4 de junho de 2026

“A política tem dessas coisas”, disse Temer pressionando para liberar edifício

 
Jornal GGN – Convocado pelo presidente Michel Temer a comparecer ao Palácio do Planalto, no dia 17 de novembro, Marcelo Calero ainda ocupava o Ministério da Cultura quando ouviu de Temer que “a política tem dessas coisas, esse tipo de pressão”. Ordenou o então ministro Calero a “construir uma saída” para a decisão do IPHAN, que criou “dificuldades operacionais” em seu gabinete, sobretudo junto a seu braço direito, Geddel Vieira Lima, que estava “bastante irritado”.
 
O depoimento é de Marcelo Calero ao Departamento da Polícia Federal junto ao Grupo de Inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF). E é diante dessas palavras que a Procuradoria-Geral da República “pensou”, ainda estudava a possibilidade de abrir uma investigação contra Geddel. Isso porque também precisaria incluir Temer no inquérito.
 
“O depoente [Calero], ao final da conversa com o Presidente, ficou bastante desapontado, uma vez que foi advertido em razão de ter agido sem cometer qualquer tipo de irregularidade, que sentiu-se decepcionado também pelo fato de não ter mais a quem reportar-se a fim de solucionar esta situação, uma vez que o próprio Presidente da República o havia ‘enquadrado’.”
 
O documento de nove páginas é uma pesada acusação não somente contra Geddel, já a postos de pedir demissão da pasta Temer, mas também contra a estrutura de todo o governo peemedebista, condizente com irregularidades, pressões e jogos de interesses pessoais e econômicos.
 
Se, por alguns momentos, Michel Temer apresentava-se empático aos dramas de Calero, em outros, mostrava que por debaixo da cena pacificadora, prevalecia interesses maiores. E se os meros depoimentos poderiam representar fragilidades, faltas de sustentações ou provas, o ex-ministro da Cultura mostrou a carta na manga: gravou suas conversas com Geddel Vieira Lima, com Eliseu Padilha e com o próprio presidente Michel Temer.
 
Sobre Eliseu Padilha, Calero narrou que o Ministro Chefe da Casa Civil não agiu em tons tão “assertivos”, “enfáticos” ou “contundentes” quanto as seguidas ligações de Geddel o pressionando, mas que o ministro tentou negociar e articular para que Calero resolvesse o problema em favor de Geddel Vieira.
 
“Eliseu Padilha argumentou com o depoente no sentido de que se a questão estava judicializada, não deveria haver decisão administrativa definitiva a respeito; Que Eliseu Padilha disse ao depoente para que tentasse construir essa saída com a AGU; Que o depoente não procurou a AGU e nem tomou qualquer iniciativa de buscar saída que contemplasse a tese apresentada por Eliseu Padilha”, contou.
 
Após o recebimento do próprio IPHAN de uma manifestação definitiva determinando que o empreendimento deveria seguir as regras, entre elas, diminuir a quantidade de andares, o então ministro da Cultura disse receber “ainda mais pressões, vindas de diversos integrantes do Governo”.
 
E foi de Padilha a sugestão para que Calero se demitisse, deixando o governo. O Chefe da Casa Civil disse, por duas vezes, que “poderia ficar à vontade quanto a eventual demissão do depoente por conta dos fatos relacionados a este processo” e que, enquanto isso, tentasse “ganhar tempo quanto à resolução desta questão”.
 
E foi num jantar no dia 16 de novembro, oferecido pelo Presidente a senadores no Palácio da Alvorada, que Calero procurou Temer. O primeiro gesto do peemedebista foi de sinal de solidariedade: “Após contar-lhe toda a história, o Presidente disse ao depoente para que ficasse tranquilo, pois, caso Geddel lhe procurasse, ele diria que não havia sido possível atender a seu interesse, por razões técnicas.”
 
Mas foi enganosa impressão para o ministro da Cultura. No dia seguinte, foi convocado a comparecer no Planalto. Temer teria conversado com Geddel e verificado que seu braço direito do governo estava “bastante irritado” com a situação – de perder o imóvel de luxo que intercedeu tanto junto ao IPHAN na Bahia, ao Federal, com advogados e até na Comissão de Ética da Presidência. 
 
