A homenagem a Manoel da Conceição

Um brasileiro prá ninguém colocar defeito: Manoel da Conceição

A Universidade Federal do Maranhão, o Centro de Ciências Humanas e o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais convidam para a cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa a Manoel da Conceição, lider das lutas camponesas e dos direitos humanos no Maranhão, conforme decisão do Conselho Universitário da UFMA.

A data da entrega será no dia 23 de novembro de 2010, no Auditório da Biblioteca Setorial do CCH(em São Luís), às 19h.

Quem foi Manoel da Conceição?
Filho de lavradores do vale do rio Itapecuru, Manoel vivenciou experiências que lhe propiciaram uma sólida convicção ética, humanista e socialista, de dedicação à causa dos trabalhadores. A começar, ainda na juventude, pela expulsão de sua família por proprietários rurais, violência presenciada ainda em inúmeros outros massacres; depois, a migração em busca de “terra liberta”; a crença evangélica e o início da militância; o envolvimento com o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à Igreja progressista; o engajamento na Ação Popular (AP) e a luta pelas Reformas de Base; até o golpe de 1964, quando sofreu as primeiras prisões.

> Durante a ditadura militar, Mané se dedicou à organização e educação de trabalhadores rurais na região do rio Pindaré em sua luta contra o latifúndio e pela conquista da terra. Foi alvo de violenta repressão da polícia militar do governo José Sarney (1966-70), sendo baleado e preso em julho de 1968, ocasião em que teve parte da perna direita amputada por falta de atendimento médico. Na seqüência, foi preso pela polícia política (1972) e dado como “desaparecido”, quando foi submetido a sessões de interrogatório e tortura, sendo solto graças à intervenção da AP e da Anistia Internacional. Liberdade breve, pois, mais uma vez, os militares o prenderam, desta vez em São Paulo, com mais torturas e sevícias (1975). Novamente a solidariedade – da Anistia e das Igrejas católica e protestante – conseguiu resgatá-lo das mãos assassinas da ditadura, com o que Manoel partiu para a Suíça (1976), onde permaneceu até a decretação da Lei da Anistia (1979).
No exílio, lançou o livro-denúncia Essa terra é nossa, contando sua história de luta pela reforma agrária e de resistência à ditadura, uma leitura necessária e fundamental para compreender os “anos de chumbo”. Livro que acaba de ser reeditado pela UFMG (com o título: Chão de minha utopia), através do Projeto República, com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

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Foi Manoel da Conceição que deflagrou uma greve de fome em junho, contra a intervenção do Diretório Nacional que revogou a decisão estadual de apoiar Flávio Dino (PCdoB) para governador do Maranhão, aprovando, em substituição, o nome de Roseana Sarney (PMDB). Parcela expressiva da opinião pública e da imprensa tomou contato (quase) pela primeira vez com a pessoa de Manoel da Conceição.

fonte destas e mais informações:
http://www.jornalpequeno.com.br/blog/oliveiraramos/?p=817

Do Blog Conexão Brasil-Maranhão

Manoel da Conceição a Lula: o limite é a nossa dignidade

Manoel da Conceição: sobrevivente da oligarquia Sarney.

Esta talvez seja a melhor síntese do homem que há mais de 50 anos resiste e luta contra o coronel mais longevo do Brasil contemporâneo, José Sarney.

Testemunha de vários massacres de líderes camponeses no interior do Maranhão e, ele próprio, sobrevivente de inúmeras ações da polícia e de jagunços a serviço da oligarquia, Manoel é a prova viva do que acontece quando o povo não se submete ao cabresto daqueles que se julgam donos do Brasil.

Em 1968, após se iludir com o jovem político José Sarney, que encarnava a esperança de superação do esquema opressor de Vitorino Freire e a chance de emergir um tempo de justiça e liberdade no Maranhão, Manoel sentiu, literalmente, na pele o preço que deveria pagar por cometer a ousadia de organizar os trabalhadores na luta pelos seus direitos. Ele conta o episódio:

“No dia 13 de julho de 1968 o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré Mirim havia convocado uma reunião da categoria para receber a visita de um médico para tratar questões relacionadas à saúde dos associados e associadas. O Prefeito do município na época mandou informar que iria fazer uma visita ao sindicato neste mesmo dia. Por volta das 10 horas da manhã chegou um pessoal dizendo que queria falar com o presidente do sindicato. Quando eu apontei na porta fui recebido por tiro de fuzil que estraçalhou minha perna. A ação e os disparos foram efetuados pela polícia militar. Outros companheiros também foram atingidos por bala, mas felizmente não houve morte. Eu fui levado aprisionado e jogado na cadeia sem receber nenhum tratamento no ferimento, o que levou minha perna a gangrenar e ter que ser amputada.”

