1 de julho de 2026

Anarco Aurélio e Luiz Fux no palco iluminado do Supremo, por Luis Nassif

É possível manipular decisões nas duas mãos, usando os meios ou recorrendo aos fins. Basta deixar de lado a apreciação do caso, do que é justo ou não é justo, razoável e não razoável

Logo após o Plano Cruzado, me envolvi em uma guerra terrível contra o então Consultor Geral da República, posteriormente Ministro da Justiça, Saulo Ramos. Este preparava decretos, portaria, projetos com favorecimentos indecentes a diversos setores, mas todos eles formalmente bem embalados pelo talento de seu principal assessor, Celso de Mello, futuro Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

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Eu tinha problemas imensos para rebater os argumentos supostamente técnicos. Por mais que me esforçasse, não conseguia captar o que Saulo chamava de lógica jurídica.

De fato, com o Plano Cruzado a correção monetária, que era corrigida pela inflação, ficou congelada por um ano. Saulo deu um parecer considerando que títulos emitidos na véspera do final do congelamento, também teriam direito a um ano de correção. Era uma evidente burla do congelamento. Mas Saulo se escudava na própria lei do Cruzado para endossar a tese. E quem sou eu para discutir com o doutor no seu campo de conhecimento?

Na época, consegui uma fonte inesperada, o Ministro Sidney Sanches, do STF. Falei com ele, indaguei minha enorme dificuldade em entender a lógica jurídica. E ele me passou o mapa do entendimento.

– Analise uma decisão em si. Se é justa ou não em relação ao caso analisado. Se não for justa, a decisão estará errada. Ponto.

Dou esse volta para analisar a ópera bufa deste final de semana, estrelada pelos Ministros Marco “Anarco” Aurélio de Mello e Luiz Fux.

Anarco Aurélio, é um perseguidor incessante da extravagância. Tem a qualidade indiscutível de se colocar, sempre, contra a corrente. E a bandeira louvável de ser um contraponto à liberdade excessiva com que Ministros passaram a atuar para redesenhar a Constituição a golpes de interpretação, com a marreta do “clamor popular”, sob a justificativa de que os fins justificam os meios. Anarco Aurélio levantou outra bandeira: os meios justificam os fins.  Mas jamais conseguiu entender os limites entre a razoabilidade e a extravagância. Suas decisões não visam melhorar a jurisprudência, abrir brechas na hermenêutica jurídica, mas para ser meramente do contra.

Analise-se esse caso em pauta.

O legislador visou corrigir uma enorme distorção nas prisões preventivas transformadas em eternas, penalizando especialmente pequenos infratores que lotam os presídios atualmente. Exigiu, então, que, para manter a pessoa presa, a prisão preventiva deveria ser renovada de tempos em tempos, para evitar que o caso caísse na vala do esquecimento.

Aì cai nas mãos de Anarco Aurélio o caso de um traficante de alta periculosidade, um dos chefes do PCC, cuja prisão preventiva não foi renovada nem pelo procurador, nem pelo juiz. O que faria um Ministro com dose mínima de bom senso? Daria um puxão de orelhas em ambos e um prazo para renovar o pedido de prisão. Simples assim.

O que fez Anarco Aurélio? Manda libertar um réu que comanda uma organização criminosa internacional, tem à sua disposição recursos, aviões, esquemas internacionais e alega que a culpa é do promotor e ele não está ali para corrigir erros de terceiros. Fantástico!

Imediatamente colocou em risco os direitos de milhares e milhares de pequenos prisioneiros, sem o poder de influência do chefão do. PCC. Prestou um enorme desserviço aos mais vulneráveis, comprometeu as teses garantistes. Em nome de quê? Da extravagância.

Em março passado, Anarco Aurélio mandou soltar todos os presos com mais de 60 anos que fossem considerados de grupos de risco. Pior que a proposta de Marco Aurélio foi a contra-razão do vice-Procurador Geral da República Humberto Jacques. Segundo ele, não seria razoável que a população carcerária fosse posta em liberdade quando, em decorrência da pandemia, “todos estão sendo instados a reduzir a circulação”. Ganhou o Prêmio Luigi Ferrajoli de interpretação  do conceito de isonomia.