Ordenou Calero a conversar com a ministra Grace Mendonça, da Advocacia Geral da União, que teria uma solução para o problema. “A política tem dessas coisas”, completou Temer. No dia seguinte ao já aviso de demissão de Marcelo a Temer, o presidente ainda tentou articular para que Calero seguisse no caso, trazendo uma solução à Geddel.
 
O Secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha, ligou, avisando que ingressava com recurso da decisão administrativa junto ao MINC e ao IPHAN e que Calero deveria enviar os processos para a Advocacia-Geral da União. O então ministro explicou que já tinha conversado com Temer, que ficaria de fora do caso. “Gustavo Rocha disse ao depoente que também havia conversado com o Presidente e que seu intuito era o de que Calero encaminhasse os autos para a AGU”.
 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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16 Comentários
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  1. Luciano Prado

    25 de novembro de 2016 2:33 pm

    E o “sábio” e embromador de
    E o “sábio” e embromador de tolos e incautos Aécio Neves está colocando a culpa em Calero.
    Alimento para ruminantes.

  2. André W.

    25 de novembro de 2016 2:34 pm

    Para certas pessoas, uma

    Para certas pessoas, uma mamada é como um aperto de mão.

  3. Almeida

    25 de novembro de 2016 3:12 pm

    Se o presidente interveio, cometeu crime exercendo o mandato.

    A conclusão é do senador Lindbergh: “Agora é oficial, vamos pedir o impeachment de Michel Temer!”

    [video:https://youtu.be/QplYNgogdhU%5D

  4. Mancini

    25 de novembro de 2016 3:25 pm

    Black Friday

    1. Almeida

      25 de novembro de 2016 3:50 pm

      Para um golpista?

      Não vale esse preço, tá muito alto.

      1. Charles

        26 de novembro de 2016 2:29 pm

        R$ 0,01 a dúzia. E tem dúzias

        R$ 0,01 a dúzia. E tem dúzias deles.

  5. Rui Ribeiro

    25 de novembro de 2016 3:29 pm

    Novo ministro tem de ser alguém que não esteja metido com nada

    Os velhos Ministros tinham de ser alguém metido com alguma coisa?

    Pelamor

  6. ieda

    25 de novembro de 2016 3:34 pm

    Essa corja é tão rasteira que

    Essa corja é tão rasteira que já não tem o menor pudor. Virou putaria. Esse congresso nacional está mais do que podre. Não consigo mais ter esperança. 

     

    1. ze sergio

      25 de novembro de 2016 6:50 pm

      essa….

      30 anos de redemocratização para perceber que estamos governados por batedores de carteira, punguistas de 5.a, cafetão de beira de estrada. Uma das dez maiores economias do planeta, dos maiores países, olha o nível do nosso comando? Olha onde desce um Ministro com status de Chefe da Casa Civil e o próprio Presidente da República? E a cara do Aécio, vendo que sua estratégia no compl|ô com seus cúmplices para salvarem-se a todos, está desmoronando junto com os demissionários? Foi hilária. Quando cremos que já estamos no fundo da fossa, descobrimos que temos mais fezes para cavar. 

  7. Carlos Alberto Freitas Lima

    25 de novembro de 2016 7:25 pm

    BRAÇO DIREITO DE GEDDEL É PRESO PELA PF

    “Braço-direito de Geddel é preso pela PF por fraude em licitação

    Postado em 25 de novembro de 2016 às 3:26 pm

    Da Folha:

    Américo ocupa desde de 29 de junho deste ano um dos cargos mais importantes da Secretaria de Governo, a subchefia de Assuntos Federativos da Presidência, responsável pela relação com prefeitos. Ele faz parte do diretório do PMDB na Bahia e foi indicado por Geddel para o cargo.

    Ele é dono da empresa Serbem Serviços e Locações, que desde março deste ano presta serviços de transporte escolar em Malhada nas Pedras, num contrato de R$ 1 milhão.

