4 de junho de 2026

A expansão chinesa e o declínio dos Estados Unidos

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Enviado pro Assis Ribeiro

Do Resistir.info

Mudanças decisivas no sistema global

O FMI informou recentemente que em 2014, a nível global, o primeiro Produto Interno Bruto (medido em paridade de poder de compra) já não é o dos Estados Unidos e sim o da China. De acordo com essa informação, em 2014 a China representa 16,4% do Produto Mundial Bruto contra 16,2% dos Estados Unidos. Em 1980 os Estados Unidos representavam 22,3% e a China apenas 2,3%. No ano de 2004 os Estados Unidos ainda pareciam estar localizados numa altura difícil de alcançar, com 20,1% do Produto Mundial Bruto e a China crescia mas chegava a 9,1% (menos da metade do PIB estado-unidense). Em dez anos mais equilibrou-se a balança e, de acordo com o prognóstico do FMI, a diferença em favor da China aumentará nos próximos anos.

 

Os dados fornecidos pelo FMI mostram não só a expansão chinesa como também (principalmente) o declínio dos Estados Unidos cujo poderio económico relativo global foi retrocedendo ano após ano desde o início do século actual. A resposta da sua elite dirigente foi continuar com o processo de financiarizaçáo que a havia levado ao cimo ao mesmo tempo que degradava o sistema industrial e acumulava dívidas. Enquanto isso, para proteger e prolongar seus privilégios parasitando sobre o resto do mundo, exacerbou sua tendência militarista. O que havia sido iniciado na última etapa do governo Clinton agravou-se com a chegada de George W. Bush e ainda mais sob a presidência Obama. As guerras foram-se sucedendo e estendendo, a crise financeira de 2008 não acalmou a euforia belicista, pelo contrário, acentuou-a. E as baixas taxas de crescimento produtivo que se seguiram, as ameaças de incumprimento, o aumento da marginalidade social, as perdas de mercados externos e outras calamidades deixaram caminho livre ao autismo imperial. Encontramo-nos diante da reacção desesperada de um sistema drogado embarcado numa fuga louca para a frente. Os lobos da Wall Street convergem com os militares hitlerianos da NATO no leme de um imenso Titanic que alberga o conjunto do G5 (Estados Unidos+Alemanha+França+Japão+Inglaterra).

Não se trata só da China a superar os Estados Unidos. Segundo os dados do FMI, em 2014 os BRICS alcançaram o G5 (cada um representa aproximadamente 30% do Produto Mundial Bruto) e estaria a superá-lo em 2015.

O militarismo é assumido pela classe dominante norte-americana como a “solução” para os seus problemas, procurando assim submeter seus aliados-vassalos da NATO, encurralar a Rússia e a China, submergir nos caos países de todos os continentes e assim tomar posse de uma ampla variedade de recursos naturais da periferia, desde o petróleo e o gás até o coltan, o lítio ou o ouro. Essa rajada de agressões começa a transformar-se num super boomerang que golpeia a cabeça do império, acossado por dívidas e ameaças inflacionárias e recessivas.

Por outro lado, não há desconexão. A União Europeia e o Japão afundam-se junto com o seu amo. Tão pouco se salvam os capitalismos “emergentes” da periferia. Ainda que a curto prazo tirem vantagens do enfraquecimento do centro do mundo, a médio prazo esses países vão ficando presos à decadência global. Seus principais clientes comerciais são precisamente as economias capitalistas centrais em declínio, enquanto a trama financeira (equivalente a vinte vezes o Produto Mundial Bruto) envolve todas as burguesias centrais e periféricas, neoliberais e estatizantes, pobres e ricas.

Tanto a Rússia como a China, seguidas por um amplo espectro de países periféricos, conseguiram, graças aos controles e intervenções económicas dos seus Estados, preservar durante um certo tempo seus mercados internos e suas estruturas produtivas. Mas as economias da China, Índia e Brasil desaceleram-se e, em consequência, aceleram-se suas contradições internas e a Rússia já entrou em recessão (suave, por enquanto).

O velho centro do mundo em torno do G5 verifica sua decadência ameaçando impor o maior desastre civilizacional e ecológico da história, enquanto seus oponentes periféricos procuram resistir a uma avalancha que os ultrapassa. Tentam integrar-se mas acontece que cada potência emergente baseou sua prosperidade recente nas procuras dos mercados centrais em crise que, através de complexas arquitecturas financeiras e comerciais, puderam manter sua economias em funcionamento inundando o planeta com dólares sobrevalorizados que lhes permitiam comprar produções periféricas a baixo custo. Mas agora e no futuro previsível para continuar a funcionar (na realidade, para prolongar sua agonia) precisam baixar ainda mais os custos periféricos até levar o processo ao nível do saqueio. Pelo seu lado, os periféricos não podem prescindir desses mercados centrais, não têm como substituí-los completamente nem a curto nem a médio prazo.

