Troco de escudeiro amanhã. Quando não é a armadura que tomou chuva e tolhe-me os movimentos em razão da oxidação nas juntas é a espada que, sem fio, recusa-se a penetrar no corpo inimigo. Meu escudo não foi desamassado. A lança ficou adormecida no último acampamento antes de chegarmos ao local do torneio? O pajem que desapareceu na turba? E eu aqui, preparado para o combate, mas sem poder dar armadura ao cavalo.
Olho em volta e, desesperado, tenho uma idéia. Ainda que com alguma dificuldade, posso elevar-me sozinho à montaria. Amarro uma corda na cintura, jogo-a por cima do galho de um imenso carvalho nas proximidades da arena e dou vela ao vento, que sou homem forte o bastante para suportar o peso da vida e da tralha de guerra. De viseira baixa entro na barraca e reviro as coisas. Nada. Corda, minha vitória por uma corda!
Sem corda, tento novamente encontrar o escudeiro relapso. Seu rosto aparece na multidão. Porém, antes de alcançá-lo minhas palavras são engolidas pelo som do choque de dois cavaleiros no centro da arena. Um deles vai ao solo. O outro faz meia-volta, larga a lança e galopa em direção ao oponente, que se levanta com dificuldade e logo vai novamente ao chão a vigorosos golpes de maça. Empinando o cavalo, o campeão aguarda o inimigo levantar-se. Diante de sua inércia, há dez passos de distância, apeia do cavalo, desembainha a espada e aproxima-se cautelosamente da vitória. O oponente vira-se tentando surpreendê-lo, mas é repelido. Segue-se breve escaramuça. Exausto e alquebrado, o guerreiro não se dá por vencido. Valoriza a vitória de Sir Vincent. Ao fim de alguns minutos seu corpo vai ao solo desprovido da cabeça.
As trombetas soam. É a minha vez de dar vida aos princípios que professo, mas confesso estar intimidado. Agora a questão já não é mais subir no cavalo, mas arrumar jeito honrado de ficar bem longe dele. Rendo graças ao sumiço do escudeiro e preparo-me para jogar a lança diante do desafeto. Abandonar o combate nas condições em que me encontro seria melhor que pedir a ajuda para tomar cela.
Além do mais, não teria a menor chance. A cabeça que trazem entre lágrimas é do próprio Sir James, o maior de todos os campeões que levantaram nosso estandarte. Sir Manfred ganha arena, levanta as armas e aguarda-me para o combate. Ai de mim… Abaixo a viseira, lança no ombro, escudo levantado sigo à pé para a cabeceira da pista. Atônita, a platéia silencia. Onde já se viu tamanha coragem.
Súbito, um mensageiro do Rei aproxima-se.
– Onde está sua montaria? O combate exige… – antes que termine explico o ocorrido. Oferece-me um dos escudeiros reais, rejeito para preservar minha honra.
– Combaterei a pé.
O mandrião sorri. Sabe que estou com medo. Retorna ao palanque comunica ao Rei minha real intenção. A cabeça coroada faz soar as trombetas, novamente. É dado início ao combate. O cavalo do inimigo sustenta-se no ar sobre as patas traseiras, relincha e lança-se a toda na minha direção. Encomendo minha alma a Deus, sustento alto a lança e disparo em direção à cova. Há vinte e cinco metros de distância, Sir Manfred abaixa a lança e faz sua pontaria. Não vai errar. Nunca errou antes. Vinte metros, a velocidade do cavalo aumenta a minha diminuí. Já não sustento mais a corrida.
A tralha de guerra vai ficando muito pesada. Quinze metros: livro-me do escudo. Não terá qualquer utilidade neste combate. Dez metros a lança já começa a beijar o chão. Cinco metros de língua para fora dentro da viseira paro de correr e caminho a passos largos. Dois metros e meio: num último arroubo de galhardia levanto a lança com os dois braços e disparo em direção ao oponente. Mas tropeço e começo a ir ao solo. No afã de acertar-me, Sir Manfred abaixa-se tanto que acaba caindo do cavalo. Bato com a cabeça e desmaio.
Envolto em água quente, meu corpo desperta lentamente. Devo estar no céu, pois é um anjo vestido de amarelo que vem aspergir essência de rosas na banheira enquanto outro despindo azul despeja uma ânfora de água quente sobre meu peito nu. Não há na terra mulheres tão bonitas, penso. São parecidas. Talvez almas gêmeas. Bem poderiam ter saído de uma pintura sacra. São divinamente belas. Seus olhos esmeraldas fazem brilhar em meu coração o amor que poderia dispensar a qualquer uma delas ou a ambas. Delicadas, jovens, sorridentes elas cativam de tal maneira minha atenção que fico como estou por uma eternidade. Mas, os ruídos da guerra devolvem novamente à realidade meus ouvidos.
Sir Manfred desembainha ruidosamente a espada e arrasta-se até onde estou. Assustado, desperto do encanto e levanto. Estou em melhores condições que o oponente. Apesar de forjado com a melhor têmpera de todo o reino, Sir Manfred ressente-se da queda. Admirando seu brio, apanho a lança e maltrato-a no oponente. Quando seu corpo já não sustenta mais a mortalha de metal, seus joelhos se dobram. Antes que dê peito ao solo, levanto seu braço esquerdo e enterro a lança numa axila protegida apenas pela cota de malha sob a armadura. Com o pé sobre o cadáver, jogo longe o elmo e ergo as mãos anunciando a vitória. Depois, descobri que a verdade pertencia ao derrotado. O Rei havia confiscado as terras de Sir Manfred e mandado degolar sua esposa. Não me arrependo de tê-lo abatido. Na arena combati pela vida, não por amor à razão ou à justiça.
Deixe um comentário