
A chantagem da Standard para impor a reforma previdenciária
por J. Carlos de Assis
Suponha que você crie fantasmas e em seguida contrate exorcistas para acabarem com eles. Esta é mais ou menos a situação de países que pagam agências de risco para os avaliarem. Trata-se de uma das coisas mais estúpidas que podem acontecer nas relações financeiras internacionais porque as agências de risco, desde que o FMI e o Banco Mundial perderam parte de seu poder de pressão política, não são propriamente avaliadoras de crédito, mas sim avaliadoras de políticas econômicas dos países.
É uma intromissão direta desses agentes privados – principalmente Standard&Poors, Moody´s e Fitch – na vida interna dos países. Uma violação consentida de soberania. Pessoas de boa fé podem acreditar que se trata realmente de avaliação técnica de crédito mas o propósito profundo é alinhar os diferentes países, e em especial aqueles em desenvolvimento, ao famigerado Consenso de Washington e às políticas neoliberais no plano fiscal-monetário e em outras dimensões macroeconômicas, como s plena liberdade dos fluxos de capitais.
Se há dúvida sobre isso, basta examinar a cobertura que a Globo deu ontem à notícia de rebaixamento da nota da Standard&Poors para o Brasil. Foram três longas interseções intercaladas ao longo do noticiário. Nenhum outro assunto mereceu algo sequer parecido. E a pergunta que se faz é: Por quê essa cobertura exaustiva? A quê se deve isso se a televisão é um instrumento de comunicação de massa, e há poucas razões para acreditar que a esmagadora maioria dos telespectadores da Globo nem sabe o que é agência de risco?
Sabem a razão da extensa cobertura? A Globo está pouco se lixando para risco-país, mas se mostra interessadíssima na reforma da Previdência, de interesse reconhecido para o grande capital financeiro interno e mundial. Ela então cria um fantasma, o escândalo em torno do rebaixamento da nota, e em seguida apresenta o exorcista: A reforma previdenciária. Aí tudo encaixa, porque é também o discurso de Michel Temer e Henrique Meirelles. Sem reforma da Previdência, dizem eles, o rebaixamento da agência nos levará ao fim do mundo.
Para um governo mergulhado na mentira e na hipocrisia, e com sabidas relações com a canalha financeira externa, não seria difícil conseguir com a agência de risco dar uma marretada na nota para supostamente melhorar seu perfil de crédito. Se fizesse isso perderia a oportunidade exigir do Congresso a reforma da Previdência. No cardápio vai junto a queda de inflação – obviamente um fenômeno de demanda, devido ao alto desemprego e queda de salários -, que também se apresenta como motivo para a reforma previdenciária.
Um governo futuro, comprometido com a soberania nacional e a defesa dos interesses populares, saberá escapar da armadilha das agências de risco ocidentais. Bastaria consolidar suas relações com o sistema financeiro asiático, aprofundando as conexões com o Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS, e outros grandes bancos chineses. A China tem uma agência de classificação de risco, Dagong, bem ancorada em informações técnicas. Tenho certeza de que recomendaria crédito ao Brasil sem se meter na política econômica interna.
CarlosEduardo
12 de janeiro de 2018 11:31 amPara. Você realmente acha que
Para. Você realmente acha que o governo brasileiro pagou para S&P rebaixar a nota do Brasil para a reforma da previdência ser aprovada?
Antônio Uchoa Neto
12 de janeiro de 2018 3:15 pmE você, amigão? Acha que a
E você, amigão? Acha que a previdência é deficitária? Que essa reforma é para combater privilégios?
Andre Araujo
12 de janeiro de 2018 4:37 pmPor uma questão FINANCEIRA e
Por uma questão FINANCEIRA e de JUSTIÇA SOCIAL é inadmissivel um funcionario publico se aposentar com 51 anos com 33 mil Reais por mês, isso no Brasil, nos EUA, na Alemanha ou no Japão, isso NÃO EXISTE EM PAIS ALGUM DO PLANETA,
E há coisa pior ainda, aposentar com 49 anos ganhando acima do tato pelo resto da vida, tem logica?
é obvio, é claro que é um privilegio de alguns a custa de todos e a reforma visa acabar com isso de maneira muito suave.
A reforma não é ruim porque é do governo Temer, qualquer governo que vier não sobrevive com esse gasto, é simples assim.
Para os aposentados da economia privada, que JÁ se aposentam com mais de 60 anos. praticamente não haverá mudanças.
Antônio Uchoa Neto
12 de janeiro de 2018 5:22 pmE a minha primeira pergunta,
E a minha primeira pergunta, André? É uma pergunta “nada a ver?”
Rodrigo Roal
12 de janeiro de 2018 3:18 pmMeirelles
Voce deveria sanar essa duvida junto ao Meirelles, sempre flanando por Wall Street onde encontra seus muitos amigos.
Andre Araujo
12 de janeiro de 2018 3:57 pmIsso não existe. O pagamento
Isso não existe. O pagamento é pelo serviço de analisar bonus e risco, não se compra a nota que se quer, uma agencia que fizer isso acaba em duas semanas, as notas são o produto de analises de 60 ou 70 paginas de dados, não é chute, o que não significa que não possa errar, como qualquer relatorio médico, de engenharia, de clima mas o que elas vendem é reputação,
se queimar a reputação o mercado saberá em tres minutos, isso não dá para esconder.
Cristina Garcia
13 de janeiro de 2018 10:27 am“Analises” especialmente emcomendadas pra tocar terror
Essas agencias são podres, é obvio que manipulam dados para agradar que compra suas “análises”. CREDIBILIDADE ZERO! Da mesma forma que não acredito em nada que esse governo divulga! A NOSSA PREVIDENCIA NÃO É DEFICITÁRIA, ISSO É IMPOSSÍVEL. A AMPLA BASE DE CUSTEIO NAO PERMITE!