Um horizonte de guerras e crises vai-se instalando de maneira irresistível.

Assistimos actualmente a uma dupla corrida contra o tempo. Em primeiro lugar a do Ocidente e do Japão que procuram submeter o resto do mundo nuns poucos anos para saquear seus recursos naturais e espremer velozmente o que reste dos seus mercados internos. Seus estrategas consideram que desse modo poderiam reduzir os custos das suas empresas, preservas seus lucros e sustentar os mercados internos imperiais ou pelo menos desacelerar seu declínio. Ainda que o alcance dessas metas se choque com resistências periféricas (estatais e populares) que o Império até agora não pôde anular. Além disso, sua decadência económica e política reduz ano após ano a eficácia dos referidos projectos.

Por sua vez, os capitalismos emergentes também desenvolvem uma guerra contra o tempo, ainda que a um prazo mais longo que se vai encurtando. Em torno dos BRICS, as integrações euro-asiáticas, latino-americanas, etc procuram desenvolver mercados comuns que substituam os mercados ocidentais declinantes, gerando desse modo uma dinâmica capaz de salvá-los do desastre global motorizado pelo Ocidente e inclusive arrastando este último mais à frente rumo a uma nova prosperidade. Mas essa ilusão enfrenta problemas de solução quase impossível. Os emergentes periféricos precisam de tempo para se reconverterem e se adaptarem aos mercados de substituição internos e externos. Se os capitalismos centrais ruírem a curto prazo os emergentes sofrerão o impacto dessa retracção e entrarão num período de crises explosivas. Para que os capitalismos centrais não se arruínem a curto prazo prolongando uma espécie de declínio controlado seria necessário que os mesmos preservassem seus privilégios monetários (hegemonia do dólar) e comerciais – mas isso só é possível à custa da estabilidade económica e política dos capitalismos emergentes. Se curvassem a Rússia, China, Irão e seus aliados e amigos periféricos, os capitalismos centrais poderiam então saquear livremente o conjunto da periferia. O Ocidente conseguiria uma espécie de aterragem suave, com o que o planeta entraria numa era de decadência geral prolongada.

Dito de outra forma: para não caírem os emergentes precisam que o Ocidente demore, desacelere sua queda e para que isso aconteça o Ocidente precisa saquear a periferia, fazer cair os emergentes. De qualquer forma, se o Ocidente chegar a ter êxito e submergir no caos o resto do mundo seguramente esse caos provocará a quebra das suas próprias sociedades.

Na realidade ambas as corridas contra o tempo tendem a convergir num processo comum de crise, seus ritmos diferenciados de desaceleração do crescimento económico começam a aproximar-se (Brasil e Rússia, por exemplo, actualmente estancam-se de modo igual à Inglaterra ou Japão) integrando-se num espaço universal de crises políticas, financeiras, militares, sociais, locais, regionais, etc., ou seja, na trama complexa da decadência do capitalismo como sistema mundial. As esperanças de superação da crise a parte do interior do sistema vão-se diluindo. O Ocidente não recupera suas glórias definitivamente perdidas e a partir da periferia não chega a regeneração, o rejuvenescimento do capitalismo.

Alguns anos antes da Comuna de Paris Proudhon descrevia a França decadente do seu tempo da seguinte maneira: “Todas as tradições estão gastas, todas as crenças anuladas, em contrapartida o novo programa não aparece, não está na consciência do povo, daí o que chamo ‘a dissolução’. É o momento mais atroz na existência das sociedades” [1] . Como sabemos, uns poucos anos depois, do mais profundo desastre emergiu a Comuna de Paris (1871), insurgência efémera mas decisiva que iluminou as rebeliões do século XX.

O horizonte negro que nos oferece esta civilização contrasta com a incrível vitalidade demográfica, tecnológica e social em geral que a humanidade demonstra – o que anuncia choques, confrontações, alternativas que deveriam ir para lá dos limites deteriorados do sistema.

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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14 Comentários
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  1. Mauro MB

    12 de novembro de 2014 6:21 pm

    caramba,
    Apocalíptico mas bem

    caramba,

    Apocalíptico mas bem factível.

  2. o mar da silva

    12 de novembro de 2014 6:50 pm

    Também achei apocalíptico.

