Ciência em um mundo aberto, por Gustavo Gollo

Ciência em um mundo aberto

por Gustavo Gollo

A profissão de cientista é, hoje, bastante comum e difundida mundialmente. No Brasil, como em outros países, os profissionais da pesquisa exercem frequentemente o duplo papel de professoras/pesquisadores, mescla profícua por fornecer ao pesquisador uma plateia para suas realizações, e, aos alunos, professores vibrantes engajados na construção do conhecimento. Professores que não participam do processo de desenvolvimento do conhecimento acabam murchando, perdendo o interesse em um tema que são obrigados a repetir ano após ano. Os que participam do jogo de desenvolvimento do conhecimento vibram com seus temas e suas realizações, a diferença costuma ser óbvia.

O número de profissionais da pesquisa, 100 anos atrás, no Brasil, era ínfimo; apenas uns poucos gatos pingados eram contratados como cientistas, em nossas terras. Hoje, as universidades públicas aglomeram um contingente considerável de professores/pesquisadores, existindo, no país, alguns outros institutos de pesquisa com o mesmo propósito. No mundo inteiro, a quantidade de cientistas, profissionais de pesquisa, tem aumentado imensamente.

Não sei qual a proporção de cientistas existentes hoje, para os de 100 anos atrás; não tenho dúvidas, no entanto, de que este número cresceu muitíssimo, muito mais que a população total que, de lá pra cá, quase decuplicou. Talvez existam mil cientistas profissionais, hoje, para cada um existente cem anos atrás, a estimativa é meramente ilustrativa.

O desenvolvimento científico, no entanto, não correspondeu a tal aumento. Um flagrante de tal afirmação pode ser percebido ao se considerar a confusão deliberada entre ciência e tecnologia. Exaltam-se os desenvolvimentos científicos das últimas décadas, referindo-se, de fato, aos desenvolvimentos tecnológicos característicos do século passado.

Desde a década de 1930, no entanto, a ciência encontra-se, relativamente estagnada. Compare a ciência realizada, desde então, efetuada por um contingente de profissionais talvez mil vezes maior, com as realizações científicas do século anterior, e se verá uma estagnação bastante acentuada. Pouca coisa mudou desde então. Os mesmos compêndios de ensino científicos escritos nesta época (1930) poderiam ser utilizados no ensino contemporâneo, havendo mais razões de ordem didática e de estilo, que revoluções científicas justificando a elaboração de novos livros didáticos. Se retornássemos a meados do século anterior (1830), no entanto, para procurar livros científicos, obteríamos quase exclusivamente uns manuais de alquimia e outras bruxarias. Quase todas as ideias fundamentais compartilhadas hoje pelos cientistas foram desenvolvidas nestes tempos, entre 1830 e 1930, a despeito do pequeno número de cientistas existentes no período.

Embora gritante, a informação acima costuma ser pouquíssimo divulgada, e até escamoteada pelos meios de comunicação empenhados em confundir as coisas, passando a tratar tecnologia como ciência; a distinção costumava ser clara em outros tempos, quando os desenvolvedores de tecnologias eram chamados “inventores”.

A diferença, no entanto é significativa: cientistas almejam compreender o mundo, buscam a compreensão dos processos que governam as coisas. Tecnologistas, ou engenheiros, buscam dominar as coisas, inventando maneiras de controlar os processos tratados por eles, pouco se importando com a compreensão do que “de fato” acontece, chegando a negar tal possibilidade, como fizeram os físicos dos últimos terços do século XX.

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A ciência é uma atividade pré-capitalista pouco adequada ao mundo contemporâneo. Note que o propósito do cientista é desvendar e compreender o mundo, e que ciência não gera patentes nem lucros imediatos. Novas tecnologias, ao contrário, são inventadas com o propósito de angariar lucros.

A mecânica quântica, desenvolvida conforme cânones neopositivistas e finalizada nos anos 30, ilustra bem a transição de foco da compreensão do mundo para o seu controle. A teoria foi estabelecida com o propósito exclusivo de manipulação do mundo, chegando-se a alegar a incapacidade de compreensão, pela mente humana, dos fenômenos tratados por ela. Tal fato ilustra a supremacia da visão tecnologista imposta desde então, relegando a ciência a um papel secundário, e objetivando, fundamentalmente, os lucros. Acredito que a hegemonia americana emergente no período tenha tido grande responsabilidade na imposição da preponderância da visão tecnológica sobre a científica. Penso que o pragmatismo americano e a obsessão pelos lucros tenham, em vasta medida, sido responsáveis pela desmitificação da ciência e por seu relativo abafamento. Controlar o mundo tem-se tornado, desde então, mais importante que compreendê-lo.

