A pós-verdade factual na era da suruba

O jornalismo gosta de ser visto como um quarto poder. Esta expressão surgiu na Inglaterra no início do século XX:

“… para designar o papel da imprensa na sociedade contemporânea. Naquela época, dizia-se que o Parlamento inglês era composto por três poderes, o temporal, o espiritual e o dos comuns, e que a galeria em que se sentavam os repórteres para assistir às sessões tinha se transformado no ‘quarto dos poderes’, tamanha era a influência da imprensa na opinião pública. A expressão popularizou-se nos Estados Unidos e, em paralelo com os Poderes da República – o Executivo, o Legislativo e o Judiciário – a imprensa poderia também ser denominada de quarto poder. Não um poder de fato, mas sim um poder de direito, que acima das demais instituições se apresentava de modo isento e capaz de avaliar de modo sóbrio a condução das causas públicas pelos poderes constituídos…” (Imprensa e Poder, organizador Luiz Gonzaga Motta, editora da UnB, Brasília, 2002, texto O projeto Folha e a negação do quarto poder – Ana Lucia Novelli, p. 188)

O quadro político/jornalístico brasileiro foi definido com uma precisão muito grande por Romero Jucá: “É todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.

A imprensa abandonou a sobriedade e jogou fora a máscara de isenção. Desde que começaram a instigar Aécio Neves a rejeitar o resultado das eleições, os jornalistas entraram de corpo e alma na suruba referida por Jucá. O que o senador fez foi apenas vocalizar a verdade factual. Entre a administração pública e o mercado não existe mais qualquer distinção.

Dentro e fora do Estado, milhares de maçons almejam apenas a mesma coisa: copular nas redações dos jornais e telejornais para proteger a quadrilha de Michel Temer e para impedir que Lula seja candidato à presidente em 2018. Nesse sentido, o quarto poder se transformou numa verdadeira alcova em que os machões se esfregam uns nos outros. A nudez deles nem mesmo causa escândalo. Isto explica porque o ator porno Alexandre Frota se tornou consultor do Ministério da Educação após o golpe de 2016.

A ética, que já havia se desmanchado na retórica telefônica de Jucá http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml, foi reconstruída através de imagens.  A suruba se tornou virtuosa. Tanto que Moro e Karnal podem desfrutar juntos um bom vinho e o mesmo karma, assim como Aécio Neves e Moro sorriem juntos numa foto histórica como se fossem Heféstion e Alexandre, o Grande.

Helenismo à brasileira. Ao invés de perambular pela Ásia espalhando civilização como o rei da Macedônia, a imprensa perambula no quarto do poder para expandir a barbárie em que o público se torna privado (juros para os Bandos, verbas de propaganda para as empresas de comunicação) e o privado se torna público. O estado paga sempre mais juros aos Bancos e distribui generosamente verbas de publicidade às empresas de comunicação no exato momento em que uma primeira dama do lar foi elevada à condição de o modelo de feminilidade num país em que os lares são desfeitos por causa do desemprego e da recessão.

Fiel à pós-verdade factual, a imprensa segue legitimando a suruba. Agradecidos e excitados pelo quarto poder, os políticos decidiram penetrar de vez o povo brasileiro. A justiça do trabalho não deveria nem existir, proclamou o presidente da Câmara dos Deputados. A reação jornalística à declaração foi pífia. O bom gosto de Marcela Tedeschi Araújo Temer é mais importante do que as obrigações assumidas pelo Brasil na OIT.

O suicídio internacional do Brasil está consolidado. Aloysio Nunes foi nomeado chanceler por Michel Temer na mesma semana em que Dilma Rousseff brilhou em Genebra. Tedeschi significa alemão/alemã em italiano. Até mesmo o nome de família da primeira dama do lar sugere fomos abduzidos por um filme quase tão trágico como Germania Anno Zero, de Roberto Rossellini. Logo estaremos vagando por cidades em ruínas como Edmund Kohler.

 

 

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