Governo Temer = desgoverno terrorista!
Cristina Garcia
13 de janeiro de 2018 10:29 am“Analises” especialmente emcomendadas pra tocar terror
Essas agencias são podres, é obvio que manipulam dados para agradar que compra suas “análises”. CREDIBILIDADE ZERO! Da mesma forma que não acredito em nada que esse governo divulga! A NOSSA PREVIDENCIA NÃO É DEFICITÁRIA, ISSO É IMPOSSÍVEL. A AMPLA BASE DE CUSTEIO NAO PERMITE!
Governo Temer = desgoverno terrorista!
Andre Araujo
12 de janeiro de 2018 11:56 am“Uma violação consentida da
“Uma violação consentida da soberania”. NADA A VER. Agencias de rating são prestadoras de serviços e cobram para dar notas. E o Governo do Brasil quem pede para que a ahencia de notas e paga a fatura para esse serviço. É como pedir um laudo para um perito, pagando seus honorarios, pede quem quer, não é obrigado. Mas esse RATING não tem tanta importancia
porque o mercado não dá muita importancia hoje em dia como dava no passado e isso tem pouca influencia na atração de investimentos. O Brasil cresceu à media de 7% ao ano entre 1950 e 1980, a maior taxa de crescimento do planeta, com notas baixissimas, moratorias, crises cambiais. A China criou sua propria agencia de rating, a DANG, muito reputada, que mais ou menos segue as agencias anglo-americanas, nada disso hoje tem a ver com soberania, é um serviço comercial.
Só gente mediocre e caipira como as que formam certos circulos de economistas brasileiros dão importancia a essas agencias.
Os grandes fundos de investimento do mundo como o BlackRock, com 7 trilhões de dolares de ativos, o Vanguard, com 3 trilhões de dolares, o PIMCO tambem com 3 trilhões de dolares e há mais 18 fundos americanos com mais de 1 trilhão de dolares cada um. tem seus proprios departamentos de pesquisa e não dão importancia a notas de rating.
A prova dessa desimportancia é que a cotação do dolar hoje não acusou nenhum impacto , após a nota da S & P.
Marcelo33
12 de janeiro de 2018 12:41 pmCaipiras predominantemente da
Caipiras predominantemente da Zona Sul do Rio de Janeiro. Não estou te criticando André Araújo, mas estou criticando esse tipo de círculo…
Miguel Manolo
12 de janeiro de 2018 2:57 pmInocente demais.
Meu caro,
Sou de direita e estou acompanhando esse Governo corrupto. Você acha que existe rombo num dos órgãos do Governo que mais arrecada nesse país?
Será que o Senhor não sabe que as Reformas vieram para beneficiar EMPRESÁRIOS e BARQUEIROS? Porque Porque mídia apoiou? Depois de aprovadas quantos funcionários de empresas privadas, incluindo os da Band, Sbt, Record, Globo, dentre outras, acabaram sendo demitidos? Me refiro demissão em massa.
Com a Reforma da Previdência, quem se aposentaria com esse texto inconstitucional?
Marcos K
12 de janeiro de 2018 4:09 pmGostei do “gente medíocre e
Gostei do “gente medíocre e caipira”. Assino embaixo.
Esses economistas ao qual você se refere são imbecis completos.
Paulo Dantas
12 de janeiro de 2018 12:19 pmEstas Agências de risco …
Estas Agências de risco batiam palmas para o bancos que geraram a crise , seria como o Dunga criticando o Tite …
Não sabia que a gente pagava estes caras , para mim eles davam palpite por conta e risco.
Sou inocente mesmo…
Charles Cuimbra
12 de janeiro de 2018 3:43 pmAhhhh não sei se tu tá
Ahhhh não sei se tu tá ironizando… mas, enfim, para entender o que são essas agências de classificação de risco, assistam ao ótimo The Big Short (A Grande Aposta), de 2015.
Alirio Biga
12 de janeiro de 2018 12:30 pmSuplicy o mais do mesmo
Votei no Suplicy várias vezes. Hoje, fiquei sabendo que o PT irá indicá-lo novamente para o senado no lugar de Haddad. Lamentável. Tanta gente nova ai querendo injetar sangue novo na casa, tentando uma chance para quebrar o corporativismo exacerbado que há no senado e lá vem Suplicuy de novo depois de passar vários mandatos como senador. Será que o PT não se emenda? Suplicy não passa de um “amigão” e todos os senadores. Nunca o vi encarar de frente um Renan Calheiros, um Antonio Carlos Magalhães, um Romero Jucá. Sempre polido, concordando com tudo, uma verdadeira mãe. Tudo que não precisamos no momento.
ze sergio
12 de janeiro de 2018 12:41 pma…
Lembra daquele filme que a menina esquece tudo do dia anterior? NÃO !!! Já esqueceu?! (brincadeira). É O Brasil !!! No dia de hoje voltamos a decobrir a RODA !!! Existe algum país do Mundo que ainda dá ouvidos à estes farsantes de Agências de Risco? Não bastou mandarem investir em Enrom falida, tendo tirado seus investimentos semanas antes da derrocada? Não bastou o ‘Pai’ da Pirâmide Financeira na cadeia? Não bastou a Bolha Financeira? A farsa do Consenso de Washingtons? Em manter sua Economia atrelada ao dólar, ao invés de usar soberanamente sua moeda e economia? Somos Lunáticos?!!! Alguém ainda acredita na cara de Mirian Leitão jurando ser a nova barreira a ser transposta para o Milagre Econômico? Mas o tal problema não era a Dilma há 1 ano e meio atrás? Descobrimos que era tudo mentira !! Que não tinham soluções nenhuma !! E ainda fazem crermos em Farsantes !! Acorda Brasil !!!
