A honestidade de Dilma é um entrave para Esquerda e para a Direita

Nos últimos tempos, o Blog vem claramente tentando passar a mensagem sobre querer acreditar em Dilma para justificar a luta pelo seu mandato. Isso soa estranho uma vez que faz parecer que a luta pela Democracia passa necessariamente pela aprovação de atos do individuo presidente, e não na Democracia em si. A Democracia é maior do que Dilma e parece que ela entende isso muito mais do que o Nassif e a grande massa de jornalistas brasileiros.

O mais curioso, e tresloucado, é que  a formação corpórea do Blog foi ditada pelo que o próprio Nassif chamou de “órfãos da grande mídia”. Órfãos estes cansados de tamanha manipulação, tamanha falta de vergonha na cara da imprensa canalha brasileira. Órfãos que perceberam antes mesmo da AP470 eclodir que não havia mais jeito, seriam longos anos de guerra informativa e que era preciso cerrar fileiras.

Com o passar dos anos os erros de petistas e, portanto, do PT, foram se acumulando e a metralhadora de rancor foi sendo, pelo menos em certo nível, justificada por tais malfeitos. Isso abriu espaço para a formação de viúvas que hoje são perfeitamente detectáveis quando começam seus discursos do tipo: “eu votei no Lula, no PT, na Dilma, mas…”. Os erros do PT também forçaram  jornalistas ditos progressistas a criticarem duramente as administrações petistas, apelando para o velho “o PT se perdeu”, aquele purismo que só existe nas idealizações e que nem mesmo os mais puristas acreditam de fato.

Até aí o exercício do jornalismo  não enviesado, objeto de desejo dos órfãos da mídia tradicional, estava sendo plenamente atendido pelo Blog. Acreditava-se enfim ter-se achado um barco informativo que não estivesse a reboque do que saiu no Estadão, Folha de São Paulo, o Globo, e Veja. Porém, as coisas começaram a mudar com a entrada de Dilma Roussef como sucessora de Lula.

Lula destacou-se no cenário nacional e internacional pelo aumento da renda e redução da pobreza. Ao mesmo tempo, Lula é considerado grande estrategista político por ter conseguido base parlamentar suficientemente grande para conseguir da cabo de projetos nacionais graças à habilidade de atender ao furor peemedebista e de outros partidos por cargos. Ou seja, conseguiu guiar o presidencialismo de coalizão por meio de negociatas típicas da condução política. Não havia críticas na Blogosfera a tal expediente, acreditava-se que isso, a política de concessões, era o necessário para um projeto maior: redução da miséria e projeção internacional brasileira.

Saiu Lula com quase 90% de aprovação e entra Dilma Rousseff. Avessa a política, assim como a maioria da população do Brasil, Dilma cometeu o erro de não ceder logo de cara como fez Lula. Associado ao “erro” de ser mulher em um país machista, mas que insiste em dizer que não,  a búlgara começou a ser bombardeada. No começo apenas pela grande mídia, mas depois passou a ser bombardeada pela blogosfera.

 A principal acusação que recaía sobre Dilma era, e ainda é, a sua intransigência, seu caráter mandão, não palatável aqueles que buscam cargos por troca de apoio. A tentativa de diminuir os juros ao menor patamar histórico foi devidamente demonizada por meio da propagação do medo em relação à inflação. O ponto de inflexão da mídia, pois Dilma chegou a sua considerada como a única com neurônios dentro do Governo, foi quando as petroleiras norte-americanas saíram do leilão de Libra bufando de ódio contra o regime de partilha.

A partir dali estava preparada a semente da Lava-Jato, uma vez que com Dilma o funcionalismo do MPF, da PF e de outros órgãos de fiscalização e controle não tiveram aumentos similares aos que tiveram durante a era Lula. Junta-se o anticomunismo antiesquerdismo, o classismo, que estavam represados, latentes no judiciário, com a falta de aumentos salariais demandados, pronto! Um demônio comum estava definido: Dilma.

A honestidade nunca foi e parece que nunca será uma demanda real no Brasil. Dilma tem reputação ilibada, mas parece que isso não importa e, pior, os achaques, as declarações daqueles que não tem um pingo de moral para falar de Dilma, são tomadas como munição para minar a presidente que ingenuamente pensou que os brasileiros querem de fato o fim da corrupção, querem um presidente honesto. Isso é mentira! Absolutamente mentira! As provas dessa mentira estão aí. Nunca esteve tão clara a evidência de que o brasileiro médio, de uma forma geral, preferiria não saber do que saber da corrupção. Assim não teríamos aquela coisa de que nunca se viu tanta corrupção no país. De fato, nunca se viu, infelizmente, para Dilma Roussef.

Pode-se colocar a culpa na ignorância política do brasileiro, mas isso não tira a culpa da falsidade, da nossa hipocrisia. Dilma é culpada, como apontou o texto do Nassif, por ter exposto aquele que “fala pela nação”, Augusto Nardes, antes do julgamento das contas do Governo. Dilma é culpada por não ceder a base aliada formada por amigos da onça como Temer. Dilma é culpada por não ter conseguido manter o antipetismo  do judiciário em níveis controláveis por meio de aumentos sucessivos de salário. Dilma é culpada por não atender as chantagens do PMDB antes da aparição de Cunha no cenário nacional.

Percebam a loucura que até mesmo o Nassif se envolveu? Dilma é culpada por tudo, até mesmo por não atender as piores expressões da política brasileira, da sociedade brasileira. A principal delas, as chantagens que hoje são até televisionadas, ditas assim, na lata, e tristemente aplaudidas por milhares de brasileiros. Dilma é culpada por não perceber, assim como  lula fez, que para não ser culpada pela falta de caráter dos outros personagens da política brasileira (Membros do Judiciário, Delegados da PF, Cunhas, Renans, Temers, etc) era preciso ceder, fazer negociatas. Paradoxalmente, negociatas que o brasileiro vira e mexe julga mais odiar, pois enxerga nela a corrupção. Se odiassem negociatas, a politicagem, no pior dos casos, manteriam-se neutros em relação à ilibada Dilma, sem propagação de ódio ignorante (se é que possível ódio inteligente).

Só o tempo vai dizer. O calor do momento turva as visões, mas Dilma é incompreensível justamente por não se encaixar em nenhum dos cenários analíticos que tem como base fundamental o, hora sim hora não, demonizado jeito de fazer política brasileira. Talvez por isso ela esteja carregando o fardo de sempre ser culpada pelos descontroles das piores expressões da política nacional, que não são poucas. Dilma Roussef, a avessa à políticagem, foi talhada para ser presidente em um Brasil hipotético, onde a correspondência entre discurso contra e corrupção e a prática estivesse em altíssimo nível. Dilma não foi feita para o Brasil de hoje onde a hipocrisia e a ignorância andam de mãos dadas na cabeça, principalmente, dos ditos mais instruídos.

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