As variações no olho de Sauron, por Gustavo Gollo

As feições do olho revelado dias atrás me pareceram surpreendentemente adequadas ao imaginário popular, com a pupila representando uma bola escura adornada por um halo luminoso decorrente da massa estelar

A miséria da ciência contemporânea
Por Gustavo Gollo

Dias atrás, fomos surpreendidos pela descoberta do olho de Sauron, e pela propaganda descomunal em torno de um feito tecnológico que impressionou pelo entusiasmo da promoção em torno de um resultado que nada indicaria pudesse exercer fascínio tão arrebatado. Certas peculiaridades secundárias do episódio, no entanto, chamaram minha atenção muito mais intensamente que o cerne da notícia; nas linhas abaixo, esclarecerei o meu incômodo.

O Olho de Sauron

Todas as pesquisas apresentam variações, também chamadas “erros”, palavra que nos causa forte desconfiança. Ao falarmos no “erro” de uma dada informação, lançamos suspeitas sobre ela; em tal contexto, para se evitar o efeito colateral indesejado, o uso de eufemismos, como “variação”, em seu lugar, é recomendado.

Os erros são inerentes às medidas, inseparáveis delas. Se, na única fotografia que temos de uma pessoa, ela se encontra a uma longa distância, convirá “aproximar a imagem” para vê-la de perto. Nesse caso, todos sabemos, a imagem perderá seu foco, dificultando a identificação da pessoa e a definição de suas feições. Isso ilustra precisamente o modo como os erros, inevitavelmente, se imiscuem em todas as medidas, mais em umas que em outras, dependendo de fatores, como a distância do objeto na imagem, nesse caso.

Boas pesquisas costumam ter seus resultados revelados juntamente à margem de erro esperada em função da metodologia utilizada, de modo que sejam apresentados sob forma similar a: 17,5 ± 2 , onde o “±” revela a variação permitida, caso a pesquisa tenha sido feita corretamente. O uso da palavra “erro”, plenamente aplicável, teria induzido nos leigos a sensação de que a pesquisa tivesse sido feita erroneamente, o que não é o caso; o “erro” em questão é inerente à medida, do mesmo modo que a falta de foco o é, em uma imagem que tenha sido muito ampliada.

As pesquisas eleitorais nos familiarizaram com essa forma de apresentação dos dados, quase todas nos mostram os resultados obtidos, seguidos de um ± explicitando o erro inerente. Muitas dessas, contêm, de fato, um erro muito maior que o indicado, equívoco frequentemente doloso, em tais casos. Dentro da margem, no entanto, a variação é inevitável e esperada.

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O ± acoplado aos resultados numéricos revela o “foco” da pesquisa. O aumento na quantidade de dados tende a reduzir o erro, funciona como ajuste no foco. Dados difíceis de serem obtidos, tendem a ficar sujeitos a fortes variações, assim como as imagens de objetos colhidas a longa distância tendem a aparecer desfocadas.

Também conhecemos sistemas de tratamento de imagens, como o Photoshop, sistemas capazes de, artificialmente, dar foco na imagem, entre outros inúmeros arranjos. Tais artifícios, no entanto, consistem na introdução de informação falsa, de embelezamentos artificiais ausentes na imagem original.

A falta de foco decorrente da amplificação da imagem de uma pessoa que esteja muito distante, em uma dada foto, pode ser “corrigida” artificialmente aplicando-se à imagem nebulosa as feições de uma pessoa qualquer; o resultado obtido sugerirá fortemente que se trata da pessoa cuja imagem foi inserida artificialmente na foto. A sugestão é falsa e pode ser usada com intuitos fraudulentos. A “correção” da imagem em questão, no entanto, pode ter sido usada, candidamente, com o propósito apenas de nos evitar o desconforto de contemplar a foto de um rosto desfocado.