Um cientista de um século atrás ficaria bastante decepcionado com a ciência contemporânea. Após um século de revelações e desenvolvimentos científicos assombrosos, como a eletricidade, a teoria do calor, evolução, relatividade, a ciência mergulhou em uma estagnação paradoxal, apesar do expressivo crescimento do contingente de cientistas profissionais.

Tal fiasco seria justificado por uma visão de mundo que denomino “mundo fechado”. De acordo com essa visão, existe uma certa quantidade finita de coisas, quase todas elas já conhecidas e descritas pelo vocabulário existente atualmente. Um mundo deste tipo teria sido desbravado pelos poucos cientistas surgidos no século XIX e, praticamente, exaurido por eles, a exemplo de garimpeiros que houvessem descoberto uma nova jazida de ouro. Segundo este modo de ver, teria sido fácil para os primeiros cientistas descobrir os fundamentos de todas as ciências, fazendo o grosso do trabalho e deixando apenas restos menores a serem descobertos por cientistas posteriores. Tal visão explica a razão de um contingente talvez milhares de vezes superior ao anterior, apresentar resultados tão decepcionantes, comparados com o brilho anterior.

Os que veem o mundo sob tal olhar referem-se a “descobertas científicas”, fenômenos análogos à extração de ouro e, como esta, sujeitas à exaustão. Para eles, o conhecimento do mundo teria sido exaurido pelos cientistas anteriores que teriam deixado quantidades cada vez menores de conhecimentos a serem descobertos pelas gerações seguintes, restando a estes, detalhes cada vez menores a descobrir, tendo sido todo o conhecimento possível já, fundamentalmente, desvendado.

Tendo sobrado tão pouco a ser descoberto, tendo já ocorrido todas as grandes descobertas, os cientistas de agora e, mais ainda, os do futuro, deverão se contentar com as migalhas restantes; precisarão efetuar enormes esforços, comparados aos de seus antecessores, para obter resultados relativamente modestos, enquanto todas as grandes teorias já foram descobertas, restando apenas fazer nelas pequenos ajustes e complementos. Por esta razão, as grandes descobertas científicas foram empreendidas em tempos já remotos, tendo restado pouco a fazer pelos cientistas do século passado, menos ainda pelos atuais, sendo hoje impossível empreender enormes façanhas científicas, comparáveis à teoria da evolução, ou a da relatividade. Em resumo, o que havia de mais importante a fazer, já foi feito, o que resta são apenas detalhes.

Considero toda a explicação acima um completo absurdo.

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Não vejo as coisas sob tal ponto de vista, penso que a ciência, assim como todo o conhecimento seja invenção, não descoberta. Não acredito que o conhecimento do mundo possa ser exaurido; creio que vislumbramos a imensidão de nossa ignorância cada vez que aprendemos algo, revelando, cada aprendizado, uma infinidade de desconhecimentos antes nem sonhados. Penso que reconhecemos, hoje, nossa ignorância muito maior do que a percebíamos há um século, tendo formulado uma quantidade muito maior de perguntas não respondidas, que em tal época.

Também penso que a ciência, assim como todo o nosso conhecimento, seja fundamentalmente invenção, construção de nosso espírito, elaboração nossa. Não se faz ciência tentando-se descobrir fatos preexistentes, garimpando-se o mundo ao redor em busca de pepitas ali deixadas pela providência. Construímos nossa ciência, inventamo-la. Inventamos, primeiro, as palavras que designam seus objetos, seus referentes. Expressões como “força”, “aceleração”, “espécie biológica”, ou “replicador”, foram todas inventadas recentemente, ou redefinidas precisamente, a partir de expressões preexistentes muito menos precisas, muito menos claras. Ninguém descobriu o significado de tais palavras andando por aí a observar sabe-se lá que fantasmas. O significado de tais palavras é construção de nossas mentes; estas, como outras, foram inventadas pelos cientistas com propósitos tão claros quanto suas definições.

Tendo-se inventado as palavras, elementos necessários para a elaboração e compartilhamento das ideias, formulam-se perguntas. Costuma ser pouco enfatizado, ou percebido, que a formulação da pergunta sugere o tipo de resposta a ser buscado. Formulações inadequadas dos problemas costumam pautar inúmeras questões consideradas importantes, que acabam resolvidas tão logo reformuladas de maneira a sugerir tipos de respostas mais adequadas que as formulações precedentes.

Tendo-se construído expressões adequadas, inventam-se perguntas que acabarão por sugerir a elaboração de teorias, as mais belas e estruturadas invenções de nossas mentes. Tais constructos pautam nossa visão de mundo, dão coerência a nossas ideias, aglutinam-nas em corpos estruturados.

