O quarto governo Lula cometeria um grave erro se começasse pela demonização de Fernando Haddad. Seria politicamente injusto e administrativamente desastroso transformar em símbolo dos limites da gestão um de seus quadros mais qualificados.
Haddad aceitou duas missões de risco: assumir o Ministério da Fazenda em uma conjuntura adversa e disputar uma eleição dificílima para o governo de São Paulo.
Na Fazenda, sua tarefa foi a de reorganizar as contas públicas, negociar receitas com um Congresso resistente e administrar expectativas em uma economia submetida a juros elevados. A criatividade demonstrada no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo acabou subordinada ao esforço permanente de fechar contas e responder às cobranças do mercado.
Há algo de perverso nessa dinâmica. O ministro precisa produzir resultados fiscais que dependem do crescimento, enquanto a política monetária encarece o crédito, contém a atividade e dificulta a arrecadação. E não existe uma ação articulada de governo na mesma direção. Depois, é cobrado pelos efeitos de uma engrenagem sobre a qual não tem controle integral.
Foi um uso estreito de uma capacidade de gestão muito mais ampla.
O que ficou de pé
Mesmo nesse ambiente adverso, Haddad teve papel central na reforma tributária do consumo – um feito que o país aguardava há décadas -, na taxação de fundos exclusivos e de rendimentos no exterior, além da construção do arcabouço fiscal que substituiu o teto de gastos. Também colocou em pauta a revisão de benefícios fiscais e a busca por uma distribuição menos desigual da carga tributária.
Haddad não foi apenas o ministro do ajuste. Foi também um articulador de mudanças que enfrentaram interesses organizados e resistências antigas.
Seu problema foi atuar em um governo que, muitas vezes, pareceu esperar da Fazenda aquilo que somente uma estratégia coordenada de desenvolvimento poderia entregar.
Os erros da Fazenda e a conta do Banco Central
Certamente, Haddad fez escolhas discutíveis. Cabe examinar sua participação na definição da meta de inflação, o peso excessivo atribuído à busca por credibilidade fiscal e a expectativa frustrada de que o esforço de ajuste produziria uma resposta imediata e favorável do mercado.
Mas a crítica perde precisão quando reúne todas as decisões econômicas sob a responsabilidade do ministro da Fazenda. A condução da Selic pertence ao Banco Central.
Gabriel Galípolo deve ser responsabilizado pelas escolhas da política monetária, assim como Haddad responde pelas decisões da política fiscal.
Reconhecer méritos na supervisão financeira ou na recuperação de instrumentos de controle do mercado não dispensa o exame da dosagem dos juros. São dimensões distintas da atuação do Banco Central. O acerto em uma não elimina a possibilidade de erro na outra.
A dose e o paciente
Um médico não pode avaliar um tratamento apenas pela capacidade de eliminar uma infecção, ignorando o comprometimento dos demais órgãos. Precisa acompanhar a resposta do organismo, rever a dosagem e distinguir os sintomas da doença dos efeitos colaterais do próprio remédio.
Na economia, ocorre algo semelhante. O combate à inflação não dispensa a análise do crédito, do emprego, do investimento e da capacidade de pagamento de famílias e empresas.
Uma política monetária excessivamente restritiva pode enfraquecer empresas viáveis, interromper investimentos e dificultar a recuperação de devedores. Pode também reduzir a atividade e, com ela, a arrecadação que o governo precisa preservar.
A decisão de manter a taxa elevada exige uma justificativa tão rigorosa quanto a de reduzi-la. Mesmo com o mercado desaquecido, opta-se por um excesso de prudência baseado na lógica burocrática: garante-se 100% de segurança para atingir metas formais, enquanto a economia real enfrenta sobressaltos cujas consequências acabam recaindo sobre outros ministérios.
O problema que ninguém enfrenta sozinho
Há, ainda, uma conta compartilhada: a do crédito bancário.
Não basta discutir a taxa básica e tratar como naturais as taxas cobradas na ponta. O custo do crédito exige uma agenda que reúna política monetária, regulação, concorrência, garantias e atuação dos bancos públicos.
O mesmo vale para o desenvolvimento. Não é razoável esperar que a Fazenda compense, com medidas fiscais, a ausência de coordenação entre investimento público, política industrial, infraestrutura, educação e financiamento.
Quando falta um projeto integrado, o ministro da Fazenda torna-se mero administrador de incompatibilidades: precisa estimular o crescimento sem ampliar despesas, melhorar serviços essenciais sem recursos suficientes e equilibrar as contas enquanto outras decisões encarecem seu financiamento.
É nesse ponto que a discussão sobre Haddad deveria mudar de patamar.
Um gestor para além do ajuste
Se Lula pretende recolocar o planejamento no centro do governo, deveria considerar Haddad para além do papel que lhe foi reservado na Fazenda.
Sua trajetória revela capacidade para formular políticas, organizar equipes, negociar reformas institucionais e conduzir programas complexos. Essas qualidades tornam seu melhor aproveitamento uma questão estratégica.
O país precisa de quadros capazes de transformar prioridades políticas em ações de governo. Precisa recuperar a capacidade de planejar, coordenar investimentos e acompanhar resultados. Não pode consumir seus melhores gestores na administração cotidiana de restrições e depois julgá-los apenas pelo que essas restrições impediram.
O pior desfecho seria desperdiçá-lo duas vezes: primeiro, confinando sua capacidade à gestão das amarras; depois, descartando-o por não ter conseguido desfazê-las sozinho.
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