Antonio C.
12 de janeiro de 2018 1:16 pmA credibilidade do “chantagista”…
… da S&P me lembra de como foi responsável pela crise global, pelas suas análises pra lá de mequetrefes (mas bem remuneradas, claro) dos idos de 2008.
Só papéis de alta qualidade… qualificadas assim pela S&P… ahahahha. Eram lixo.
Eles chegaram a pagar aquela multa de US$1,37 bilhão por suas análises maravilhosas?
ze sergio
12 de janeiro de 2018 2:33 pma….
Antonio C: Perfeito !!!! Somos Lunáticos !!! Ainda estamos dando ouvidos á farsantes e fazendo o jogo deles?!!
Miguel Manolo
12 de janeiro de 2018 2:47 pmO Governo está agindo de má-fé!
O site publicou o que pensei quando assisti o Jornal da Globo e mostrou essa notícia.
Somos um país rico, tanto que, o Governo fala da crise mais contínua gastando, ou seja, não é contraditório?
Estão querendo beneficiar EMPRESÁRIOS e BARQUEIROS, inclusive, esse Ministro Meirelles era ligado a JBS.
Estamos cercados de corruptos e, por mim, nenhum político presta.
Limpeza na política seria a primeira opção e as modificações nas leis para retirar o foro privilegiado e benefícios.
Quer ser político? Então será por “AMOR AO BRASIL”!
João Mezzomo
12 de janeiro de 2018 3:06 pmTese
Isso é uma tese. Eu prefiro acreditar que a agencia sinaliza ao investidor o grau de perigo em invetir em determinado paés, esse é o seu negócio. Se um pais emergente cuja moeda não é reserva de valor trabalha com déficit fiscal sem que se consiga ver uma solução num futuro previsível, até as pedras sabem que pode haver oproblemas para os seuscredores adiante. Agora, como o país vai resolver é outra históra. A reforma da previdencia é um caminho, mas resolveria muito pouco. Deeve-se aimentar as receitas ou reduzir as despesas ou as duas coisas. Eu como sou de esquerda acho que deveriamos aumentar a arrecadação cobrando mais impostos do “andar de cima” e parando de falar tanto em corrupção, pois isso liberara a não pagar impostos. A S&P não tem nada a ver com isso, se cobrarmos dos ricos e não criarmos deficit ela vai dizer que o risco caiu. Mas julgar o mundo dividido em bem e mal é bem mais fácil do que pensar nessa coisa chata de impostos e orçamentos públicos. Vamos malhar o Judas então!!!!
Cristiane N. Vieira
12 de janeiro de 2018 7:21 pmEnquanto isso… Contracorrente (‘outras margens’)
Da CARTA MAIOR
33 teses para uma reforma da disciplina da economia
As teses resumem uma detalhada crítica da corrente principal e desafiam o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia
Por Rethinking Economics – New Weather Institute
05/01/2018 20:43
Iniciativa do Rethinking Economics – New Weather Institute
Estas 33 teses elaboradas por estudantes, economistas e acadêmicos reunidos pelo Rethinking Economics – New Weather Institute, respaldadas por importantes economistas e dirigentes políticos, como a parlamentária britânica Caroline Lucas, resumem uma detalhada crítica da corrente principal da disciplina da economia.
Economistas de renome como Mariana Mazzucato, Kate Raworth, Steve Keen, assim como Sally Svenlen, estudante ligada ao Rethinking Economics, formaram parte de um ato presidido por Larry Elliott, chefe da seção de Economia do diário britânico The Guardian, no qual debateram as 33 teses, junto com uma petição de reformas.
O ato aconteceu no dia 12 de dezembro de 2017, na University College de Londres e no final os participantes, público e estudantes, se encaminharam às portas da London School of Economics, onde deixaram fixadas suas teses e exigiram essa reforma.
Caroline Lucas, deputada e dirigente do Partido Verde do Reino Unido, disse que “o Rethinking Economics tem razão ao afirmar que uma melhor disciplina econômica não só é possível como é essencial para os dias de hoje. Durante um longo tempo, a corrente principal da política rendeu culto ao altar da economia neoliberal, como se fosse a única maneira de fazer as coisas. Essa visão míope está claramente equivocada e é magnífico que o Rethinking Economics esteja ampliando o debate e tentando incluir ideias inovadoras”.
Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge: “a economia neoclássica desempenha o mesmo papel que a teologia católica na Europa medieval: um sistema de pensamento que argumenta que as coisas são o que são porque têm que ser assim. Os jovens economistas do Rethinking Economics estão desafiando o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia. Se trata de uma intervenção extremamente importante e oportuna numa conjuntura que pode ser a última ocasião de salvar de a corrente principal da economia dos seus próprios equívocos, e também de salvar o mundo dessa corrente principal”.
Steve Keen, autor do livro Debunking Economics, (“A economia desmascarada”, de 2015): “a economia necessita uma revolução copernicana, e por isso defendemos essa reforma”.
Victoria Chick, professora emérita de Economia no University College de Londres: “na economia de hoje há um grupo de pessoas que se apresentam como sacerdotes, que tentam servir como mediadores no caminho à verdade. A reforma da economia nestas 33 teses que apresentamos estimula os estudantes a lerem as escrituras em toda a sua extensa variedade, para que tomem suas próprias conclusões. Saberão assim o Papa (nem o da religião nem o da economia) não é infalível e que devem buscar a verdade no confronto de ideias”.
Sir David King diz que “a oportunidade e a necessidade de repensar os modelos econômicos se vê estimulada por uma série de manifestos recentes. As grandes ameaças da crise climática e da destruição ecológica, a crise financeira da dívida de 2007/8, o aumento do abismo que separa os mais ricos e os mais pobres em nossas sociedades. O controle dos meios de comunicação por parte de um reduzido número de indivíduos extremamente ricos. Nesse contexto, o documento das 33 teses és um estímulo para a ação e é muito bem-vindo”.
