4 de junho de 2026

Amazonas: levante popular anti-indígena

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“É importante sabermos que esse conflito oculta interesses econômicos e políticos disfarçados de comoção popular legítima. Não se trata apenas de três pessoas desaparecidas, mas sim de um longo conflito entre uma cultura ocidental, civilizatória e desenvolvimentista, e a existência indígena que, objetivamente, dificulta ou atrasa a realização de interesses do modo de produção capitalista. O agronegócio agradece a cada vez que indígenas se enfraquecem.”

Amazonas: levante popular anti-indígena

27 de dezembro de 2013

 

Humaitá em chamas! – sobre o atual conflito em curso e a posição do Estado brasileiro. Por Vanessa Nicolav

 

Neste exato instante, a cidade de Humaitá, no extremo sul do estado do Amazonas, vive um intenso conflito. Como de costume, praticamente toda a informação a respeito desta situação disponível na internet e nos meios de comunicação não dá conta de sua complexidade e tampouco explicita o pano de fundo e as motivações dos fatos que se desenrolam.

Primeiro acompanhe uma breve cronologia dos fatos que levaram à conflagração de um conflito de imensas proporções.

Nos últimos dias os Tenharim foram surpreendidos com a controversa morte de seu cacique Ivan Tenharim. Ele foi encontrado desacordado e ferido próximo à Transamazônica, foi levado ao hospital e não resistiu. As causas de sua morte ainda não foram averiguadas, o que tem gerado profunda indignação entre os indígenas, já acostumados com o descaso do governo brasileiro em relação às suas questões. Após esta fatalidade, uma sucessão de fatos igualmente estranhos levou a um conflito sem precedentes na cidade de Humaitá.

Correm rumores do desaparecimento, desde o dia 16 de Dezembro, de três homens no KM 123 no trecho da BR – Transamazônica, que atravessa a Terra Indígena (TI) Tenharim. Um servidor da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) conversou com as lideranças indígenas, repassando o que estava acontecendo na cidade e as acusações que pesavam contra eles. Nas duas vezes os índios negaram qualquer envolvimento sobre os desaparecidos e ainda disseram que as aldeias estavam abertas para averiguação, buscas e investigação por parte da Polícia Federal (PF) ou do Exercito.

A população saiu às ruas exigindo maior participação da PF para a busca e localização dos desaparecidos que, segundo eles, encontram-se na Terra Índigena dos Tenharins.

Porém, ao invés de um protesto legítimo, o que de fato está ocorrendo é um estado de terror, possivelmente financiado pelos madeireiros, já que, muitas vezes, órgãos como a FUNAI e a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) se colocam como empecilhos aos interesses escusos desses.

Há dois dias servidores da FUNAI e a população de Humaitá pedem apoio e ajuda da PF para conter as ações dos populares, que, sem nenhum impedimento, já atearam fogo em carros, barcos e no prédio da FUNAI e da FUNASA entre os dias 25 e 26 de Dezembro. 11 carros e 2 barcos das FUNAI foram queimados, assim como sua sede, a Casa do Índio e a Casa da Saúde do Índio – todas engolidas pelas chamas e saqueadas sem que a Polícia Militar (PM) impedisse.

Esta ação coloca em risco a vida de diversos moradores da cidade, que residem próximo aos locais incendiados, dos servidores da FUNAI, que neste momento se encontram escondidos em casas de conhecidos, temendo possíveis ataques dos manifestantes e de diversos indígenas da etnia Tenharim.

É importante sabermos que esse conflito oculta interesses econômicos e políticos disfarçados de comoção popular legítima. Não se trata apenas de três pessoas desaparecidas, mas sim de um longo conflito entre uma cultura ocidental, civilizatória e desenvolvimentista, e a existência indígena que, objetivamente, dificulta ou atrasa a realização de interesses do modo de produção capitalista. O agronegócio agradece a cada vez que indígenas se enfraquecem.

Humaitá é uma zona de intensos conflitos com madeireiros, que procuram extrair ilegalmente madeira de áreas protegidas (ou terras indígenas) para comercializá-las. São esses mesmos madeireiros que possuem o poder econômico (e portanto político) na região e, como sabemos, conseguem fazer com que seus interesses sejam levados a cabo. Há indícios de que justamente esses indivíduos estejam se aproveitando da comoção popular para patrocinar o caos, do qual se beneficiam, acirrando o ódio e incendiando os ânimos –assim os manifestantes (que têm sua razão para estar insatisfeitos) são utilizados como massa de manobra para favorecer interesses de uma elite. Afirma-se até que boa parte da gasolina que vem sendo utilizada aos montes esteja sendo paga por eles ou seus representantes, que não concordam, entre outras coisas, com os pedágios das terras indígenas, e se organizam para combatê-los com todo o tipo de recurso.