Nos últimos anos, Marco Aurélio se colocou contra a compulsão de muitos de seus colegas, de adaptarem as leis às suas convicções, sob o argumento de que os fins justificam os meios. Seu grito de guerra passou a ser “os meios justificam os fins”.

Ora, é possível manipular as decisões nas duas mãos, usando os meios ou recorrendo aos fins. Basta deixar de lado a apreciação do caso, do que é justo ou não é justo, razoável e não razoável. Lá atrás, quando tentava enrolar a opinião pública, Saulo Ramos recorria à interpretação literal da lei – escrita por ele mesmo. Mas é justo a viúva pagar 12 meses de correção monetária por um título de um mês de vida? É evidente que não.

É justo soltar um criminoso perigosíssimo, com base em um cochilo do promotor e do juiz? A lei diz que sim, alega Anarco Aurélio. Um mínimo de bom senso faria com que o Ministro alertasse e desse um prazo para que promotor e juiz renovassem o pedido de prisão preventiva. Mas isto não é problema meu, alega Anarco, não vou corrigir erros de terceiros. E o interesse público que exploda. Isto em um tribunal que aboliu completamente o conceito de irrelevância na análise de HCs, que nega HCs para quem roubou pacotes de manteiga, ou comida para saciar a fome.

Para completar o ciclo do salve-se quem puder no STF, o presidente Luiz Fux – que sonha ser carregado nos ombros por multidões ululantes, sequiosas de sangue – atropela a colegialidade e cassa a liminar dada por um colega.

O Supremo tem salvação?

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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19 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    12 de outubro de 2020 10:13 am

    Sugiro aos nossos eminentes magistrados, tão afeitos ao beletrismo que parece ser a própria essência de seu notório saber jurídico, que adotem, como alocução final de seus votos, despachos e decisões, o lema: “É verdade esse bilete.”

    1. Zé Sérgio

      12 de outubro de 2020 12:04 pm

      Agora ficam estarrecidos com tamanho absurdo? A Pátria da Bipolaridade e da Bandidolatria? O que saiu do contexto que nunca deixou de ser o ‘normal’? O Crime Organizado no Brasil é o Estado Brasileiro. O pior não é a decisão do STF. É a rapidez na análise do STF. É este mesmo STF e Poder Judiciário que permite que 2/3 dos Encarcerados no Brasil estejam nesta condição sem um único Julgamento. É este mesmo Poder Judiciário, este mesmo Estado Brasileiro, sob uma tal Constituição Cidadã que permite que se prendam Brasileiros, para somente muito tempo depois, se descobrir que foram presos injustamente e ilegalmente. E mesmo assim, são liberados sob a ameça de seguirem sendo processados. Este STF que não sabia quem julgava e teve toda esta celeridade. Quanta coincidência?! Inocente STF !!!! 90 anos de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. Os Ministros agora fazem fumaça para esconder o crime. É o mesmo Estado que transportava 550 Kg de cocaína, no Helicóptero do Senador. É o mesmo Estado que mantinha as câmeras do Galeão desligadas, quando fuzis chegavam em Aparelhos de ar condicionado. É o mesmo Estado que negociava casas do Presidente da Câmara com Traficante Internacional Foragido. É o mesmo Estado onde Desembargadora manda os Filhos Traficantes para SPA ao invés da Cadeia. É o mesmo Estado que solta Traficante e Assassino com tamanha celeridade. Mas o Crime Organizado, estes é produto destas Fabulosas e Fantasmagóricas Facções Criminosas. Ninguém sabe de nada, não é mesmo STF?! Sabemos. Pobre país rico. 90 anos de farsa sob a censura e o porrete. A culpa, esta, deve ser de Pero Vaz de Caminha. Mas de muito fácil explicação.

