Carta foi assinada por diferentes líderes católicos de todo o país e fala em “uma das candidaturas” ameaçar o Brasil; manifesto convoca fiéis a votar em defesa dos direitos sociais, da soberania e do meio ambiente
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de bispos e arcebispos católicos divulgou uma carta aberta em que alerta para os riscos à democracia, à soberania nacional e aos direitos sociais em posições que estão associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Mesmo não citado nominalmente, a carta visivelmente critica o senador.
O documento, intitulado Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, sustenta que propostas de “uma das candidaturas” entram em contradição com princípios centrais da Doutrina Social da Igreja (DSI). A manifestação foi divulgada na quinta-feira (22) e, nesta sexta-feira (23), continua aberta a novas adesões.
Os bispos questionam posições atribuídas sobre a jornada de trabalho, o acesso a armas, a política externa brasileira e a crise climática. Em contraponto, descrevem explitadamente “o atual Governo”, na candidatura do presidente Lula (PT), como uma alternativa que, apesar de sujeita a críticas, demonstrou responsabilidade com os mais pobres e respeito à Constituição e à ordem democrática.
“Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição”, traz o documento.
Democracia, direitos sociais e soberania
No centro da manifestação está o alerta de que a disputa eleitoral não se limita à escolha de um novo governo, mas pode determinar mudanças profundas nos rumos do país. “O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, escrevem os líderes católicos.
Os religiosos associam essa preocupação a propostas que consideram incompatíveis com os princípios da Igreja Católica. Entre elas, destacam a posição contrária ao fim da escala de trabalho 6×1 e a defesa de medidas que ampliariam o acesso da população a armas de fogo.
A carta também critica a perspectiva de uma política externa que, na avaliação dos signatários, submeteria os interesses brasileiros aos dos Estados Unidos. No campo ambiental, os bispos questionam o que descrevem como a negação da crise climática e dos problemas ecológicos.
Referência à ditadura e alerta contra o autoritarismo
A carta também faz referência à ditadura militar brasileira e às homenagens prestadas pela família Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante o regime militar.
Os signatários associam esse histórico a preocupações com a preservação da ordem constitucional. O documento afirma que “um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por
atentar contra a democracia” e segue suas ideias” e sustenta que a continuidade dessas ideias poderia abrir espaço para ameaças institucionais.
Os bispos afirmam ainda que uma eventual maioria parlamentar alinhada ao candidato poderia criar condições para a concentração de poder e a imposição de uma orientação política contrária aos princípios democráticos. Ao recorrer às experiências autoritárias do século 20, os religiosos defendem que os eleitores considerem as consequências históricas de projetos que, em sua avaliação, ameaçam a democracia.
“Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes”, diz outro trecho da carta.
CNBB e Conselho concordariam
Os signatários afirmam estar em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade em 21 de outubro, que defendeu a Constituição e o respeito às urnas e recomendou aos eleitores que avaliassem a trajetória dos candidatos.
Ao abordar diretamente a escolha eleitoral, os bispos afirmam que eventuais críticas ao governo Lula não deveriam se sobrepor aos princípios que, segundo eles, estão em jogo na disputa. “Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirma o texto.
A carta conclama os católicos a comparecer às urnas no domingo (25), defendendo a democracia, os valores humanitários, os direitos dos pobres e os ensinamentos da Igreja. Até a manhã desta sexta-feira, 64 bispos católicos assinavam a carta, que segue aberta para novas adesões públicas.
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