A aplicação de tratamento de imagem sem a indicação do feito, de qualquer modo, causaria desconfiança que seria extinta pela referência à ocorrência. A precaução tem similaridade com o ± exigido nas pesquisas eleitorais.

No caso de imagens, a indicação ± não teria sentido; nesse caso, a variação poderia ser bem ilustrada revelando 3, ou mais, imagens alternativas, todas igualmente passíveis de resultar da manipulação artificialmente imposta. No caso da aplicação de um rosto à imagem desfocada colhida à distância, a revelação de 3 imagens alternativas, cada uma delas com o rosto de uma pessoa diferente aplicado à imagem, nos daria uma clara avaliação do erro induzido pelo tratamento de imagem.

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Reconstruções de imagens

Arqueólogos e paleontólogos costumam nos mostrar reconstruções de imagens elaboradas, eventualmente, com base apenas em uns poucos ossos, sem nos revelar o erro inerente a elas. Reconstruções efetuadas por 3 ou mais peritos que evitassem a consulta aos trabalhos, uns dos outros, dariam uma boa estimativa do erro, ou variação esperada em tal empenho.

Eis a mesma Luzia, sob duas reconstruções.

O caso paradigmático de Hallucigenia, representada originalmente de “cabeça para baixo”, foi induzido pelo afã revolucionário de Stephen Gould, mas ilustra a possibilidade de erro inerente a todas as medidas.

Essa bela pintura, de 1947, conformou nosso imaginário sobre os dinossauros; todas as ilustrações posteriores encontram-se, de um modo ou outro, influenciadas por esse quadro, e seriam diferentes caso Rudolf Zallinger, seu pintor, tivesse optado por possibilidades alternativas de reconstrução da imagem.

A imagem do buraco negro

As feições do olho revelado dias atrás me pareceram surpreendentemente adequadas ao imaginário popular, com a pupila representando uma bola escura adornada por um halo luminoso decorrente da massa estelar incandescente sendo engolida pelo “bicho”. (A imagem em full HD acima é, obviamente, uma piada).

A imagem me induziu, de imediato, a tentar imaginar a margem de erro da reconstrução, e que variação na imagem os dados brutos permitiriam.

A imagem original da NASA, no entanto, me revelou algo bastante enigmático. O olho de Sauron consistiria em ampliação da foto abaixo:

Ao aplicar-lhe o zoom do meu editor de texto obtive apenas:

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O que me faz pensar como terá sido obtido o contorno da íris desse olho tão conveniente. Suspeito que o formato de olho tenha sido simplesmente imposto à imagem, cortando o círculo e apresentando-o sobre fundo negro.

(Também fiquei pensando que o horizonte de eventos, no buraco negro, deveria tornar-se tão reduzido que desapareceria, deixando, na foto, não uma bola escura tão grande, mas, um ponto minúsculo. Imaginei que o buraco negro engoliria a si mesmo, fazendo sua imagem desaparecer, de modo que a órbita da suposta massa incandescente que compõe a íris, na imagem, “colaria” no ponto zero, então fiquei surpreso com “pupila” tão grande e conveniente, mas deve ser implicância minha.)

A miséria da ciência contemporânea

O mundo atual anda muito estranho, seria surpreendente que a ciência escapasse da mesma sina.

A NASA gasta bilhões de dólares com pesquisas em imagens que serão utilizadas também em espionagem e controle de cidadãos. O sucesso angariado pela revelação da foto do buraco negro lhe facilitará o acesso a outros tantos bilhões, tornando a propaganda extremamente rendosa.

Quanto à maquiagem do olho, acho que pegaram pesado.

PS. Observando novamente as imagens, acho que encontrei uma das respostas: como conseguiram a foto final, do anel, ou olho, a partir de uma ampliação como a que mostrei acima? Na foto final, suspeito que tenham filtrado as frequências, mostrando apenas as mais altas, relativas a temperaturas mais elevadas. Talvez tenha sido esse o tratamento que gerou o formato adequado, de olho, conveniente para a apresentação ao público.

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