Bolsonaro demite presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos

A exoneração acontece um dia depois de Eugenia Gonzaga ter se manifestado contra a declaração de Bolsonaro sobre a morte de Fernando Santa Cruz, desaparecido político.

No Diário Oficial de hoje saiu a exoneração da presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos Eugenia Gonzaga. A exoneração acontece um dia depois de Eugenia ter se manifestado contra a declaração de Bolsonaro sobre a morte de Fernando Santa Cruz, desaparecido político.

A Comissão é um órgão de Estado e Eugenia havia sido nomeada por decreto, razão pela qual a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos não conseguiria exonerá-la sem um decreto da própria Presidência da República.

Quando assumiu a CEMDP, a comissão tinha ficado praticamente inativa durante toda sua existência. Eugenia já tinha histórico de defesa da causa dos desaparecidos. Como procuradora, abriu inquéritos contra Badan Palhares e outros legistas que trataram sem cuidado as exumações. Assumindo o cargo – não remunerado -, não solicitou ao MPF dedicação exclusiva nem acréscimos em sua remuneração. Continuou com a função de Procuradora Regional, acumulando as duas tarefas.

Sem formação nem alinhamento político, desde o primeiro momento abraçou a causa dos desaparecidos políticos movida exclusivamente pela missão que abraçou, como Procuradora da República, e uma extrema solidariedade aos vulneráveis, razão de ter se tornado pioneira, também, na luta pela educação inclusiva.

Foi esse sentimento, de solidariedade às famílias que não podiam prantear seus mortos, que fez com que, ao lado do colega Marlon Weichert, abrisse as primeiras ações contra torturadores, como Brilhante Ustra.

No cargo de presidente da CEMDP, conseguiu reativar os laudos periciais, montar convênios com laboratórios internacionais indicados pela ONU. Embrenhou-se pelo mato, em Foz do Iguaçú, em cemitérios no interior da Bahia, chefiou missões em Marabá, enfrentando ambientes hostis, tudo pelo desafio de localizar os corpos e amainar a dor das famílias.

Nos últimos tempos, vendo a tempestade da intolerância se aproximar, dobrou sua dedicação. Tratou de enviar amostras de ossadas e de sangues de familiares recolhidas para o laboratório ICMP, no exterior, para análise genética e preservação.

No final do ano passado, promoveu um evento em Brasília, reunindo pela primeira vez os familiares de desaparecidos, em uma cerimonia emocionante. Lá, em nome do Estado brasileiro – a Comissão é um órgão de Estado, não de governo – pediu desculpas às famílias.

Este ano, no dia 31 de março organizou uma Marcha do Silêncio no Parque do Ibirapuera, em homenagem aos desaparecidos, uma reunião inesquecível de música, lágrimas, orações e solidariedade.

No último mês, Eugenia requereu licença e não parou de trabalhar. Não pediu reembolso, o que é permitido pelos regulamentos do Ministério Público Federal. Os trinta dias foram integralmente dedicados aos trabalhos da CEMDP. Conseguiu a retificação do atestado de óbito de Fernando Santa Cruz, antes que fosse alvo da inusitada grosseria de Bolsonaro, e preparava uma cerimônia em Recife de congraçamento com famílias de desaparecidos.

A demissão encerra um trabalho profícuo que ajudou a reafirmar, para o país, o lado esquecido do MPF, da grande instituição que poderia ter sido, de defesa dos direitos difusos da cidadania, de bandeira dos direitos humanos.

Que seu exemplo frutifique.

 

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15 comentários

  1. Era previsivel. A ética da Eugenia não é compatível com esse psicopata que governa o país. Mas vai passar…
    Mas a Globo continua humanizando-o. Teve o pão com leite condensado, ontem a caneta bic e hoje a Globo revela que o psicopata usa laquê.
    Ontem Bolsonaro revelou estar cada vez mais apaixonado pelo Trump e que quer namorar o Fux. Será que se ele sair do armário deixa o país em paz?

  2. Retaliação é o nome disso, promovida por um desequilibrado e assessorado por um homem mal, o general Heleno. Falta a solidariedade de seus colegas, os procuradores.

    • Verdade. Cadê os procuradores “militantes” para defender a Eugênia? E a PGR que mandou parar de investigar só o filho do psicopata vai continuar de joelhos para manter a sinecura?

  3. minha solidariedade. ampla, geral e irrestrita. ainda que reconheça que de prático minha solidariedade pouco acrescente.

    já assistira ao vídeo postado aqui no GGN Nassif.

    nele é destacado que o crime de desaparecimento forçado é um crime contra a humanidade e imprescritível. além disto, enquanto todas as circunstâncias não são elucidadas e feitas as devidas responsabilizações, trata-se de um crime em andamento.

    estranhos tempos. é justamente pela boca do Capitão-Presidente, um representante Porões da Ditadura Civil-Militar, que entram na ordem do dia os crimes cometidos pelas FFAA brasileiras.

    enganam-se os Generais, engana-se cada militar. não se trata apenas de crimes ainda em andamento. jamais as FFAA brasileiras assumirão sua missão em defesa da Soberania Nacional e Popular sem um amplo, geral e irrestrito acerto de contas com seus crimes.

    nenhuma auto-anistia manterá desaparecido tudo aquilo que ainda agora prossegue desaparecendo.

    por exemplo: a exoneração da presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos.

    tempos estranhos. tudo agora é karma. e o karma se tornou instantâneo.

    não restará pedra sobre pedra. só haverá futuro, e um novo presente, caso assumamos sua construção a partir destas pedras.

    só assim seremos novamente merecedores da misericórdia divina.
    .

  4. O tirano da Tijuca não apenas tenta tolher, nem que seja por um breve período, a luta pelos direitos humanos, como também contra a liberdade de imprensa, posto que o Nassif há alguna dias compartilhou conosco ser o outro na vida dela, pois o primeiro é o maor pela causa que abraçou.

    Portanto minha solidariedade ao casal. Saibam que açoes desse tipo, só nos anima a nos por em marcha contra toda forma de opressão. Dia 13 nos aguarda.

  5. Parafraseando e mudando um pouco a famosa frase de Darcy Ribeiro “Eles venceram, por enquanto. E neste momento detestaria estar ao lado deles”.
    Parabéns a Eugênia, disse isso no vídeo em que ela comenta o homem mau que é Bolsonaro. Continuamos a batalha. Já eles, certamente, passarão.

  6. Eugenia, nao te conheço nem o seu trabalho sabia, mas sou solidária, pois pelo que li somente aqui ja sei o quanto é valoroso seu trabalho. E é uma pena que trabalho como o seu nao é e não foi divulgado na midia de massa. Parabéns e acredito que tudo passa e esse ser que colocaram como presidente e estes políticos desrespeitosos vao passar e com certeza teremos uma nova política em nosso Brasil.

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