O governador José Sarney tentou cooptar Manoel. O atual presidente do Senado é do tipo que acredita que todo homem tem um preço, na certa porque ele próprio teve o dele.

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Manoel, porém, aprendeu cedo que a dignidade é um patrimônio cujo valor é incalculável para um ser humano decente.

Hoje, aos 75 anos, após ter passado por prisões, torturas, exílio, atentados e tantas lutas contra latifundiários (no Maranhão, no Rio Grande do Sul e em tantos outros estados), Manoel da Conceição diz estar sendo vítima de uma tortura pior do que a sofrida durante a ditadura:

“Como que agora meus próprios companheiros de partido querem me obrigar a fazer a defesa dessas figuras que me torturaram e mataram meus mais fieis companheiros e companheiras. Vocês podem ter certeza que essa é a pior de todas as torturas que se pode impor a um homem. Uma tortura que parte dos próprios companheiros que ajudamos a fortalecer e projetar como nossos representantes no partido e na esfera de poder do Estado, na perspectiva de um projeto estratégico da classe trabalhadora. Estou falando do fundo de minha alma em honra à minha história e à de meus companheiros e companheiras que foram assassinadas pelas forças oligárquicas e de extrema direita neste país.”

Manoel se refere à tentativa de imposição, por parte de dirigentes nacionais do PT, da aliança local do partido com o PMDB de Rose(ng)ana Sarney nas eleições estaduais, desprezando a decisão do PT-MA de se colicar com o PCdoB do deputado federal Flávio Dino e o PSB.

O histórico militante – terceira pessoa a assinar a ata de fundação do PT em 1980 – está em Brasília para acompanhar de corpo presente a reunião do Diretório Nacional, nesta sexta (11), que definirá o imbroglio do Maranhão.

— Quero ver se [na reunião] vão ter coragem de negar a palavra a Manoel – disse um apoiador da aliança em torno de Flávio Dino.

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Em correspondência dirigida ao presidente Lula, Manoel diz que não acatará a eventual imposição da aliança com Sarney:

“(…) estou fazendo este apelo ao mais ilustre companheiro de partido e confessando em alto e bom som que não aceitarei sob nenhuma hipótese a tese de que nestas alturas de minha vida eu tenha que negar minha identidade e desonrar a memória de meus companheiros e companheiras que foram caçados e exterminados pela oligarquia e os detentores do capital no Maranhão, no Brasil e mundo inteiro.”

O militante também falou sobre dignidade e limites:

“Companheiro, tudo precisa ter algum limite e tal limite é a nossa dignidade. O que está sendo imposto a nós petistas do Maranhão extrapola todos os limites da tolerância e fere de morte a nossa honra e a nossa história.”

Em conversa que durou mais de duas horas no almoço hoje (10), falamos sobre muitos assuntos. Em breve a entrevista será publicada.

Flávio Dino e Manoel da Conceição

Por ora, segue vídeo bastante inusitado com Manoel da Conceição cantando em chinês. Durante o período do exílio (1975-1979), morou na Suíça e percorreu toda a Europa e boa parte do Oriente Médio, Ásia e África denunciando a ditadura brasileira. Passou nove meses na China, onde aprendeu um pouco do idioma e muito da cultura do país mais populoso do planeta.

Logo abaixo, segue o histórico documentário “Maranhão 66″, de Gláuber Rocha. Assista. As imagens são da época em que Sarney era sinônimo de renovação. A história e realidade atual desmentiram o impostor. E a situação mostrada nas imagens permanece pouco alterada. Alguém desconfia dos motivos?

Manoel da Conceição cantando em chinês

“Maranhão 66″, de Gláuber Rocha

PS: a “Segunda carta de Manoel da Conceição ao presidente Lula”, publicada no Jornal Pequeno (diário de São Luís/MA) está disponível no link abaixo:

http://www.jornalpequeno.com.br/2010/6/5/manoel-da-conceicao-lanca-carta-aberta-indignada-a-lula-146767.htm

PS2: Entrevistar o Manoel da Conceição no dia do meu aniversário é um presente que nunca poderia imaginar. Bom presságio!

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