    Também achei apocalíptico. Não é o primeiro e nem será o último a prever o declínio do capitalismo. Porém cheio de dados coerentes e lógicas factíveis.

     

  3. André Oliveira

    12 de novembro de 2014 8:16 pm

    As empresas do 1º mundo

    As empresas do 1º mundo transferiram todas as suas indústrias para a China, logo esse PIB chinês é, em boa parte, PIB americano e europeu também.

    1. jluizberg

      12 de novembro de 2014 8:44 pm

      Não é não, Andre.
      Para uma

      Não é não, Andre.

      Para uma empresa se instalar na China e vender para os chineses, o governo Chines precisa ser sócio dela.

      Além disso, eu costumo dizer que a única verdadeira globalização que ocorreu foi do mercado financeiro e seus agentes, que agora não são nacionais de nenhum lugar. Então esse grande pedaço do PIB não é dos EUA, mas dos seus respectivos donos, que não dão a mínima para o que acontecer nos EUA, pois eles são “globais” e bem recebidos em qualquer lugar do mundo.

      O governo americano estimulou a concentração de renda acreditando na ideologia neoliberal que dizia que posteriormente isso geraria retorno para a sociedade, e vai ficar com o pires na mão esperando esse retorno chegar, enquanto os novos donos do PIB geram valor em algum outro lugar qualquer do planeta.

      Ou você acha que eles vão ajudar, mudar as fábricas para os EUA e perder dinheiro para ajudar o país?

      1. Jose mestre Carpina

        13 de novembro de 2014 12:55 am

        Acho que os yankees  estavam

        Acho que os yankees  estavam usando a teoria do bolo do mago do sitio do picapau amarelo, Delfim Neto…Esse bolo não vai ser dividido é nunca….

      2. André Oliveira

        13 de novembro de 2014 8:41 pm

        Ninguém montou fábrica na

        Ninguém montou fábrica na china pensando em vender produtos para os chineses. Os parques industriais das empresas do primeiro mundo foram todos para a china explorar mão de obra em regime de semi-escravidão além de legislação mais frouxa em muitas áreas como por exemplo a legislação ambiental, não é a toa que a china é o pais mais poluidor no mundo. De uma chave de fenda aos computadores da APPLE, tudo tudo passou a ser feito na china para ser vendido no mercado mundial, não para os chineses.

  4. jluizberg

    12 de novembro de 2014 8:36 pm

    A economia mundial é um

    A economia mundial é um sistema fechado, e como tal, não admite a queda conjunta de todos, a não ser em caso de catástrofes globais que mudem as condições de forme exógena.

    Para alguns ganharem, alguns precisam perder, e vice-versa. Isso significa que a queda dos EUA vai beneficiar alguém, e ao que tudo indica serão principalmente os países Asiáticos, liderados pela China, e quem mais estiver no barco, como os BRICS.

    Claro que isso não se dará de forma linear, rápida nem fácil, e que esta queda, como em um navio afundando levará a todos em um movimento de arrasto. Cabe a esses países continuarem nadando para cima até que sua força ultrapasse o arrasto e eles começem a subir novamente.

    Então o caminho é esse mesmo que está sendo tomado: diversificar investimentos e parceiros comerciais, migrando principalmente para a Ásia, reduzir as reservas e o comércio em dólar, e ao invés de substitui-lo por outra moeda forte, utilizar uma cesta de moedas, que protege as reservas contra qualquer problema pontual de algum país.

    O maior risco ao equilíbrio desse sistema é o poder militar e nuclear americano, pois ninguém sabe se eles vão naufragar sozinhos ou se vão destruir tudo nesse processo.

    Mas eu estou otimista, pois acredito que os EUA não são tão idiotas assim. Eles vão continuar caindo até chegar a um ponto crítico, quando vão voltar ao mercado e negociar a sua participação no novo sistema, porém em condições mais igualitárias do que agora.

     

  5. altamiro souza

    12 de novembro de 2014 9:43 pm

    se  acontecer metade do que

    se  acontecer metade do que se disse, sai de baixo….

  6. Julião

    12 de novembro de 2014 10:07 pm

    Intrigante o problema

    Mais do que interessante o problema é intrigante, mesmo. Grande parte dos comentaristas do blog já sabiam de antemão de que a saída do CAPITALISMO selvagem que hoje temos não será nem simples e nem suave.