A PM e a PF, compactuando com esse ódio étnico, vêm sendo claramente negligentes, afirmando até mesmo que não é a primeira vez que os índios “causam” uma situação como essa e que até mesmo merecem a represália que vêm sofrendo. Desde que o cacique Ivan foi morto, há mais de 15 dias, a PF nem mesmo foi até a TI averiguar, simplesmente deixando a coisa acontecer; eles se mexeram apenas quando desapareceram homens brancos. O Estado brasileiro está sendo conivente; índios, cidadãos e servidores da FUNAI estão em perigo e não são tomadas as medidas necessárias para divulgar corretamente o que ocorre e conter a violência que se alastra de maneira completamente irresponsável. Até as 14h30 do dia 26 de Dezembro, não havia aparecido sequer uma viatura da PM para fazer prontidão à porta da FUNAI; dezenas de pessoas mexeram na cena do crime, tiraram fotos e pegaram o que quiseram do local, e após quase um dia inteiro de distúrbios é que a polícia decide comparecer ao local.

Não se trata de defender ou atacar indígenas, mas de denunciar a negligência do Estado e dos meios de comunicação brasileiros, prontos a defender os interesses daqueles que os mantêm: industriais, fazendeiros e a burguesia, passando por cima de populações desfavorecidas e/ou marginalizadas.

Precisamos furar esse bloqueio midiático e pressionar o Estado para que haja rapidamente. Centenas de indígenas estão ameaçados apenas por serem indígenas e muitos deles estão sendo conduzidos ao Batalhão de Infantaria do Exército para que possam ser protegidos. Servidores da FUNAI têm sua vida em risco por serem identificados como protetores dos índios.

Por favor, passe esse texto adiante, divulgue essa situação, entre em contato com quaisquer pessoas que você conhecer e que possam ajudar a mobilizar esforços para reverter essa situação calamitosa em curso.
Temos que colocar isso a limpo e no foco das notícias.
Há vidas em risco nesse exato instante. Contamos com toda ajuda.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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4 Comentários
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  1. mpaiva

    28 de dezembro de 2013 12:15 am

     
    Conflito violento no

     

    Conflito violento no Amazonas desde o dia 25 , só hoje começa a saltar das redes sociais

     

    “Explodiram carros, lanchas, barcos, duas salas da Funai. Hoje (26/12) arruaceiros invadiram novamente o prédio da Funai. Uma cena catastrófica. Os índios tiveram que fugir e os servidores ficaram tocaiados. Parece que a intenção das pessoas foi se valer desse fato das pessoas que sumiram para fazer uma grande manifestação contra os índios. Oitenta por cento da população de Humaitá está contra os índios. Tem envolvimento político nesse protesto”, disse a servidora.

    Ivaneide Bandeira, coordenadora da ONG Kanindé, que trabalha com etnias do sul do Amazonas, disse que entre os índios refugiados no quartel está uma índia Juma, que pertence ao grupo isolado. “Um indígena juma está protegida no quartel com medo. Tem mulheres e crianças na mesma situação. Isso só aconteceu porque o governo não tomou uma atitude no momento certo. Agora estão incitando a discriminação e o ódio contra os índios”, afirmou.”  (continua no link acima)

     Divulgação)

  2. morallis

    28 de dezembro de 2013 3:05 am

    Só faltava essa.

    Só faltava essa.

  3. Lucas Gomes

    28 de dezembro de 2013 3:46 am

    muita atenção em ver como o

    muita atenção em ver como o governo federal vai se posicionar (ou se ausentar!) nesses protestos.

  4. evandro condé de lima

    28 de dezembro de 2013 2:17 pm

    Eu ainda acredito que relatos

    Eu ainda acredito que relatos de quem vive e trabalha na região é melhor de quem analisa notícias já devidamente filtradas ou já com visões pré concebidas de uma situação. Conhecido meu que trabalha no Amapá, instalando linhas de transmissão- e olha que rala- possui uma visão peculiar sobre as questões fundiárias e sociais da região. Não descendo em minúcias, mesmo por que não as lembro todas, ele simplesmente está impressionado como grupos indígenas, quilombolas, sem terras, grileiros fazem de tudo para arrancar (ESTA É A EXPRESSÃO USADA) dinheiro da empresa que trabalha, por qualquer motivo. Mão de obra tem de ser importada por que não querem trabalhar, Ibama só age contra empresas e nada contra DENIT ou fazendeiros e com isso os custos das obras só aumentem.

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