Os estudantes do Rethinking Economics desenvolveram seus estudos nos últimos cinco anos, enquanto protestaram, marcharam para publicar seu manifesto para a reforma do programa acadêmico, buscando apoios, e a elaboração do seu próprio livro de textos, The Econocracy (“A econocracia”), um livro sobre a história e os argumentos do movimento.
33 TESES PARA UMA REFORMA DA DISCIPLINA DA ECONOMIA
O MUNDO ENFRENTA A POBREZA, A DESIGUALDADE, A CRISE ECOLÓGICA E A INSTABILIDADE FINANCEIRA
Nos preocupa que a economia esteja fazendo muito menos do que poderia para proporcionar intuições que ajudem a resolver estes problemas. Isso acontece por três razões:
A primeira é que no seio da economia se desenvolveu um insano monopólio intelectual. A perspectiva neoclássica domina o ensino de modo arrebatador, a investigação, a assessoria política e o debate público. Muitas outras perspectivas que poderiam proporcionar intuições valiosas foram marginalizadas. Isso não tem a ver com que uma teoria seja melhor que outra e sim com a noção de que o progresso científico só avança através do debate. Nesse sentido, no seio da economia, este debate se desvaneceu.
Segunda razão: a economia neoclássica, apesar de seus méritos históricos que ainda se mostram úteis, abre enormes possibilidades de melhoras e correções, debate e aprendizagem de outras disciplinas e perspectivas.
Terceira razão, a corrente principal da economia parece incapaz de se autocorrigir, se desenvolvendo mais como fé que como ciência. Com excessiva frequência, quando as teorias e a evidência chegam a entrar em conflito, são as teorias que costumam se manter, enquanto se descartam as evidências e as consequências.
Propomos estas teses como desafio ao insano monopólio intelectual da corrente principal da economia. Elas são exemplos das falhas nas teorias da corrente principal, das intuições que deveriam oferecer as perspectivas alternativas e uma visão mais pluralista, capaz de ajuda a economia a se tornar mais eficaz e democrática. A afirmação de que é possível uma economia melhor e um convite ao debate.
FINALIDADE DA ECONOMIA
1. A finalidade da economia deve ser decidida pelo conjunto da sociedade. Nenhuma meta econômica pode se separar da política. Os indicadores de eficiência representam eleições políticas.
2. A equitativa distribuição da riqueza e da renta são fundamentais para a realidade econômica e assim deveriam sê-lo na teoria econômica.
3. A economia não está isenta de valores e os economistas deveriam se mostrar transparentes a respeito dos julgamentos que fazem. Isto se aplica especialmente a aos que podem não ser visíveis para o olhar de alguém que não seja um especialista.
4. A política não nivela o campo de jogo, mas o inclina em uma direção. Carecemos de uma discussão explícita sobre que gênero de economia queremos e como alcançá-la.
O MUNDO NATURAL
5. A natureza da economia é que se trata de um subconjunto da natureza, e das sociedades na qual surge. Não existe como entidade independente. As instituições sociais e os sistemas ecológicos são, portanto, centrais e não externos ao seu funcionamento.
6. A economia não pode sobreviver ou prosperar sem insumos do mundo natural. Ou sem os muitos sistemas de suporte vital que proporcionados pela natureza. Depende de um fluxo contínuo de energia e material e atua no seio de uma biosfera de delicado equilíbrio. Uma teoria económica que trate o mundo natural como algo externo ao seu modelo não pode compreender plenamente de que modo a degradação do mundo natural pode danificar suas próprias perspectivas.
7. A economia deve reconhecer que a disponibilidade da energia e dos recursos não renováveis não é infinita, e que o uso destas reservas para obter energia altera os equilíbrios do planeta, ocasionando consequências tais como os transtornos climáticos.
8. Não se pode ignorar a retroalimentação entre a economia e a ecologia. Ignorá-lo é o que nos tem levado a uma economia global que opera já fora dos níveis de viabilidade ecológica. Embora a economia precise buscar um maior crescimento, ela pode sim estar ancorada em princípios objetivos que respeitem a ecologia do planeta.
INSTITUIÇÕES E MERCADOS
9. Todos os mercados estão criados e configurados pelas leis, costumes e culturas, e são influenciados pelo que fazes e não fazem os governos.
10. Os mercados são resultado das interações entre diferentes tipos de organismos públicos e privados (além dos setores do voluntariado e da sociedade civil). É preciso dedicar mais estudos ao modo como se organizam essas entidades e a maneira como funcionam ou poderiam funcionar as inter relações entre elas.
11. Os mercados são também mais complexos e menos previsíveis do o estabelecido pela simples relação entre oferta e procura. A economia necessita uma compreensão mais profunda de como se comportam os mercados, e poderia aprender da ciência de sistemas complexos, tal como se emprega na física, na biologia e na informática.
12. As instituições dão forma aos mercados e influem no comportamento dos agentes econômicos. A economia deve considerar as instituições como parte central do seu modelo.
13. Visto que diferentes economias possuem diferentes instituições, uma política que funciona bem numa economia pode funcionar mal em outra. Por esta razão, entre muitos outras, é improvável que seja positivo propor um conjunto universalmente aplicável de medidas políticas e econômicas que se baseie unicamente na teoria econômica abstrata.
TRABALHO E CAPITAL
14. É possível demonstrar que salários, benefícios e retornos sobre ativos dependem de um amplo leque de fatores, entre eles o poder relativo dos trabalhadores, empresas e proprietários de ativos, e não simplesmente em seu aporte relativo à produção. A economia necessita uma compreensão mais ampla destes fatores com o fim de informar melhor sobre aquelas escolhas que afetam a porção da renda recebida pelos distintos grupos da sociedade.