      1. Antonio Uchoa Neto

        12 de outubro de 2020 2:20 pm

        Não estou estarrecido com nada, companheiro.
        Apenas quis realçar a absoluta mediocridade do nosso judiciário.
        Se tivesse que estar estarrecido com alguma coisa, seria com a inércia desse mesmo poder, que, por algum motivo, deixou caducar um prazo técnico para renovar a prisão do sujeito.
        A razão dessa inércia, espero, algum dia, virá a tona. E certamente nos deixará a todos, inclusive você, estarrecidos.
        Meu único estarrecimento é com uma mente capaz de criar um refrão tão extraordinário como “Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista”.
        O que diabo significa isso?
        PS: – Só responda se for em linguagem de cristão. Se for no seu habitual “samba do crioulo doido”, por favor, ignore meu comentário.
        Um abraço!

  2. Roberto Maia

    12 de outubro de 2020 10:23 am

    Não tem. É uma cambada de”juiz ladrão”. Todos eles precisam levar uma coça.

  3. jaciara siqueira coelho

    12 de outubro de 2020 10:38 am

    Ministro Marco Aurelio precisa ser investigado e se comprovado envolvimento com o tráfico, preso.

  4. naldo

    12 de outubro de 2020 10:40 am

    Ora, ora…..justiça não é escolinha……não cabe “puxão de orelha” nos dois funcionarios publicos que estavam com o processo sob sua responsabilidade e não tomaram as providencias devidas…….cabe-lhes explicar, em processo cabível, a desídia que permitiu toda a lambança, nem os nomes desses dois foram citados até o momento…..

  5. Frederico Firmo

    12 de outubro de 2020 10:47 am

    Uma análise perfeita do Nassif. Nossos ministros usam as filigranas jurídicas quando querem se preservar, quando querem se evidenciar, ou quando querem atingir alguém. Esta semana usando uma destas filigranas , os tres juizes do TF4, mais uma vez fazem o uso de filigranas para negar a devolução do tablet ao neto de Lula. Depois de tantas e tantas prisões preventivas absurdas e ilegais, o Marco Aurélio escolheu a dedo que mais o colocaria em evidência, e agora aponta o dedo para Fux, que o atropela para também ganhar evidência midiática e bater na mesa, dizendo que agora ele está no poder. Fachin é outro que busca sempre um meio de prejudicar alguns e dar razão a outros e nem vou citar Barroso. Os narcisos buscam um espelho na mídia e ato após ato vão suicidando a instituição justiça. O mestre das filigranas e argumentações pomposas, agora se aposenta sem que tenha , neste momento tormentoso do país, contribuido em nada para o que se chama de justiça. O pomposo decano, de saída foge de decisões quando não tem certeza dos aplausos. Tão ferino e desrespeitoso com alguns foi omisso com outros já vai tarde contente com os elogios a seus textos e sentenças proferidos por todos que se calaram e se calam vergonhosamente com os autos e sentenças de Curitiba. Quem perdeu com tudo isto foi a justiça. O cargo de ministro do supremo não é se esconder em filigranas jurídicas, mas sim buscar uma interpretação judicial que leve à justiça. Mas os julgamentos do Mensalão, com condenados porque literatura assim o permite, o impeachment as prisões preventivas, as conduções coercitivas, e todos os abusos foram abençoados pelo supremo e inclusive por Marco Aurélio que apenas em alguns momentos convenientes se colocou contra a corrente.

  6. jcordeiro

    12 de outubro de 2020 10:54 am

    Nassif: de erro em erro, de-déu-em-déu, o Çupremu desfila na Sapucai ao som do SambaDoCrioloDoido — “dona Leopodina virou trem e dom Pedro I é uma estação, também”. Chupa essa manga…

  7. Orides

    12 de outubro de 2020 11:53 am

    Não.

  8. Helder Moura da Rocha

    12 de outubro de 2020 12:43 pm

    Não, Nassif. Só cabia ao Ministro revogar a prisão ilegal. Ao promotor e ao juiz não cabe “esquecerem” de cumprir a lei, se o cidadão é perigoso etc e deveria permanecer preso. Ao CNJ, CNMP ou corregedorias cumpre investigar a conduta dos agentes públicos prevaricadores (?). Ou quiseram inaugurar/testar a vigência de mais “uma lei que não pega”?.