    Na operação, a Polícia Federal cumpriu dois mandados de prisão temporária, dois de prisão preventiva, oito conduções coercitivas e 15 mandados de busca e apreensão. Noventa agentes participam da operação.

    Os mandados foram cumpridos em Malhada das Pedras, Salvador, Itagibá, Alagoinhas e São José do Jacuípe.

    A investigação aponta para um suposto direcionamento de licitação e superfaturamento do contrato por meio da adulteração da quilometragem de linhas percorridas pelos ônibus escolares.” Extraido do DCM

     

  8. Beto Filho

    25 de novembro de 2016 8:14 pm

    Sinto o Temer uma pessoa um tanto dissimulada.. que usa das palavras na forma de um jogo. Elegantemente ele ‘enquadrou’ o Calero a liberar a obra aqui em Salvador. Revelando-se ser imoral, antijurídico e jogador! 

  9. Mr Paulo

    25 de novembro de 2016 9:17 pm

    Geddel

    Será que houve alguma irregularidade da Prefeitura de Salvador em liberar o alvará de construção ?. Como todos sabem – apesar de serem de partidos diferentes – são aliados políticos e o prefeito de nossa capital é um dos herdeiros da OAS, que tem interesse na questão de construções de grandes edifícios na orla da capital.

  10. Nilva de Souza

    25 de novembro de 2016 10:10 pm

    Uma dúvida : não vai

    Uma dúvida : não vai acontecer nada ao Calero por ter grampeado o presidente da República?

    Nao é crime este expediente? Qualquer um pode gravar conversas da autoridade máxima, mesmo que golpista e usurpador, e ficar por isso mesmo?

    Independentemente de Geddel ser quem é, Calero não é nem um santinho. É tucano, e deve ter sido instruído a isto, para tentar emplacar um tucanalha na Presidência.

    Acho muito estranho que saia ileso.

  11. Nilva de Souza

    25 de novembro de 2016 10:10 pm

    Uma dúvida : não vai

    Uma dúvida : não vai acontecer nada ao Calero por ter grampeado o presidente da República?

    Nao é crime este expediente? Qualquer um pode gravar conversas da autoridade máxima, mesmo que golpista e usurpador, e ficar por isso mesmo?

    Independentemente de Geddel ser quem é, Calero não é nem um santinho. É tucano, e deve ter sido instruído a isto, para tentar emplacar um tucanalha na Presidência.

    Acho muito estranho que saia ileso.

  12. Beto Filho

    25 de novembro de 2016 10:44 pm

    Tem certas obras por salvador e região metropolitana que são estranhíssimas. Há 4 ou 5 anos, uma extensão de milhares de hectares de Mata Atlântica, em Vila de Abrantes, foi completamente desmatada, deixada no barro, sem qualquer árvore nativa, para a construção de um condomínio de casas de luxo do Alphaville. Quando vi aquela violência me deu até uma certa angústia. Acredito que deve ter havido manobras para a liberação pelo IBAMA. Contatos políticos, na mesma dinâmica que o caso La Vue. Sem falar em alguns casarões históricos pela Barra, Vitória e Cidade Baixa que foram derrubados para construírem restaurantes, estacionamentos ou prédios de luxo. Salvador era uma cidade charmosa, elegante. Hoje está violentada e feia, mal-tratada.  

    Tem certas pessoas que estão em certos papéis para trazerem degradação a um lugar, a uma comunidade ou mesmo a uma nação. 

  13. C.Poivre

    25 de novembro de 2016 11:56 pm

    Caiu a ficha dos empresários da indústria naval

    Aleluia: empresários da indústria naval finalmente descobrem que os golpistas querem que a Petrobras só compre de fornecedores estrangeiros e destrua a indústria naval brasileira que ressurgiu no governo Lula:

    http://cartacampinas.com.br/2016/11/empresarios-vao-a-justica-para-que-o-golpe-apoiado-pela-fiesp-nao-destrua-a-industria-naval/

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