NATUREZA DAS DECISÕES
15. Erros, interesses, reconhecimento de padrões, aprendizagem, interação social e contexto são influências importantes sobre o comportamento que não são reconhecidas pela teoria econômica. A corrente principal necessita uma compreensão mais ampla do comportamento humano e pode aprender da sociologia, psicologia, filosofia e outras escolas de pensamento.
16. As pessoas não são perfeitas e não é possível tomar decisões econômicas perfeitamente racionais. Toda decisão econômica que tenha algo a ver com o futuro implica em algum grau de incerteza não quantificável e requer, portanto, de uma análise. A corrente principal da teoria econômica e a prática devem reconhecer o papel das incertezas nessa equação.
DESIGUALDADE
17. Numa economia de mercado, as pessoas que dispõem das mesmas capacidades, preferências e dotes não tendem a acabar com o mesmo nível de riqueza, sujeita somente a uma variação aleatória. Os efeitos de pequenas diferenças na sorte ou nas circunstâncias podem levar consigo resultados enormemente diferentes para gente semelhante.
18. Os mercados mostram, com frequência, uma tendência a elevar a desigualdade. Por sua vez, as sociedades desiguais se desempenham de pior forma em toda uma série de indicadores de bem-estar social. A corrente principal da teoria econômica poderia fazer muito mais para compreender de que modo e por que isso acontece, e de que forma pode ser evitado.
19. A proposição segundo a qual se um país se torna mais rico a desigualdade nele também tende a aumentar inevitavelmente é falsa, como já foi demonstrado em diversos casos. Qualquer combinação de crescimento do PIB e desigualdade é possível.
CRESCIMENTO DO PIB, INOVAÇÃO E DÍVIDA
20. O crescimento é uma opção política, e também econômica. Se escolhemos o crescimento como meta, devemos nos perguntar: crescimento de quê, por quê, para quem, durante quanto tempo e o quanto é suficiente? As respostas devem ser dadas de modo explícito ou implícito.
21. A inovação não é um fator a ser desconectado da economia, é parte inerente da atividade econômica. Nossa compreensão do crescimento do PIB pode melhorar se contemplamos a inovação como algo que sucede num ecossistema em desequilíbrio e constante evolução, configurado pelo desenho dos mercados e pelas interações entre todos os agentes em seu seio.
22. A inovação tem, ao mesmo tempo, um ritmo e um rumo. O debate sobre o rumo da inovação requer compreender a finalidade do desenho das políticas.
23. A dívida privada também influi profundamente no ritmo em que cresce a economia, e no entanto é excluída da teoria econômica. A criação de dívida se soma à demanda financiada pelo crédito, e afeta tanto os mercados de bens como o de ativos. As finanças e a economia não podem se separar.
DINHEIRO, BANCOS E CRISES
24. A maioria do dinheiro que circula na economia foi criado pelos bancos comerciais, cada vez que realizam novos empréstimos.
25. A forma com a que se cria dinheiro afeta distribuição da riqueza no seio da sociedade. Por conseguinte, o método de criação de dinheiro deveria ser entendido como uma questão política, não simplesmente técnica.
26. Visto que os bancos criam dinheiro e dívida, são agentes importantes da economia. E portanto devem ser incluídos nos modelos macroeconômicos. Os modelos econômicos que não incluem os bancos não poderão predizer as crises bancárias.
27. A economia necessita uma compreensão melhor de como se geram internamente a instabilidade e as crises no seio dos mercados, em lugar de tratá-las como choques vindos de fora que afetam os mercados.
28. A financeirização tem duas dimensões: as finanças curto-prazistas e especulativas, e a economia real financeirizada. Os dois problemas devem ser estudados conjuntamente.
ENSINO DA ECONOMIA
29. Uma boa formação em economia deve oferecer uma pluralidade de visões teóricas aos seus estudantes. Isso deveria incluir não só a história e filosofia do pensamento econômico, mas também um amplo leque de perspectivas atuais, tais como as instituições, a escola austríaca, a linha marxista, a linha pós-keynesianas, o pensamento feminista, a ecologia e outras complexidades.
30. A economia não deveria ser um monopólio. Os cursos interdisciplinares são cruciais para compreender as realidades econômicas das crise financeira, a pobreza e o caos climático. A política, a sociologia, a psicologia e as ciências ambientais devem ser integradas, portanto, num programa acadêmico, e não ser tratadas como adições inferiores à teoria econômica existente.
31. Não se deveria ensinar economia como um estudo neutro em valores de modelos e indivíduos. Os economistas têm que estar versados em ética e política, além de serem capazes de se envolver de modo significativo com a opinião pública.
32. Se concentrar ortodoxamente na estatística e nos modelos quantitativos pode acabar cegando os economistas diante de outras formas de pensar. É preciso apoiar os estudantes e ensiná-los a explorar outras formas e visões metodológicas, entre elas a investigação qualitativa, a entrevista, o trabalho de campo e a argumentação teórica.
33. Finalmente, e principalmente, a economia deve estimular o pensamento crítico e não premiar simplesmente a memorização de teorias e a aplicação prática de modelos. Fazer com que os estudantes sejam encorajados a comparar, contrastar e combinar teorias, e a aplicá-las criticamente a estudos aprofundados do mundo real.
Publicadas em Londres, no dia 12 de dezembro, no aniversário de 500 anos da Reforma, e colada nas portas da London School of Economics.
