Jornal GGN – A prioridade número 1 da política nacional hoje deve ser “isolar a extrema-direita”. “Porque se isso não for feito, o risco que a gente corre de experimentar um regime autoritário é muito grande”, disse o filósofo e cientista social Marcos Nobre, nesta quarta-feira (7).
Em entrevista ao canal Tutameia, Nobre disse que Jair Bolsonaro pode estar preparando o terreno para fechar o regime democrático em um possível segundo mandato.
Ele citou o exemplo de Victor Orban, que fez o mesmo na Hungria, e citou a existência de uma espécie de Internacional Autoritária no mundo que inspira e dá respaldo aos atos de Bolsonaro.
Para Nobre, isolar a extrema-direita requer que o sistema político atual seja capaz de reciclar conjuntamente dois momentos marcantes na história brasileira: as Diretas Já de 1984 e o impeachment de Fernando Collor, em 1992.
“Diretas Já porque existe um risco real de uma regressão autoritária, portanto, você precisa formar uma frente ampla para impedir que isso aconteça. Em segunda lugar, para poder isolar a extrema-direita, na minha opinião, só um impeachment conseguiria fazer isso. Para que haja impeachment, tem que ser um como o de Collor, em que praticamente todas as forças políticas estiveram presentes nessa frente pró impeachment. Por que isso? Porque vamos afastar um presidente e manter a democracia.”
Para Nobre, em 1986, o sistema político teve a inteligência de perceber que a frente ampla teria de dar as mãos a uma parte das Forças Armadas que ascendeu ao poder com o golpe. “Era claro naquele momento [que alianças precisavam ser feitas, obstáculos precisavam ser superados], mas não sei se está claro hoje, porque as pessoas se acostumaram com a democracia e acham que ela vai estar aí para sempre, que não tem como ser destruída. Tem como ser destruída, e rápido. Uma extrema-direita que consegue se organizar e chegar ao poder em quatro anos – que foi o que aconteceu com Bolsonaro – essa extrema-direita é muito perigosa, porque fecha o regime num segundo mandato, se for reeleito”, alertou.
“Para mim, a situação [atual] une as duas coisas: tem que ser uma frente ampla para impedir que o autoritarismo retorne”, como nas Diretas Já, e um movimento a favor do impeachment de “amplitude máxima”.
“Ninguém consegue fazer um impeachment que dê certo com uma parte só do sistema político. Vê o impeachment de Dilma, a catástrofe que foi. Uma parte da política matando a outra. Qual foi o resultado? A desgraça em que a gente está (…) Precisamos saber como afastar um presidente sem destruir a democracia“, disse.
Na visão de Nobre, juntas as duas pontas da história requer “sutileza de análise e sutileza na hora de agir. Saber qual é a correlação de forças, o que a gente pode fazer e com quem a gente pode contar. E não dar de barato que Bolsonaro tem tudo que ele tem, e que todo mundo tá com ele. Não está. Não tem 58 milhões de fascistas no Brasil, a não ser que você entregue tudo isso para o Bolsonaro.”
Para o analista, passadas as eleições municipais de 2020, o sistema político provavelmente estará mais aberto a discutir uma frente ampla.
INTERNACIONAL AUTORITÁRIA
Ainda de acordo com Marcos Nobre, Bolsonaro pode ser enquadrado no rol de “populistas autoritários”, ao lado dos líderes da Hungria, Filipinas, Polônia, Turquia e Estados Unidos.
Ele analisou que o “marco inicial do populismo autoritário atual é a eleição de Victor Orban na Hungria em 2010. Orban utiliza o primeiro mandato, até 2014, como primeiro-ministro, para preparar o fechamento autoritário que ele realiza no segundo mandato, de 2014 até 2018.”
Quando Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, em 2018, “ele já tinha 8 anos de experiência de populismo autoritário no mundo para se espelhar. E é isso o que ele faz.”
“Então existe uma Internacional que não chamo de conservadora – que conservadora é uma posição que respeito – mas existe uma ‘Internacional Autoritária’ que sustenta projetos nacionais.”
E Donald Trump é a “figura central para legitimação de todos esses projetos autoritários nacionais. Todos esses populistas autoritários implantam o autoritarismo em nome da democracia” e têm em Trump uma “referência” e um padrinho político. Nesse sentido, a eleição nos EUA em 2020 pode ser um divisor de águas.
“Se Trump perde a eleição, isso corta uma perna do Bolsonaro. Mas isso pode ter um efeito ainda pior. Porque pior do que um populista autoritário, é um populista autoritário acuado. Se ele [Bolsonaro] perde esse apoio internacional fundamental para ele, o projeto autoritário pode se tornar ainda mais forte e necessário.”
“Mas a gente torce para que Trump perca a eleição”, disse Nobre, “porque isso vai permitir que o mundo saia, em parte, dessa organização autoritária internacional”.
Confira a entrevista completa abaixo:
Maria José dos Santos Rêgo
7 de outubro de 2020 1:51 pmDiretas Já seria o corrreto. Direitas Já…
Tem como corrigir?
Bo Sahl
7 de outubro de 2020 2:15 pmOxi! 6 anos mais? Depois de 20 em 2 pra trás de Temer, vamos acrescentar (menos) 60?
Vixe, Nobre Marcos: troque seu “no segundo mandato” por pelo menos “num (eventual) segundo …”
Introduza aí pelo menos uma incerteza, Kah Ráios!
Como dizia a sinhá véinha:
Cruzes! Cruz credo, pé de pato, mangalô, três vêis!
PS: De resto, concordo e vejo o DEM (oníaco?) Maia como enorme responsável por não permitir que este processo aconteça em tempo hábil. O capetão amilicianado está gostando do cargo e para se reeleger é capaz até de criar um bolsopetismo (hehe). Tamufú…
Paulo Dantas
7 de outubro de 2020 5:47 pmTodos a favor de uma frente única , desde que ele(a)s sejam os únicos, não rola.
Simplesmente não rola.
Não me culpe também
ROGERIO D. MAESTRI
7 de outubro de 2020 8:57 pmEsse discurso que não existe autoritarismo fora da cabeça de Bolsonaro é uma bobagem, a chamar o centrão de forças democráticas é um deboche a toda a população pobre que está sendo massacrada pelo governo Bolsonaro apoiado institucionalmente por Maia e outros.
Fazer uma frente com esse lixo é validá-lo como algo democrático.