A possibilidade deste tipo de ação é garantida pelo fato de vivermos em um mundo aberto, no qual não existe apenas um conjunto finito de possibilidades, de alternativas dadas, como em uma fase de videogame na qual uma única possibilidade resultará em sua conclusão, e superação, sendo esta a única possibilidade de sucesso na fase. Em um mundo aberto, as possibilidades são infinitas, não ficando restritas a um pequeno conjunto de escolhas predefinidas. Ao iniciar seu trabalho, o cientista se depara com uma página em branco onde ele comporá suas próprias criações. Teorias são criações mentais, como as composições musicais, não são como sacolas recheadas de pepitas de ouro, como creem os que defendem a visão fechada de mundo e de ciência.

Tenho defendido uma visão lúdica da ciência, sob a qual as questões científicas devam ser tratadas como enigmas de um grande jogo: o jogo da ciência. Os grandes jogadores deste jogo não costumam ficar espremendo limões já esbagaçados, mas costumam, eles mesmos, desbravar novos campos, inventando novas perguntas. Os grandes jogadores inventarão novas expressões, novas palavras para designar coisas e relações inventadas por eles, e, antes, não imaginadas. Tendo criado tais expressões, farão perguntas cujas respostas estruturarão novas teorias. Preconizo tempos férteis para o conhecimento, para a invenção de novas ideias, vivemos um momento especialmente efervescente.

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A título de ilustração, torno a mostrar minha própria versão da teoria da evolução. Esse texto continua censurado (ou pior, abafado), o leitor muito dificilmente conseguirá encontrá-lo através do google:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/teoria-da-evolucao-por-gustavo-gollo

Vejo o momento científico atual com enorme esperança; creio estarmos prestes a presenciar revoluções bombásticas em todos os campos, prenúncio que me anima fortemente. Haverá percalços e apreensões, certamente. Uma destas advirá do fato de que os mecanismos automáticos, a profusão de objetos inteligentes prestes a inundar o planeta, constituirão, em larga medida, instrumentos de dominação e controle muito mais eficientes que qualquer outra coisa que já tenha sido sonhada. Tanto o paradoxo, quanto a intensidade do problema, emergirão em nossas mentes ao considerarmos o fato de que desejaremos ardentemente ser dominados por tais criaturas. Não teremos nenhuma defesa, por exemplo, contra robôs sensuais, pelos quais nos apaixonaremos inexoravelmente.

Apesar de tais agruras, ou doçuras; conforme o ponto de vista, ou o momento; as máquinas inteligentes propiciarão gigantescas fontes de conhecimento passando a preencher os mecanismos de buscas, como o google, não mais com respostas propostas por pessoas, como hoje, mas desenvolvidas pela própria máquina, a partir de uma inteligência, ou de uma forma de pensar, muitíssimo superior à nossa.

Mesmo antes da abertura deste imenso portal, vejo declinarem, agora, certas tendências obscurantistas e anteriormente crescentes de substituição da busca do conhecimento pelo lucro. Também acredito que visões pluralistas se contraporão aos modos unicistas de encarar o mundo, sempre por um único ângulo, estratégia fortalecida pelo poder atual como tentativa de dominação global.

Certas expectativas com respeito à transição iminente que esfacelará o poder hegemônico que por quase um século manteve a ciência abafada, impedida de se renovar, de sofrer reconstruções drásticas, revolucionárias, também me animam a esperar um clima propício às mudanças.

Penso que estamos prestes a viver um período paradoxal que se manifestará como intensamente libertador quanto às ideias. Nossos corpos nunca terão sido tão intensamente controlados, enquanto nossas mentes terão liberdade para vagar por imensidões inauditas. Creio que as ciências e as artes se beneficiarão enormemente com a quebra da hegemonia que as manteve cativas sob jugo tão empobrecedor.

De qualquer modo, teremos a imensa responsabilidade, e satisfação, de construir nossos mundos.

Oh, admirável mundo novo!

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5 comentários

  1. CIÊNCIA ESTAGNADA?

    O autor não sabe ler, ou não se deu ao trabalho de acompanhar as revistas científicas. O desenvolvimento científico contemporãneo, em qualquer época, é mais difícil de entender para os leigos do que as antigas, já devidamente “mastigadas”. Espanta-me ver no GGN tal obscurantismo.

  2. Revoluções foram poucas …

    Revoluções foram poucas na história da ciência mas dizer que esta está estagnada e besteira e da grossa.

    GNN adora catar cabelo em ovo.

    • Ana, você não perde um besteirol, hein?

      Como diriam os Sertanejos: Você fala do boi em cima do couro.

      Deixa o Cara ser feliz. Você não é obrigada a acompanhar o suposto besteiro habitual do Cara.

      Sei lá, Ana Lúcida, Acho que nesse ponto, lhe falta um pouco de lucidez.

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