Rethinking Economics – New Weather Institute é um movimento de reforma do ensino da teoria económica que se iniciou em 1992 na Universidade de Sydney, com uma carta de nove vencedores do Prêmios Nobel de Economia e da American Economic Review. Na atualidade, este movimento de reforma universitária de inspiração pós-keynesiana se estende por numerosas universidades do Reino Unido, França, Itália, Estados Unidos, Israel, Brasil e China.”
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/33-teses-para-uma-reforma-da-disciplina-da-economia/7/39079
Detalhe curioso: o economista Ha-Joon Chang, citado nesta reportagem, deu entrevista para o Grupo Estado – nome irônico para dizer o mínimo – , e respondeu com clareza e objetividade às tendenciosas perguntas da agência de divulgação das teses golpistas. (http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,pais-deveria-manter-o-controle-da-embraer,70002143521).
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/33-teses-para-uma-reforma-da-disciplina-da-economia/7/39079
Da CARTA MAIOR
” 33 teses para uma reforma da disciplina da economia
As teses resumem uma detalhada crítica da corrente principal e desafiam o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia
Por Rethinking Economics – New Weather Institute
05/01/2018 20:43
Iniciativa do Rethinking Economics – New Weather Institute
Estas 33 teses elaboradas por estudantes, economistas e acadêmicos reunidos pelo Rethinking Economics – New Weather Institute, respaldadas por importantes economistas e dirigentes políticos, como a parlamentária britânica Caroline Lucas, resumem uma detalhada crítica da corrente principal da disciplina da economia.
Economistas de renome como Mariana Mazzucato, Kate Raworth, Steve Keen, assim como Sally Svenlen, estudante ligada ao Rethinking Economics, formaram parte de um ato presidido por Larry Elliott, chefe da seção de Economia do diário britânico The Guardian, no qual debateram as 33 teses, junto com uma petição de reformas.
O ato aconteceu no dia 12 de dezembro de 2017, na University College de Londres e no final os participantes, público e estudantes, se encaminharam às portas da London School of Economics, onde deixaram fixadas suas teses e exigiram essa reforma.
Caroline Lucas, deputada e dirigente do Partido Verde do Reino Unido, disse que “o Rethinking Economics tem razão ao afirmar que uma melhor disciplina econômica não só é possível como é essencial para os dias de hoje. Durante um longo tempo, a corrente principal da política rendeu culto ao altar da economia neoliberal, como se fosse a única maneira de fazer as coisas. Essa visão míope está claramente equivocada e é magnífico que o Rethinking Economics esteja ampliando o debate e tentando incluir ideias inovadoras”.
Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge: “a economia neoclássica desempenha o mesmo papel que a teologia católica na Europa medieval: um sistema de pensamento que argumenta que as coisas são o que são porque têm que ser assim. Os jovens economistas do Rethinking Economics estão desafiando o monopólio intelectual, apelando a uma visão mais pluralista e interdisciplinar da economia. Se trata de uma intervenção extremamente importante e oportuna numa conjuntura que pode ser a última ocasião de salvar de a corrente principal da economia dos seus próprios equívocos, e também de salvar o mundo dessa corrente principal”.
Steve Keen, autor do livro Debunking Economics, (“A economia desmascarada”, de 2015): “a economia necessita uma revolução copernicana, e por isso defendemos essa reforma”.
Victoria Chick, professora emérita de Economia no University College de Londres: “na economia de hoje há um grupo de pessoas que se apresentam como sacerdotes, que tentam servir como mediadores no caminho à verdade. A reforma da economia nestas 33 teses que apresentamos estimula os estudantes a lerem as escrituras em toda a sua extensa variedade, para que tomem suas próprias conclusões. Saberão assim o Papa (nem o da religião nem o da economia) não é infalível e que devem buscar a verdade no confronto de ideias”.
Sir David King diz que “a oportunidade e a necessidade de repensar os modelos econômicos se vê estimulada por uma série de manifestos recentes. As grandes ameaças da crise climática e da destruição ecológica, a crise financeira da dívida de 2007/8, o aumento do abismo que separa os mais ricos e os mais pobres em nossas sociedades. O controle dos meios de comunicação por parte de um reduzido número de indivíduos extremamente ricos. Nesse contexto, o documento das 33 teses és um estímulo para a ação e é muito bem-vindo”.
Os estudantes do Rethinking Economics desenvolveram seus estudos nos últimos cinco anos, enquanto protestaram, marcharam para publicar seu manifesto para a reforma do programa acadêmico, buscando apoios, e a elaboração do seu próprio livro de textos, The Econocracy (“A econocracia”), um livro sobre a história e os argumentos do movimento.
33 TESES PARA UMA REFORMA DA DISCIPLINA DA ECONOMIA
O MUNDO ENFRENTA A POBREZA, A DESIGUALDADE, A CRISE ECOLÓGICA E A INSTABILIDADE FINANCEIRA
Nos preocupa que a economia esteja fazendo muito menos do que poderia para proporcionar intuições que ajudem a resolver estes problemas. Isso acontece por três razões:
A primeira é que no seio da economia se desenvolveu um insano monopólio intelectual. A perspectiva neoclássica domina o ensino de modo arrebatador, a investigação, a assessoria política e o debate público. Muitas outras perspectivas que poderiam proporcionar intuições valiosas foram marginalizadas. Isso não tem a ver com que uma teoria seja melhor que outra e sim com a noção de que o progresso científico só avança através do debate. Nesse sentido, no seio da economia, este debate se desvaneceu.
Segunda razão: a economia neoclássica, apesar de seus méritos históricos que ainda se mostram úteis, abre enormes possibilidades de melhoras e correções, debate e aprendizagem de outras disciplinas e perspectivas.
Terceira razão, a corrente principal da economia parece incapaz de se autocorrigir, se desenvolvendo mais como fé que como ciência. Com excessiva frequência, quando as teorias e a evidência chegam a entrar em conflito, são as teorias que costumam se manter, enquanto se descartam as evidências e as consequências.
