado (“Insultos Impressos”), defendida em 1997 no Iuperj (atual Iesp/Uerj), que me aproximou da obra de Octavio Tarquínio de Sousa. Desde então volto a ele sempre que preciso aprofundar o conhecimento sobre algum episódio ou personagem da História do Brasil da primeira metade do século XIX. Período que, graças a nomes como Tarquínio, tem sua história profundamente investigada. Ele pertence a um momento da vida intelectual brasileira em que a profissão de historiador não existia como tal. Ou melhor, o curso de História não figurava entre as opções universitárias. Ser historiador era uma vocação que se manifestava em algum momento de uma carreira intelectual, geralmente (mas não necessariamente) entre pessoas que saíam da Faculdade de Direito e por variados caminhos começavam a realizar investigações de caráter historiográfico. Assim foi que a História encontrou espaço na vida de Octavio Tarquínio tal como na de Tobias Monteiro, Hélio Viana, Pedro Calmon e Américo Jacobina Lacombe. Historiadores que se fizeram ao produzir suas obras, formando-se na leitura de Capistrano de Abreu e tomando como roteiro seus métodos de trabalho. A busca incansável pelo documento, o cotejo das fontes, a adoção de uma perspectiva analítica e o esforço de compreensão do contexto político e de suas implicações dão as características de seus estudos. Membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro contribuíram com seus trabalhos para o estabelecimento das matrizes que orientaram, desde então, os estudos sobre o processo histórico brasileiro.

Na vasta obra de Octavio Tarquínio de Sousa esse método alcança a melhor forma. Ao conjunto de biografias dos fundadores do Império se junta algumas obras esparsas mas que a elas estão diretamente relacionadas. Quem conhece seu trabalho percebe os liames que se entrecruzam entre elas e a forma como uma pesquisa leva a outra e a complementa. Pois como estudar Evaristo da Veiga sem produzir também um estudo sobre seu grande adversário, Bernardo Pereira de Vasconcelos? Como entender o papel de José Bonifácio na biografia de D. Pedro I sem estudar-lhe também a biografia?

Em sua obra, a análise faz parte da narrativa e se distribui de forma aleatória e, talvez, por isso não se valorize tanto como seria merecido a impressionante qualidade de sua interpretação. O historiador de hoje deve dialogar com a obra de Octavio Tarquínio de Sousa pois nela se encontram tanto o integral respeito ao documento quanto a maior seriedade em sua interpretação.

ISABEL LUSTOSA é historiadora e cientista política, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa e sócia do IHGB

 

Lucia Miguel Pereira e Octavio Tarquínio de Souza

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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