4 de junho de 2026

A hora da verdade para Fernando Haddad

 

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Se os ventos não têm sido generosos para José Serra, tampouco parecem que serão daqui em diante para Fernando Haddad. Nos próximos dias, o petista será testado e terá seus trabalhos de Hércules para provar que mais do que poder, merecerá ser prefeito. Suas virtudes e defeitos políticos estarão sob intensos refletores. 

 

Verdade que campanha eleitoral tem seu timing: nos dez primeiros dias de TV, a população se liga; há reflexo nas pesquisas. Depois, a calmaria, o tempo para assuntar à distância. As pesquisas reagem nos dez últimos dias. Então, esse clima da água parada é relativamente normal.

 

Ainda assim, isto não pode servir de consolo para o candidato de Lula. O salto que Fernando Haddad deu nos primeiros dez dias foi significativo somente se comparado ao baixo patamar em que ele próprio estava (7 ou 8%); o resto da animação se deu pelo escorregão ladeira abaixo de José Serra. 

 

Certamente, não foi uma propulsão extraordinária. Ademais, mesmo em meio de campanha, poderia ganhar um movimento progressivo lento, mas uniforme. Pelo menos de acordo com as pesquisas que vieram a público, não foi o que aconteceu. Considerando que possuía como combustível Lula, Marta e Dilma, pode-se dizer que estacionou. Atingirá o patamar histórico do PT? 

 

Se por histórico falamos em 30%, será difícil afirmar que sim. Nesse momento da campanha, a animação de seu eleitorado deveria ser maior. De objetivo, pode-se dizer que, hoje, o candidato não depende mais apenas de si; precisará torcer para dois movimentos: crescer um pouco e Serra cair mais um pouco. 

 

Mas, não se sabe dizer se o tucanos conseguirá ou não estancar sua sangria. Mesmo para quem tem rejeição gigante, há um limite mínimo de apoio. Serra cairá muito mais? Para quem tem recall e o apoio de duas máquinas, do Estado e do Município, o limite mínimo de 20% para ser algo perto do piso. Só o resultdo demonstrará o quanto isso é real.

 

Haddad precisará pedir ao deuses: o que teremos pela frente será um momento distinto do que tivemos até aqui. Minha impressão é de que a campanha tucana tem melhorado: menos Serra no vídeo, maior exploração da parceria com Geraldo Alckmin e ataques mais contundentes contra o PT.

 

Duda Mendonça costumava dizer que em eleição “quem bate perde”. Pode ser. Mas a pancadaria de Serra sobre Haddad virá num momento especialmente ruim para Haddad e o PT. 

 

Em primeiro lugar, a dinâmica do julgamento do mensalão ganha força — logo, logo será julgado o chamado “núcleo político”, o que trará mais drama e emoção políticas. Haverá mais mídia e buchicho a respeito. Indiretamente, esta maior presença será um reforço para a campanha de Serra.

 

A começar pela matéria de capa de Veja, desta semana. As declarações de Marcos Valério serão naturalmente exploradas. Verdade que a revista se transformou num baluarte exclusivo da classe média que já reprova o PT.

Ainda assim, o suposto envolvimento de Lula — protagonista da eleição, padrinho de Haddad — ganhará amplitude — a TV, as ruas – e contribuirá para a conformação de um “clima” mais hostil aos candidatos do PT. A campanha esquentará.

 

Outro ponto: a igreja católica resolveu entrar em campo. O tiro foi contra Celso Russomanno e as relações do PRB com a Igreja Universal. Mas, sendo o instrumento da celeuma o kit anti homofobia, os petardos sobram, indiretamente, para Haddad – autor da proposta.

 

Misturar discussão religiosa com eleição não é nada promissor em termos civilizatórios. Mas, de imediato é ainda menos promissor para o PT, dado o deslocamento do poder na igreja católica durante as últimas décadas: os católicos tornaram-se mais conservadores. Num eventual tiroteio “igreja católica versus evangélica”, José Serra parece se favorecer, pois quem vai a campo contra Russomanno não é a chamada igreja progressista.

 

Por fim, some-se a isto o tremendo salto alto da nomeação de Marta Suplicy para o ministério da Cultura. Saltos maiores que os usados pela nova ministra. Estrategicamente, retirou Marta das ruas, da campanha, para colocá-la no centro de uma prática — que se não foi, não deixa de parecer — oportunista, patrimonialista. Não foi o melhor momento. A campanha de José Serra, claro, já vem se aproveitando disto.

 

Como reagirá a campanha do PT é, evidentemente, problema do PT e de seu candidato. O estrategista-marqueteiro, João Santana, já passou por momentos piores e talvez esse cenário estivesse desde sempre em seu radar. Ainda assim, penso que para os petistas chegou a hora da verdade: seu candidato passa a ser efetivamente testado.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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