Propomos estas teses como desafio ao insano monopólio intelectual da corrente principal da economia. Elas são exemplos das falhas nas teorias da corrente principal, das intuições que deveriam oferecer as perspectivas alternativas e uma visão mais pluralista, capaz de ajuda a economia a se tornar mais eficaz e democrática. A afirmação de que é possível uma economia melhor e um convite ao debate.
FINALIDADE DA ECONOMIA
1. A finalidade da economia deve ser decidida pelo conjunto da sociedade. Nenhuma meta econômica pode se separar da política. Os indicadores de eficiência representam eleições políticas.
2. A equitativa distribuição da riqueza e da renta são fundamentais para a realidade econômica e assim deveriam sê-lo na teoria econômica.
3. A economia não está isenta de valores e os economistas deveriam se mostrar transparentes a respeito dos julgamentos que fazem. Isto se aplica especialmente a aos que podem não ser visíveis para o olhar de alguém que não seja um especialista.
4. A política não nivela o campo de jogo, mas o inclina em uma direção. Carecemos de uma discussão explícita sobre que gênero de economia queremos e como alcançá-la.
O MUNDO NATURAL
5. A natureza da economia é que se trata de um subconjunto da natureza, e das sociedades na qual surge. Não existe como entidade independente. As instituições sociais e os sistemas ecológicos são, portanto, centrais e não externos ao seu funcionamento.
6. A economia não pode sobreviver ou prosperar sem insumos do mundo natural. Ou sem os muitos sistemas de suporte vital que proporcionados pela natureza. Depende de um fluxo contínuo de energia e material e atua no seio de uma biosfera de delicado equilíbrio. Uma teoria económica que trate o mundo natural como algo externo ao seu modelo não pode compreender plenamente de que modo a degradação do mundo natural pode danificar suas próprias perspectivas.
7. A economia deve reconhecer que a disponibilidade da energia e dos recursos não renováveis não é infinita, e que o uso destas reservas para obter energia altera os equilíbrios do planeta, ocasionando consequências tais como os transtornos climáticos.
8. Não se pode ignorar a retroalimentação entre a economia e a ecologia. Ignorá-lo é o que nos tem levado a uma economia global que opera já fora dos níveis de viabilidade ecológica. Embora a economia precise buscar um maior crescimento, ela pode sim estar ancorada em princípios objetivos que respeitem a ecologia do planeta.
INSTITUIÇÕES E MERCADOS
9. Todos os mercados estão criados e configurados pelas leis, costumes e culturas, e são influenciados pelo que fazes e não fazem os governos.
10. Os mercados são resultado das interações entre diferentes tipos de organismos públicos e privados (além dos setores do voluntariado e da sociedade civil). É preciso dedicar mais estudos ao modo como se organizam essas entidades e a maneira como funcionam ou poderiam funcionar as inter relações entre elas.
11. Os mercados são também mais complexos e menos previsíveis do o estabelecido pela simples relação entre oferta e procura. A economia necessita uma compreensão mais profunda de como se comportam os mercados, e poderia aprender da ciência de sistemas complexos, tal como se emprega na física, na biologia e na informática.
12. As instituições dão forma aos mercados e influem no comportamento dos agentes econômicos. A economia deve considerar as instituições como parte central do seu modelo.
13. Visto que diferentes economias possuem diferentes instituições, uma política que funciona bem numa economia pode funcionar mal em outra. Por esta razão, entre muitos outras, é improvável que seja positivo propor um conjunto universalmente aplicável de medidas políticas e econômicas que se baseie unicamente na teoria econômica abstrata.
TRABALHO E CAPITAL
14. É possível demonstrar que salários, benefícios e retornos sobre ativos dependem de um amplo leque de fatores, entre eles o poder relativo dos trabalhadores, empresas e proprietários de ativos, e não simplesmente em seu aporte relativo à produção. A economia necessita uma compreensão mais ampla destes fatores com o fim de informar melhor sobre aquelas escolhas que afetam a porção da renda recebida pelos distintos grupos da sociedade.
NATUREZA DAS DECISÕES
15. Erros, interesses, reconhecimento de padrões, aprendizagem, interação social e contexto são influências importantes sobre o comportamento que não são reconhecidas pela teoria econômica. A corrente principal necessita uma compreensão mais ampla do comportamento humano e pode aprender da sociologia, psicologia, filosofia e outras escolas de pensamento.
16. As pessoas não são perfeitas e não é possível tomar decisões econômicas perfeitamente racionais. Toda decisão econômica que tenha algo a ver com o futuro implica em algum grau de incerteza não quantificável e requer, portanto, de uma análise. A corrente principal da teoria econômica e a prática devem reconhecer o papel das incertezas nessa equação.
DESIGUALDADE
17. Numa economia de mercado, as pessoas que dispõem das mesmas capacidades, preferências e dotes não tendem a acabar com o mesmo nível de riqueza, sujeita somente a uma variação aleatória. Os efeitos de pequenas diferenças na sorte ou nas circunstâncias podem levar consigo resultados enormemente diferentes para gente semelhante.
18. Os mercados mostram, com frequência, uma tendência a elevar a desigualdade. Por sua vez, as sociedades desiguais se desempenham de pior forma em toda uma série de indicadores de bem-estar social. A corrente principal da teoria econômica poderia fazer muito mais para compreender de que modo e por que isso acontece, e de que forma pode ser evitado.
19. A proposição segundo a qual se um país se torna mais rico a desigualdade nele também tende a aumentar inevitavelmente é falsa, como já foi demonstrado em diversos casos. Qualquer combinação de crescimento do PIB e desigualdade é possível.