    Não há maneira de um sistema capitalista, nos moldes do hoje instalado, controlar uma sociedade de muitissimos “perdedores” e pouquissimos “ganhadores”, com os atuais níveis de instrução de uma grande parcela deste conjunto social, com um alto  nível de informação instantânea, compartilhamento da informação tornando-a muito mais democrática, com maiores dificuldades de passarem “micos sociais” e convencerem a maioria das pessoas estão bem!

    NÃO DÁ MAIS! Temos que ter uma outra alternativa social!  Uma grande parte das pessoas sabem ou entendem que o nosso atual nível médio de vida (ou alegria em viver) está muito baixo, em função das tecnologias e recursos existentes no mundo.

    Sentem-se prejudicados pois sabem que podem viver melhor! Viver melhor é no sentido de trabalharem menos, terem mais lazer, não pressentirem que sua vida, quando forem mais velhos, poderá e certamento será muito pior do que é atualmente! Planos de aponsentadoria bancários são armadilhas no longo prazo! Se forem muito bons, podem não ter com o que pagar e se forem ruins (como atualmente são), para que pagá-los?  Teriamos que mudar as base do “viver”, como mais assistecia médica (não necessáriamente de alto nível), com locais para morar, com escolas para todos, cidades mais humanas, tempo paraa lazer e locais para exercer este lazer, enfim uma vida decente. Vida decente não deve ser entendida como obrigatóriamente um vida com muito dinheiro, pois isto não seria possível, para todos, sem acabar com o planeta.

    Não olhamos para a TERRA/GAIA querendo saber da nossa dependencia com o nosso habitat.As nossas ações atuais já estão impactando o planeta para o futuro próximo (50 a 100 anos). Teremos que mudar a nossa exigência de insumos minerais ou alimentícios que poderão destruir a vida em curto prazo. Diminuir a polpulação seria desejável, mas não no conceito dos 20 por 80, onde 20% seria previlegiado e os outros 80% seriam e deveriam ser forçosamente descartados (este discurso já aconteceu entre os muito ricos).   

    O sistema político deveria ser o mais democrático possível e a economia, definitivamente, socializada!

  7. anarquista sério

    12 de novembro de 2014 10:48 pm

    Estava meditando qual foi o

    Estava meditando qual foi o pior presidente americano nos últimos 70 anos.Ou mais.Ou muito mais,( Nixon não vale porque é controverso) 

             Obama é o campeão sem margem de erro.

               Um carisma espetacular,completamente desperdiçado.

  8. Motta Araujo

    12 de novembro de 2014 11:42 pm

    Fenomenal, acabou os EUA,

    Fenomenal, acabou os EUA, viva a China, vamos viajar em aviões chineses, combater o cancer com remedios chineses,

    fazer fila no Consulado da China para visitar Prquim, adeus aos quinze porta aviões nucleares americanos, viva o unico porta aviões  da China, comprado como sucata da Ucrania depois de 30 anos de serviço, viva as universidades chinesas, vamos mandar 100.000 estudantes para lá que hoje estão no decadente EUA, viva a limpeza, higiene, educação, gentileza dos chineses, viva os banheiros usados por um bilhão de chineses, um buraco na terra atrás da choupana. a China é um luxo, não tem nada melhor no mundo, só Cuba.

  9. Alexandre Weber - Santos -SP

    13 de novembro de 2014 1:46 am

    Sou otimista

    O novo acordo dos BRICS e seu novo banco irão, lenta e paulatinamente, substituir as velhas e corroidas estruturas  financeiras que existiam nas mãos de poucos, para serem colocadas nas mãos de países, que tem compromisso com seu povo espalhado pelo planeta.

    Em política não existe vácuo, o poder sempre é preenchido por um novo ocupante, no caso, os BRICS.

  10. Sta Catarina

    13 de novembro de 2014 9:56 am

    Perda das Regalias

    Quero ver esse stablishment consolidado aceitar perder sua influência e poder no mundo. Irão certamente revidar.

    O Brasil, dententor de enormes recursos naturais e em vias de tornar-se uma potência global, precisa se preparar pois será objeto de cobiça (já é). Com a classe política que temos, haja estômago.

  11. wendel

    13 de novembro de 2014 7:21 pm

    E ………..

    As penas de aluguel em favor da defesa do império, não cansam de enaltecer as virtudes de invasores, saqueadores, que se intitulam “polícias do mundo”, e que devem sentir uma diárreia crônica quando se fala na decadência do império!

    Que está em decadência econômica, não há o que discutir, muito embora conforme os “vira-latas” latem, têm ainda muito poder bélico.

    Mas o que fazer, quando os verdadeiros analistas geo-politicos dizem – ” É a economia, estúpido” !!!!!!!!!!!!!!!!!

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