A dependência exclusiva de vazamentos de fontes faz com que a grande imprensa sempre ande vários degraus atrás dos fatos.
Principal instrumento de atuação da ala de Mendonça, O Globo limitou-se a desacreditar o relatório da Polícia Federal utilizado por Alexandre de Moraes.
Mostrou as inconsistências, com muitas observações classificadas pelo próprio relatório como “de baixo valor probatório”, e escondeu o principal crime, do qual O Globo é parceiro: a armação contra Fábio Luiz Lula da Silva, com a óbvia intenção de manipular a opinião pública em relação às próximas eleições.
Toda a retórica de O Globo é no sentido de que o relatório não apresenta provas documentais. Ora, não é esse o papel do relatório, mas o de apontar pistas para investigações.
Ele afirma que:
- Mendonça teria proposto benefício não previsto em lei durante as tratativas da negociação da delação premiada do empresário Maurício Camisotti, um dos principais investigados no escândalo do INSS (clique aqui).
- O ministro também teria dito que Gonet não é ‘digno de confiança’ devido à sua relação com Gilmar (clique aqui).
- Relatórios apontam que Mendonça teria cogitado afastar diretor da PF.
- O relatório da PF aponta que Mendonça teria atuado por motivação política, direcionado investigações contra alvos específicos e dado ordens que levaram à quebra da cadeia de custódia de provas — série de procedimentos previstos no Código de Processo Penal sobre como devem ser usadas, preservadas, processadas, armazenadas e descartadas as provas colhidas nas investigações.
- Quanto ao vazamento de provas, o relatório constata que “o acervo mais sensível da Operação Sem Desconto encontra-se sob custódia pessoal e sem trilha de auditoria, arranjo incompatível com o regime normativo da instituição”.
Todas essas afirmações são axiomáticas e facilmente comprováveis. No entanto, o ponto mais vulnerável de Mendonça não foi explorado pelo relatório: os negócios obscuros do Instituto Iter.
Os negócios do Iter
Não foi por outro motivo que, em pleno tiroteio do Supremo, no último dia 2, Mendonça interrompeu seus trabalhos para uma nota afirmando que saiu do Iter.
Candidamente, os jornais passaram ao largo dos negócios – muitos deles revelados em primeira mão pelo Jornal GGN.
Já em março deste ano, levantávamos a hipótese de Daniel Vorcaro ter patrocinado o Iter (clique aqui).
Desde então, estes foram os pontos apurados:
Xadrez de Mendonça 1 — Cláudio Castro (RJ)
Contratante: Secretaria de Segurança Pública do RJ (governo Cláudio Castro), R$ 518 mil, autorizado em maio/2025.
Interesse: Mendonça votou contra a inelegibilidade de Castro no TSE no período entre autorização e assinatura do contrato.
Aqui estão todas as impressões digitais: Castro assinou o contrato com o Iter e segurou o pagamento por 11 meses, aguardando a votação no Tribunal Superior Eleitoral sobre sua inelegibilidade. Mendonça foi um dos dois votos favoráveis a Castro (o outro foi de Nunes Marques). Onze dias depois, o pagamento foi liberado.
Xadrez de Mendonça 2 — Conselho Federal de Contabilidade (CFC)
Contratante: CFC — dois contratos em três meses, somando R$ 1,73 milhão.
Interesse: escritórios de contabilidade (KPMG, EY, PwC, Crowe) deram pareceres sem ressalvas sobre ativos fraudulentos do Master; CFC é entidade reguladora desse setor sob escrutínio no caso.
Xadrez de Mendonça 3 — Cioeste (São Roque)
Contratante: Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de SP (Cioeste), liderado pelo prefeito de São Roque, Guto Issa — R$ 1,2 milhão, julho/2025.
Interesse: São Roque investiu R$ 93 milhões no Master via fundo previdenciário (São Roque Prev), com prejuízo após a liquidação.
Xadrez de Mendonça 4 — TJ do Amazonas
Contratante: Tribunal de Justiça do Amazonas — R$ 1.635.900, MBA por inexigibilidade de licitação.
Interesse: Amazonprev (fundo previdenciário ligado ao TJAM) investiu R$ 50 mi em Letras Financeiras do Master, sem aprovação formal do comitê; PF apura propina na Operação Sine Consensu.
Antonio Denarium (governador de Roraima, PP)
Iter fechou contrato de R$ 273,6 mil com o governo de RR em fevereiro de 2025.
Meses depois, em agosto de 2025, Mendonça pediu vista do processo de cassação de Denarium no TSE (acusado de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022) e renovou o pedido, travando o julgamento.
O possível contrato com Vorcaro
No artigo “André Mendonça tenta apagar os rastros da ligação com o Master”, está o roteiro completo para investigar a visita de Daniel Vorcaro à sede do Iter, em São Paulo, para uma conversa reservada com Mendonça.
Segundo nota oficial, Mendonça afirma que tratou com ele apenas sobre algumas questões relacionadas a precatórios. Com amadorismo, não se deu conta de que uma das frentes de atuação do Master era a tentativa de validação de precatórios inviáveis.
Mas o buraco é mais embaixo. O Iter é obrigado a divulgar contratos firmados com o setor público, mas pode manter sob sigilo os contratos com o setor privado.
O que fizemos foi pegar o último contrato público, antes da visita de Vorcaro, em 14 de março de 2025, e o primeiro contrato público após a visita. Comparando a numeração de ambos, a diferença corresponderia a contratos firmados com o setor privado no período da visita de Vorcaro. Olhe o resultado:
- No dia 11 de março de 2025, o Iter emitiu a Nota Fiscal nº 189.
- No dia 14 de março de 2025, André Mendonça recebeu a visita de Daniel Vorcaro na sede do Iter, em São Paulo. Alegou que foi uma consulta sobre precatórios. Contudo, consultas sobre processos fazem-se no gabinete do ministro, no STF; reuniões na sede privada de uma empresa do ministro servem para negócios.
- No mesmo dia 14 de março, o Iter emitiu a Nota Fiscal nº 226.
- Isso significa que, em apenas 3 dias, foram emitidas 37 notas fiscais para clientes privados.
- No dia 1º de setembro de 2026, Paulo Motoryn divulgou a reunião de Vorcaro com Mendonça na sede do Iter.
- No dia 2 de setembro, o GGN revelou a existência de 37 notas fiscais emitidas em apenas 3 dias e desafiou o ministro a divulgar quem eram os clientes.
- Entre 9h30 e 11h do mesmo dia, o gabinete de Mendonça divulgou uma nota confirmando o encontro com Daniel Vorcaro no Instituto Iter, esclarecendo que a reunião ocorreu uma única vez, por iniciativa do próprio empresário, e que o diálogo limitou-se ao acompanhamento de um processo referente a precatórios que tramitava na Corte — um posicionamento auto incriminatório.
- Ainda no dia 2 de setembro, em pleno tiroteio do caso Master e no momento mais crítico da carreira de André Mendonça, o ministro anunciou ter se reunido com seu sócio e se desligado da sociedade do Iter.
Se houver um lampejo de jornalismo ainda no país, os negócios do Iter deverão entrar na mira da imprensa.
De qualquer modo, o relatório da PF é um roteiro para investigações de mal feitos de fácil verificação: todos eles estão documentados nas manchetes e nos vazamentos para O Globo.
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