CRESCIMENTO DO PIB, INOVAÇÃO E DÍVIDA
20. O crescimento é uma opção política, e também econômica. Se escolhemos o crescimento como meta, devemos nos perguntar: crescimento de quê, por quê, para quem, durante quanto tempo e o quanto é suficiente? As respostas devem ser dadas de modo explícito ou implícito.
21. A inovação não é um fator a ser desconectado da economia, é parte inerente da atividade econômica. Nossa compreensão do crescimento do PIB pode melhorar se contemplamos a inovação como algo que sucede num ecossistema em desequilíbrio e constante evolução, configurado pelo desenho dos mercados e pelas interações entre todos os agentes em seu seio.
22. A inovação tem, ao mesmo tempo, um ritmo e um rumo. O debate sobre o rumo da inovação requer compreender a finalidade do desenho das políticas.
23. A dívida privada também influi profundamente no ritmo em que cresce a economia, e no entanto é excluída da teoria econômica. A criação de dívida se soma à demanda financiada pelo crédito, e afeta tanto os mercados de bens como o de ativos. As finanças e a economia não podem se separar.
DINHEIRO, BANCOS E CRISES
24. A maioria do dinheiro que circula na economia foi criado pelos bancos comerciais, cada vez que realizam novos empréstimos.
25. A forma com a que se cria dinheiro afeta distribuição da riqueza no seio da sociedade. Por conseguinte, o método de criação de dinheiro deveria ser entendido como uma questão política, não simplesmente técnica.
26. Visto que os bancos criam dinheiro e dívida, são agentes importantes da economia. E portanto devem ser incluídos nos modelos macroeconômicos. Os modelos econômicos que não incluem os bancos não poderão predizer as crises bancárias.
27. A economia necessita uma compreensão melhor de como se geram internamente a instabilidade e as crises no seio dos mercados, em lugar de tratá-las como choques vindos de fora que afetam os mercados.
28. A financeirização tem duas dimensões: as finanças curto-prazistas e especulativas, e a economia real financeirizada. Os dois problemas devem ser estudados conjuntamente.
ENSINO DA ECONOMIA
29. Uma boa formação em economia deve oferecer uma pluralidade de visões teóricas aos seus estudantes. Isso deveria incluir não só a história e filosofia do pensamento econômico, mas também um amplo leque de perspectivas atuais, tais como as instituições, a escola austríaca, a linha marxista, a linha pós-keynesianas, o pensamento feminista, a ecologia e outras complexidades.
30. A economia não deveria ser um monopólio. Os cursos interdisciplinares são cruciais para compreender as realidades econômicas das crise financeira, a pobreza e o caos climático. A política, a sociologia, a psicologia e as ciências ambientais devem ser integradas, portanto, num programa acadêmico, e não ser tratadas como adições inferiores à teoria econômica existente.
31. Não se deveria ensinar economia como um estudo neutro em valores de modelos e indivíduos. Os economistas têm que estar versados em ética e política, além de serem capazes de se envolver de modo significativo com a opinião pública.
32. Se concentrar ortodoxamente na estatística e nos modelos quantitativos pode acabar cegando os economistas diante de outras formas de pensar. É preciso apoiar os estudantes e ensiná-los a explorar outras formas e visões metodológicas, entre elas a investigação qualitativa, a entrevista, o trabalho de campo e a argumentação teórica.
33. Finalmente, e principalmente, a economia deve estimular o pensamento crítico e não premiar simplesmente a memorização de teorias e a aplicação prática de modelos. Fazer com que os estudantes sejam encorajados a comparar, contrastar e combinar teorias, e a aplicá-las criticamente a estudos aprofundados do mundo real.
Publicadas em Londres, no dia 12 de dezembro, no aniversário de 500 anos da Reforma, e colada nas portas da London School of Economics.
Rethinking Economics – New Weather Institute é um movimento de reforma do ensino da teoria económica que se iniciou em 1992 na Universidade de Sydney, com uma carta de nove vencedores do Prêmios Nobel de Economia e da American Economic Review. Na atualidade, este movimento de reforma universitária de inspiração pós-keynesiana se estende por numerosas universidades do Reino Unido, França, Itália, Estados Unidos, Israel, Brasil e China.”
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/33-teses-para-uma-reforma-da-disciplina-da-economia/7/39079
Detalhe curioso: o economista Ha-Joon Chang, citado nesta reportagem, deu entrevista para o Grupo Estado – nome irônico para dizer o mínimo – , e respondeu com clareza e objetividade às tendenciosas perguntas da agência de divulgação das teses golpistas. (http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,pais-deveria-manter-o-controle-da-embraer,70002143521).
[video:https://www.youtube.com/watch?v=YpUvJ3phNJA%5D
SP, 12/01/2018 – 17:20 (envio original às 14:14)
Cristina Garcia
13 de janeiro de 2018 10:42 amNão à reforma da previdência!
A credibilidade dessa agências??? ZERO. Igualzinho a credibilidade do governo que propõe essa reforma, que quer estragar uma das coisas que melhor funciona no país, a previdência. Querem acabar com os benefícios para se fartarem com os enormes recursos da base de custeio! Governo Temer = desgoverno destruidor e terrorista.
Jairo Archila
13 de janeiro de 2018 10:55 amPontuação agência
Na minha opinião de povo, a pontuação dada deveria entrar por um lado e sair do outro, i que há de bom aqui, e se algum progresso há, é porque o povo acorda as 4 e dorme a meia noite a minha cansar, o País não está na lama total, não por mérito de Ladrões corruptos do Governo atual é anterior, e sim porque o povo arregaçada a manga. Pontuação baixa(?) Pq não houve reformas(?) Como a inflação foi baixa só para aumentos de aposentadoria e salários, vai comprar com 100 o que comprava a um ano atrás (dizer inflação foi baixa?…..estamos a deriva com esses mandantes do mundo(!)