  9. André Oliveira

    12 de outubro de 2020 2:08 pm

    *”É justo soltar um criminoso perigosíssimo, com base em um cochilo do promotor e do juiz?”*
    Tem certeza que foi um cochilo?
    Pode ter sido uma casca de banana jogada no caminho de algum ministro. Ministro solta e gera indignação contra a lei. Ai o grande congresso corre pra mudar a lei que incomoda os procuradores.

  10. Dermeval Santos Lopes Junior

    12 de outubro de 2020 2:38 pm

    Um Supremo perdido em tempos sujos.Estranhos uma cibola.

  11. Antonio Francisco das Neves

    12 de outubro de 2020 6:31 pm

    O deputado federal Lafayette de Andrada, autor da emenda usada para libertar André do Rap disse em entrevista: “eu não teria soltado”.

    https://www.oantagonista.com/brasil/entrevista-eu-nao-teria-soltado-diz-deputado-autor-da-emenda-usada-para-libertar-andre-do-rap/

  12. João Alexandre

    12 de outubro de 2020 6:35 pm

    Fantástico, o Nassif sugeriu que o ministro Marco Aurélio burlasse a lei, desse um jeitinho para não cumpri-la, isso em sede de HABEAS CORPUS, tudo porque o paciente era um traficante graúdo (o que pressupõe que caso fosse um preso menos relevante, estaria tudo bem). Depois reclamam da falta de justiça em cumprir a lei no caso Lula…

  13. Bo Sahl

    12 de outubro de 2020 7:03 pm

    Será que o que estão estão queimando em nossos Biomas é Cannabis?
    O fato é que o braZil está besteirãozíssmo. Um caos de discussões e opiniões cada vez mais baseadas em desinformação e deseducação. Vejamos:
    1) Um ministrélio pega a lei nua e crua e binariamente manda soltar. Podia ter feito isso dando um prazo para que os demais envolvidos agissem como deveriam.
    2) Um ministrux sem nenhuma autoridade institucional para isso, vai lá e desmonta a decisão do igual.
    3) A(s) policia(s), MP e juiz original não fazem o que deveriam e perdem o prazo de 90 dias.
    4) A míRdia sai detonando quem quer que seja desalinhado aos interesses que serve.
    5) O Congresso faz tantas leis que podemos escolher quais são “contra” e quais são “à favor”. Aí quem julga pode condenar ou absolver “à la carte”, dependendo do “freguês” ou do humor do dia. E por aí vai.
    Já estão dizendo que a lei é “ruim”! Que dá “trabalho”, que solta bandidos…
    NÃO É! NÃO SOLTA!
    A culpa não é da lei, mas DAS PESSOAS QUE A OPERAM!
    Nenhum bandido precisa ser solto se cada um fizer sua parte direito.
    E nenhum não julgado precisa ficar preso por mais de 3 meses sem justificativa.
    E as justificativas são dadas por PESSOAS!

  14. Dermeval Santos Lopes Junior

    12 de outubro de 2020 8:50 pm

    Esse é o tipo do problema que só se resolve na bala,mas nem isso eles têem coragem.Tenho a ligeira impressão que Anarco Aurélio levantou a bola para o safado do Fiat Fux cortar.Ah,com narração de Galvão Bueno.Vai pagar caro pela merda que fez.O meu amigo Nassifão poderia dizer:Quem com ferro fere,por ele será ferido.Estamos conversado.

  15. Vera Lucia Venturini

    12 de outubro de 2020 9:50 pm

    Ora, ora o abraço caloroso entre Bolsonaro e Toffoli é a imagem debochada dessa corte de indecentes fantasiados de juízes. Precisam da pompa, jactância e fantasia porque não lhes falta estofo moral, intelectual e ético para representar a Justiça.

  16. André Oliveira

    13 de outubro de 2020 9:46 am

    Nassif,
    Você realmente acredita que juiz, ministério público e policia “cochilaram” ao não providenciarem a renovação da prisão?
    Veja só como a grande imprensa imediatamente caiu matando em cima da tal lei e do ministro que a cumpriu.
    Dá a impressão de que essa loucura teve método.

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