O milagre chinês ameaçado pela inflação galopante
VIA COMERCIAL
No fórum de discussão Tianya, os internautas chineses ainda têm algumas semanas para eleger o ideograma que melhor representa o ano que passou. Mas já desponta um favorito: o caractere “zhang”, que significa “a alta” dos preços, algo que se tornou a principal preocupação dos consumidores, bem como dos dirigentes políticos.
O Conselho de Estado (governo chinês) adotou, na quarta-feira (17), uma política de controle de preços, após uma reunião presidida pelo primeiro-ministro Wen Jiabao. Entre as medidas que visam “tranquilizar os consumidores”, Pequim promete melhorar o sistema de subsídios, controlar os preços de venda de determinados artigos, se necessário, e combater a especulação sobre os produtos alimentícios. “As autoridades devem ajustar os preços rapidamente e com moderação”, explica um comunicado publicado em seu website.
A implantação desse controle administrativo, ao qual o governo chinês já recorreu no passado, vem na sequência da publicação de números preocupantes sobre o nível da inflação. O índice dos preços ao consumidor subiu 4,4% em um ano em outubro, um recorde ao longo dos dois últimos anos, bem além dos 3,6% já registrados em setembro.
A alta dos preços dos alimentos, em especial, contribui para o descontentamento dos cidadãos. O custo médio de 18 variedades de legumes em 36 cidades aumentou 62,4% em um ano, sustentado por uma forte alta nessas últimas semanas.
O aumento do custo de matérias-primas repercute sistematicamente nos preços impostos aos consumidores. O gigante dos hambúrgueres Mc Donald’s, que conta com 1.135 restaurantes na China, anunciou um aumento de 0,50 a 1 yuan no preço de seus sanduíches. Seu concorrente Kentucky Fried Chicken (KFC) fez o mesmo, e o aumento também vem se manifestando nos caixas dos supermercados. “É insustentável para uma família média. Os preços do alho e do gengibre aumentaram mais da metade nesses últimos meses”, se irrita Viviane Wei, uma mãe de família que fazia compras no hipermercado Carrefour de Zhongshan, oeste de Xangai.
Medidas de alcance limitado
Durante recente visita a um supermercado de Cantão, o primeiro-ministro pediu às autoridades locais que tratassem do problema da alta dos preços com “a maior atenção”, pois ele diz respeito ao “interesse imediato do povo”. O Estado já recorreu às reservas nacionais no fim do mês de setembro e introduziu 62.400 toneladas de carne de porco e 210 mil toneladas de açúcar no mercado. Ele prevê ceder mais 200 mil toneladas de açúcar no dia 22 de novembro, a dois terços de seu preço atual.
Essas medidas administrativas, no entanto, só terão um alcance limitado, acreditam diversos economistas. “Isso normalmente funciona a curto prazo, mas não em um período longo, na medida em que essas políticas não resolvem o desafio que é absorver o excesso de liquidez ou escoá-lo para investimentos alternativos”, diz Ren Xiangang, economista da IHS Global Insight na China.
Pequim está sofrendo o revés de uma política monetária complacente, apoiando-se em taxas de juros reais negativas, e que tinha por objetivo estimular a atividade econômica durante a crise. A China está constatando hoje que a liquidez injetada em sua economia acabou alimentado um superinvestimento nos setores mais rentáveis, como o imobiliário.
Preocupados com a extraordinária alta dos preços das moradias e com os riscos inerentes a uma bolha, as autoridades endureceram as regras de investimentos nesse setor, especialmente para a compra de residências secundárias. Uma parte da liquidez disponível se concentrou nas matérias-primas e nos produtos agrícolas, contribuindo assim para a alta do custo dos alimentos e dos preços ao consumidor em geral.
Além disso, as más condições climáticas neste ano influíram no preço antecipado das colheitas. Quanto à recente flexibilização da política monetária do Federal Reserve (banco central americano), ela acentua a chegada de fundos estrangeiros em busca de rentabilidade na economia de países emergentes, entre eles a China.
Por causa disso, o Ministério da Habitação e a autoridade encarregada das divisas estrangeiras criaram, no começo da semana, uma restrição aos estrangeiros, de forma que eles só possam comprar apartamentos para uso pessoal. O Banco Central chinês, por sua vez, agora está tentando fechar as comportas do crédito, aumentando os índices de reserva impostos aos bancos e elevando suas taxas.
A situação é considerada ainda mais preocupante pelo fato de que diversos especialistas acreditam que a inflação real é superior aos números oficiais. Os mais ricos muitas vezes se recusam a preencher os questionários, portanto as estatísticas oficiais não ilustram os preços exorbitantes que eles estão dispostos a pagar. Além disso, as pesquisas foram efetuadas junto a 120 mil famílias, e assim não seriam capazes de ilustrar as escolhas de pouco mais de 1,3 bilhão de habitantes, cujos hábitos de consumo vêm mudando a uma velocidade espantosa. Um estudo da Academia Chinesa de Ciências Sociais, publicado recentemente, acredita que a inflação chinesa tenha sido subavaliada em 7% nos cinco últimos anos. (Com Le Monde)
http://www.viacomercial.com.br/2010/11/20/o-milagre-chines-ameacado-pela-inflacao-galopante/
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